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Arlindo Almeida: O que esperar de 2020?

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 8 de janeiro de 2020 às 9:51

A grande pergunta que se faz neste começo de ano é: como será 2020 para o Brasil?

As previsões são de uma retomada lenta do crescimento econômico, cujos resultados, os números, decorrem da metodologia de cálculo que utilizam as instituições de pesquisa. 

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revisou as perspectivas para 2019, 2020 e 2021; “Estimou que a economia brasileira está se recuperando e manteve a expectativa de que as reformas estruturais apoiam a confiança dos investidores”. Prevê um crescimento do PIB de 0,8% em 2019, 1,7% em 2020 e 1,8% em 2021.

Enquanto isso, o Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), calcula que o desempenho da atividade econômica quase dobre em 2020 em relação a 2019. De cerca de 1% para 2,2%.

Já o Banco do Brasil, em alentado estudo que contempla os mais variados segmentos macro e microeconômicos, calcula que o PIB deve ter crescido 1,2% em 2019, acelerando para 2,2% em 2020 e 2,5% em 2021.

Releva considerar, também, que com a globalização da economia, o Brasil certamente sentirá os efeitos do aprofundamento das tensões entre China e Estados Unidos. Mesmo assim, as perspectivas são de um crescimento do PIB mundial que deverá se manter constante nos próximos três anos, em 3%, o menor desde 2009, mas acima do ocorrido em nosso país.

Segmentamos nosso comentário em diversos assuntos, que embora diferentes em si, constituem um conjunto em que, se não houver harmonia, os resultados podem ser frustrantes.

  1. CONSUMO E INVESTIMENTO

O consumo das famílias é o principal componente da demanda na economia, representando 65% do PIB nacional, acima da média dos países mais importantes economicamente. Já o investimento, está reduzido a menos de 15%, bem abaixo da média mundial, chegando à metade dos números de alguns países.

O consumo é transitório, de curta duração, se esgotando com rapidez. O investimento, ao contrário, tem o poder fazer seus resultados aparecerem em prazos longos, garantindo o crescimento equilibrado do PIB ao longo do tempo. 

2. EMPREGO

Mesmo com a geração continuada de empregos – em 2019 terão sido criados cerca de um milhão de novas ocupações, o desemprego tem se mantido em torno de 12% nos últimos anos, sem levar em conta empregos precários. 

Em 2018 o planeta tinha 172 milhões de desempregados, uma taxa de 5% (contra 5,1% em 2017), um nível similar ao de 2008. A taxa de desemprego deve permanecer estável a 4,9% em 2019 e 2020. (Alemanha 0,4%, Japão 1%, Estados Unidos 2,5%, China 3,6%).

O Brasil com 2,8% da população mundial tem 6,4% dos desempregados. 

3. INFLAÇÃO, TAXA DE JUROS E CÂMBIO.

  • O Índice de Preços ao Consumidor, principal termômetro para indicar a inflação, que apresentava leves e continuadas reduções (abaixo de 4%), deve se manter estável, dentro do teto da meta estabelecida pelo Banco Central, num patamar em torno de 4%, em função da elevação dos preços no final de 2019, por conta, principalmente, dos preços da carne e da energia.
  • A taxa de juros, indicada pela SELIC, deverá se manter em 4,5% durante todo o ano de 2020, iniciando um novo ciclo e retornando a 6% em 2021.
  • O câmbio, em 2019, sofreu impactos por conta da crise econômica da Argentina e da “guerra comercial” entre China e Estados Unidos. O dólar comercial terminou o ano um pouco superior a R$4,00, e deverá se manter nesse patamar em 2020, caindo para R$ 3,95 em 2021.4. CONTAS EXTERNAS E RESERVAS INTERNACIONAIS

As contas externas do Brasil apresentaram certo grau de deterioração mais para o fim de 2019, em consequência do cenário comercial mundial adverso. O superávit no comércio exterior, caiu de US$ 58 bilhões em 2018 para US$ 46 bilhões em 2019, em virtude, principalmente, do aprofundamento da crise econômica na Argentina, importante comprador de produtos manufaturados brasileiros, e a crise suína na China, que reduziu a demanda pela soja brasileira, que é um dos principais produtos vendidos pelo país. Entretanto, a entrada de investimentos diretos no país (IDP) tem sido suficiente para absorver a queda no saldo comercial, com a vantagem de serem destinados à capitalização de empresas.

