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Arlindo Almeida: Inflação em 2020 e questões conexas

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 23 de dezembro de 2020 às 9:00

Iniciamos relembrando uma definição para o fenômeno monetário chamado inflação, que configura a perda do poder aquisitivo da moeda. A inflação é uma moeda de duas faces, a saber: A primeira decorre de fatores estruturais (que são os custos da economia); quando, por exemplo, custa mais caro produzir um bem, os preços tendem a se elevar. Nem sempre os fornecedores tem capacidade para responder rapidamente à demanda. E a segunda são as causas monetárias (a chamada inflação de demanda). Quando o poder de compra aumenta, as pessoas com capacidade aquisitiva superior adquirem os bens ofertados, independentemente do preço que lhe seja cobrado (sem exageros, evidentemente).

No Brasil dos dias de hoje, assistimos um recrudescimento da taxa de inflação, que apesar de contida em níveis ainda baixos, põe as autoridades monetárias, as instituições de crédito, a sociedade, em posição de alerta. As entidades governamentais que lidam mais de perto com o assunto construíram instrumentos para acompanhamento da evolução do aumento de preços, que orientam a adoção de políticas que visem conter em níveis razoáveis essas incidências.

Um desses instrumentos é o Sistema Nacional de Preços ao Consumidor (SNPC), do IBGE que “produz contínua e sistematicamente índices de preços ao consumidor e, na sua produção, tem como unidade de coleta estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, concessionária de serviços públicos internet.”

IPCA-15, que acompanha a evolução dos preços trimestralmente, compreende as famílias com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, qualquer que seja a fonte, residentes em 11 áreas urbanas das regiões de abrangência do SNIPC, as quais são: regiões metropolitanas de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, além do Distrito Federal e do município de Goiânia. Os resultados, embora circunscritos a onze áreas urbanas, as maiores do Brasil, são bem representativos do que ocorre no resto do país, com variações dentro de margens toleráveis.

Nos últimos 12 meses, o IPCA acumulou 4,23%, acima do centro da meta do governo para a inflação, que é de 4,00% em 2020, com uma margem de tolerância de 1,5% para mais ou para menos.

O grande problema que enxergamos na questão dos níveis de preços reside no poder de compra da sociedade, sinal das grandes desigualdades que ocorrem em nosso país. Com efeito, grande parte da população tem rendimentos baixíssimos. No Brasil, o 1% mais rico concentra 28,3% da renda total, significando que quase um terço da renda está nas mãos dos mais ricos. Os 10% mais ricos no Brasil concentram 41,9% da renda total. Temos 4,5 milhões de indivíduos com rendimentos de apenas R$ 165,00/mês, e 900 mil com renda mensal de R$ 28.659,00.

Na localidade onde os preços evoluíram menos foi em Brasília (3,07%), em que a população tem as maiores rendas do país, e Fortaleza e Recife, na região mais pobre 5,79% e 5,06% respectivamente.

Só para se ter uma ideia do que essa desigualdade na distribuição de renda representa, para uma elevação de 4,23% no índice geral de preços, o item alimentação cresceu 14,36%, atingindo em cheio os de menor renda. Itens básicos tiveram elevações altíssimas, como por exemplo: Arroz (69,50%), Feijão mulatinho (32,60%), Tomate (76,51%), Óleo de Soja (94,10%), Leite Longa Vida (24,97%), Batata Inglesa (55,90%), Fígado (31,07% e, ironia, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais desses bens de consumo essencial.

Para o Boletim Focus do Banco Central do Brasil, encerraremos o ano com uma inflação de 4,38%, que deverá ser de 3,37% em 2021 e o PIB que em 2020 apresentará queda de 4,4%, deverá crescer positivamente em 3,46%. Torcer para que isso se traduza em realidade.

É um quadro desafiador e de muitas incertezas. O poder de compra da sociedade, de modo geral, e, particularmente, das camadas de menor renda só se restabelecerá em prazos mais longos, com a retomada da economia, a geração de empregos e melhoria da renda com uma distribuição mais justa. Enfim, desenvolvimento com equidade. Por enquanto iremos conviver com cenário fiscal complicado, fim do auxílio emergencial e piora na pandemia.

Ao final de 2020, em que comemoramos 100 anos do grande economista Celso Furtado, nunca será ocioso repetir. “O desenvolvimento, na realidade, diz respeito às metas de vida. Desenvolver para criar um mundo melhor, que responda às aspirações do homem e amplie os horizontes de expectativas. Só há desenvolvimento quando o homem se desenvolve.”

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