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Arlindo Almeida: Para mundo!

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 1 de abril de 2020 às 18:48

O mundo parou, perplexo, ante a peste que se abateu sobre todos, forçando-nos a, obrigatoriamente, pensar: o que fizemos de errado? Fato incontestável é que tudo o que está acontecendo hoje, é fruto dos descasos, da troca do essencial pelo efêmero, da ganância por valores materiais, da busca de poder, da falta de solidariedade para com os que sofrem, de destruir o meio ambiente, do não pensar no futuro dos nossos descendentes, como se o mundo fosse acabar agora. Construímos um bezerro de ouro como um Deus a ser adorado, visível e grandioso e deparamos com um vírus invisível aos olhos humanos que desconstruiu essa visão megalomaníaca de que somos os todos poderosos. Somos apenas pó.

Estatísticas recentes, corroboram essas considerações. O produto interno bruto dos mais de 200 países, terá sido, em 2019, de aproximadamente US$ 90 trilhões, concentrado em uns poucos, a nata da economia mundial: Apenas 2% da população concentra 50% de toda a riqueza mundial; 0,5% da população é dona de incríveis 38,5% de toda a riqueza do mundo; Em contrapartida, 2/3 da população mundial possui menos de 4% da riqueza mundial; As “mil” pessoas mais ricas do mundo são donas de US$ 4,5 trilhões, o que equivale a  “duas” vezes o PIB anual brasileiro. Fala-se muito sobre os 2% mais ricos e pouco se ouve sobre os 2/3 da população, os pobres do mundo. Num mundo utópico, que nenhum regime será capaz de adotar, se dividida toda a riqueza produzida, teríamos algo como R$ 50 mil reais/ano, por pessoa, e, com esse valor ninguém morreria de fome.

Mas voltemos ao mundo real.

Pensando no poder, cuja faceta mais visível e agressiva é o militar, os gastos mundiais com forças armadas serão, em 2020, mais de US$ 3 trilhões. E a estatísticas sobre saúde são deprimentes.

São previstas mais de 3 milhões de mortes por doenças transmissíveis este ano, das quais 1,6 milhão de crianças menores de 5 anos, 41 milhões infectadas pelo HIV/AIDS, das quais 411 mil mortos, 240 mil por malária, mortes por câncer (2 milhões), pelo consumo de álcool (612 mil), pelo fumo (1,2 milhão), sem contar 330 mil mortos em acidentes de trânsito, estas com grande “contribuição” do Brasil. Sem saber, ainda, quantos morrerão pelo coronavírus.

Ao todo são aproximadamente 850 milhões de pessoas desnutridas, 8 milhões morrerão de fome, num mundo com 1,7 bilhão de pessoas com sobrepeso e 760 milhões de obesos.

O meio ambiente também sofre, como disse o Apóstolo Paulo, como que “as dores do parto”: são mais de 1,2 milhão de hectares de perdas de florestas, 1,7 milhão de hectares de erosão de terra fértil. Tudo isso por ano, comprometendo o futuro da humanidade. Os países ricos, que criticam o Brasil como que construindo um “bode expiatório”, são os que mais poluem, emitindo perto de 40 bilhões de toneladas de CO2 ao ano.

E tudo isso colabora para os surtos epidêmicos que frequentemente nos assombram. Doenças que já foram afastadas, outras neutralizadas por vacinação, e, outras, infelizmente, pouco conhecidas e de efeitos devastadores, caso do coronavírus.

Alguns países, por diversas razões, já atingiram um estágio mais avançado no enfrentamento de crises como esta. Mas, mesmo assim, sofrem as consequências, apresentando níveis de contaminação que assustam, matéria prima para os maus cidadãos inundarem o mundo com notícias falsas, que infundem medo.

No Brasil, a realidade é que, apesar de contarmos com o mais criativo programa de saúde pública do mundo – o SUS – ainda sofremos muito por diversos fatores conexos que não funcionam a contento – orçamentos contidos, falta de educação das pessoas quanto aos riscos, infraestrutura deficiente, dependência externa para suprimento de insumos para a área. As condições de trabalho nos centros de atendimento a pessoas que necessitam de apoio são ruins. Esse despreparo do Brasil ante a crise foi construído ao longo de décadas, por falta, principalmente, de estratégias públicas para o enfrentamento de momento perigoso como este.

Pouco adiantará fugir dessa constatação, por qualquer subalterno interesse, seja ideológico, político ou econômico. Sem essa do quanto pior melhor.

É hora de união de todos: cidadãos, governantes das três esferas de poder: executivo, legislativo e judiciário. Dos três níveis de governança: união, estados e municípios. O Brasil pode dar um exemplo ao mundo e para as futuras gerações. Precisamos acabar com a esdrúxula queda de braço entre nossos líderes federais, estaduais e municipais, matéria prima excelente para formadores de opinião sem qualquer resquício de patriotismo ou de vergonha na cara, a jogar mais combustível na fogueira ardente que queima vidas inocentes.

Pode parecer estranho que um economista esteja a fazer uma análise desse tipo. Desejamos fugir do lugar comum das previsões que se mostraram erradas em todos os cenários sobre a economia mundial. Abstemo-nos de falar sobre o que ainda não ocorreu, pois o futuro não nos pertence. Antes de procurar culpados, devemos procurar líderes que nos conduzam às soluções. Economia é importante, vida humana mais ainda. Como na guerra: situações complicadas, estratégias inteligentes, levam à vitória.

Invoco a proteção Divina e faço minhas as palavras de Voltaire: “Não é mais (apenas) aos homens que me dirijo, é a Ti, Deus de todos os seres, de todos os mundos e de todos os tempos. Se é permitido a frágeis criaturas perdidas na imensidão e imperceptíveis ao resto do Universo, ousar Te pedir alguma coisa, a Ti que tudo criaste, a Ti cujos decretos são imutáveis e eternos, digna-Te olhar com piedade os erros decorrentes de nossa natureza. Que esses erros não venham a ser nossas calamidades. Não nos destes um coração para nos odiarmos e mãos para nos matarmos.

Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida difícil e passageira…”

É preciso, pois: cautela com que se tratam os assuntos, sensatez no modo de se comportar, prudência. E esperança.

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