As reservas internacionais do Brasil são a ordem de US$ 357 bilhões, posição confortável no cenário externo.  

5. DÍVIDA PÚBLICA

É muito preocupante o fato de que a dívida do governo federal tem subido rapidamente, passando de 51% do PIB em 2013 para 80% atualmente. Esse fenômeno não é mais danoso porque a taxa básica de juros da economia vem caindo persistentemente, implicando em encargos menores, e isso faz que a dívida tenda a se estabilizar. A dívida atual é algo como R$ 5,618 trilhões e usando apenas a taxa SELIC para sua remuneração temos R$ 252 bilhões por ano.

Embora apresentando alguns resultados discrepantes, as opiniões são de que o país aponta uma direção correta, enfatizando a necessidade de efetuar mudanças estruturais, passando do campo da economia e dos negócios, a uma nova organização do Estado envolvendo os três poderes da república. Pouco adiantará mudar no Executivo, pois tanto o Legislativo quanto o Judiciário apresentam graves falhas na forma como exercem suas funções republicanas, e, se não modificarem a essência do seu funcionamento os esforços serão inúteis. Desses dois poderes espera-se que se incorporem ao empenho conjunto de mudanças. Que cada um faça sua parte.

E tudo o que foi dito, é necessário que os avanços com a reforma da previdência sejam amplificados e tenham desdobramentos em outros segmentos, como a seguir, só para começo de discussões. 

  1. Desoneração por tempo estabelecido da folha de pagamento das empresas para determinados grupos da sociedade, como primeiro emprego de jovens de 18 a 29 anos. Isso barateará o custo da mão-de-obra em 30%, podendo gerar mais de 1,8 milhão de novas vagas.
  2.  Reforma administrativa. Nossa máquina administrativa é cara, complicada e de baixa eficiência. É preciso, dentre outras coisas, alteração da estrutura de carreira e de salários, com estabilidade após determinado período de trabalho e a avaliação permanente do desempenho. A título de lembrança quanto aos salários: para os que trabalham na iniciativa privada, o rendimento médio real foi de R$ 2.295, em forte contraste com os servidores públicos. No serviço público a média vai de aproximadamente R$ 10 mil no executivo e judiciário, a R$ 19 mil no legislativo.   
  3. Reforma tributária. Temos hoje uma carga tributária altíssima se comparada a outros países (superior a 35% do PIB), e serviços públicos de baixa qualidade. O sistema tributário nacional, incluindo união, estados e municípios é complicado e apresenta mais de 500 mil normas de todo tipo, obrigando cidadãos e empresas a contínuos gastos para se manter em dia com suas obrigações. 
  4. Pacto Federativo. Ao contrário do que muitos pensam, um novo pacto federativo não significa apenas a transferência de recursos do governo central para estados e municípios. É preciso aumentar a eficiência da gestão pública, obrigando todos a adaptação a sua realidade, com maior responsabilização pelo que se deve executar. Lembrando sempre que estados como o Rio de Janeiro, a não muito tempo nadando em dinheiro, está hoje com as finanças em frangalhos, deixando de honrar seus compromissos, atrasando, até, o pagamento de salários. É doloroso pensar na extinção de certos municípios, mas eles têm condições de cumprir certas regras de economicidade e eficiência e não depender apenas de transferências governamentais? 

Na trajetória que começamos, muitos riscos estarão presentes e dentre eles destacaríamos: Desaceleração econômica mundial devido às eleições presidenciais nos Estados Unidos, a recente crise com o Irã, impactos pela diminuição do ritmo de crescimento da China, recessão na Argentina, nosso terceiro parceiro comercial, desvalorização cambial imprevisível, etc.

As previsões aqui apresentadas representam uma fotografia do momento, mas tudo poderá mudar se os riscos superarem as expectativas, ou surgirem fatos novos.

Afinal, a Economia não é uma ciência exata.

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