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Arlindo Almeida: O mundo do futuro e o papel do Brasil

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 13 de novembro de 2019 às 12:27

Nas palavras do cientista inglês Stephen Hawking, “todos os aspectos das nossas vidas serão transformados, e isso pode ser o maior evento na história da nossa civilização”. Falava ele da Inteligência Artificial, um termo que não é novo, pois já existe há cerca de duas décadas, mas continua na moda. Essa tecnologia está evoluindo aos saltos, se tornando cada vez mais concreta e se expandindo para diferentes áreas de negócio, com benefícios como redução de custo operacional, melhoria na eficiência, automatização de processos, otimização de preços, entre outros.

E na agropecuária, neste começo de século XXI, a tecnologia está crescendo e se fazendo cada vez mais presente, elevando a qualidade dos índices zootécnicos na pecuária e no aumento da produção do setor agrícola. Com a chegada da inteligência artificial e seus algoritmos espera-se que esses aumentos sejam influenciados mais uma vez, podendo mudar o cenário da agropecuária como nunca visto antes.

Para saber mais sobre as consequências da inteligência artificial no campo, primeiro devemos saber do que ela trata. Podemos defini-la como a inteligência computacional, pois ela consiste em um conjunto de algoritmos – que são regras e procedimentos matemáticos perfeitamente definidos que levam à solução de um desafio – programados em máquinas com a capacidade de resolver problemas com a inteligência de um ser humano.

Na agropecuária a questão é de importância crucial, em vista do aumento da população do mundo e da crescente utilização de terras propícias à exploração eficiente. Se hoje, para uma população global da ordem de 7,5 bilhões pessoas, são contabilizados pela FAO –Fundo das Nações Unidas para a Agricultura, mais de 800 milhões de pessoas passando por necessidades alimentícias graves (fome mesmo em diversas regiões), imaginemos como será no futuro. As estimativas da ONU são de que em 2050 seremos 9,8 bilhões e em 2100 11,2 bilhões de habitantes. Mantidas as proporções, teríamos, 1,05 bilhão de famintos em 2050 e 1,2 bilhão em 2100. É uma questão aberta para ser resolvida pela sociedade e pelos governos do todo o mundo, sempre apoiada por instrumentos científicos e tecnológicos, nunca esquecidos da dimensão humana do desenvolvimento.

Essa complexa situação nunca poderá deixar de levar em conta que o ambiente de atuação não terá suas dimensões aumentadas: a geografia, o aspecto físico do planeta tem seus limites – um hectare será sempre um hectare. As tecnologias implementadas é que possibilitarão o aumento da produção no mesmo território. A produtividade varia muito, em decorrência de clima, solos, dos métodos de plantio e qualidade do que se produz.

A população do mundo não para de crescer. Em 2050 a Índia deverá ter 1,66 bilhão de habitantes, a China 1,372 bi, os Estados Unidos 398 milhões, a Nigéria 397 mi, o Brasil 226 mi. É na África, região em que a fome está mais presente, que se verificarão os maiores incrementos na população. 

Muitos países já exploram parte considerável de suas áreas agricultáveis, tendo pouca margem de manobra para a produção nos moldes atuais, restando, tão somente: a) melhorar tecnologicamente o uso dos espaços ocupados; e b) recorrer a outros países supridores de alimentos. 

A maior parte dos países utiliza entre 20% e 30% do território com agricultura. Nos dias atuais, a União Europeia, como um todo, já explora em quase 60% suas extensões territoriais nessa atividade – Dinamarca, 76,8%; Irlanda, 74,7%; Países Baixos 66,2%; Reino Unido, 63,9%; Alemanha, 56,9%. Em outras regiões, o destaque fica com a Índia que já utiliza 60,5% do território. Índia, Estados Unidos, China e Rússia, juntos, totalizam 36% da área cultivada no planeta

O Brasil é, relativamente, o país que menos utiliza e cultiva suas terras. Enquanto todos os países, em média, exploram 21%, o Brasil, tira proveito de apenas 7,8%. Para um território de 850 milhões de hectares (o 5º maior do mundo), no Brasil exploramos apenas 67 milhões, ou 7,8% do total. 

A Europa já deteve 7% das florestas primitivas da Terra. Pelo desmatamento e exploração intensa, restam tão somente 0,1%. Os mais de 563 milhões de hectares não explorados no Brasil são superiores à superfície total dos vinte e oito países da União Europeia.

Somos reconhecidos como uma potência agrícola e ambiental – não esqueçamos que fenômenos da natureza a que submetidos com certa regularidade, são fáceis de prever e dificílimos de evitar; no mundo, até hoje, não se encontra a melhor forma de evitar essas ocorrências.

Nosso imenso patrimônio natural que tem que ser preservado, levando em conta não apenas a defesa do meio ambiente, mas também a cobiça por esse rico acervo que a natureza nos conferiu desperta em outras potências, e da possibilidade de o Brasil ser, em breve tempo, por conta disso, protagonista de maior peso nas decisões mundiais. Muitas das investidas contra o Brasil, e não é de hoje, são fruto desse olhar pernicioso sobre o país, de medo do concorrente. 

Somos, sem sombra de dúvidas, uma potência agrícola. Imaginemos o que produziríamos aqui, e que riquezas seriam geradas para nossa população, se explorássemos nossas possibilidades na mesma proporção dos demais países, usando 21% do território para o agronegócio. Isso seria, praticamente, triplicar, nossa produção. Apenas na safra de grãos em 2019/20, por exemplo, estimada em 246 milhões de toneladas, passaríamos para 680 milhões de toneladas, numa projeção simples, desprezando, mesmo, os ganhos de produtividade ocasionados pelas novas tecnologias. 

As tecnologias deverão ser o grande aliado do Brasil nesse salto quantitativo e qualitativo que podemos dar. Temos tecnologias de altíssima qualidade. O exemplo da Embrapa, orgulho nosso, já se disseminou, por todo o Brasil (se bem que ainda de forma tímida, e não é culpa daquela empresa).  As inovações não deixarão de vir cotidianamente, mas precisamos de uma nova visão dos governantes, acelerando esses mecanismos já dominados no país e de tecnologias de outras nações que se adaptem à nossa realidade.

O Brasil tem “a faca e o queijo” nas mãos, no dizer dos nossos homens do campo. Falta aprender a cortar proveitosamente.

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