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Arlindo Almeida: Grave crise – um pouco da história recente da economia

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 8 de abril de 2020 às 10:42

Foto: Paraibaonline

A grave crise por que passa a humanidade com a pandemia que assusta a quase todas as pessoas, deve servir de ponto de partida para avaliarmos o que de errado fizemos, no mundo todo, comprometendo o esforço de gerações anteriores em construir o desenvolvimento. 

A primeira constatação é que esse edifício não tinha bases sólidas, ao privilegiar o lucro em primeiro lugar, que beneficia uns poucos, em detrimento de princípios sociais mais justos para o esmagador número de pessoas em qualquer lugar: educação, saúde, emprego, condições dignas de vida. 

Independentemente de sua orientação ideológica, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, as grandes nações agem da mesma forma: busca do lucro, da conquista dos mercados, da submissão de quem trabalha, deixando em segundo plano o que mais importante, a vida. O imperialismo voltou à moda.

O mundo já experimentou muitos problemas dessa natureza, agravando-se agora com a rapidez com que as notícias se espalham. As avançadas tecnologias de informação são usadas submetendo-se a interesses mesquinhos. Vivemos o mundo das fake News, onde 99,99% do que se vê ocultam um desígnio obscuro.

Porém, um pouco de história mais recente, não faz mal a ninguém. Os que insistem em não aprender com os erros do passado estão condenados, inexoravelmente, a recair nos enganos. 

A maior crise econômica experimentada no mundo ocorreu, entre os anos de 1929 e 1933, chamada a Grande Depressão. 

CENÁRIO DA GRANDE DEPRESSÃO. A população mundial em 1930 era de dois bilhões de habitantes e hoje é de mais de 7,5 bilhões. Na China eram 489 milhões nos Estados Unidos 123 milhões, e, no Brasil éramos 41 milhões de pessoas. 

“Atingiu, em primeiro lugar e mais profundamente, a economia norte-americana, espalhando-se em seguida para a Europa e os países da África, Ásia e América Latina. A crise iniciou-se no âmbito do sistema financeiro na chamada Quinta-Feira Negra (24/10/1929), que a história registra como sendo o primeiro dia de pânico na Bolsa de Nova York.

 Era um momento de intensa especulação na Bolsa, e a economia norte-americana estava em plena prosperidade.

De repente, a desconfiança com os acontecimentos na Bolsa espalhou-se para outros ramos da atividade econômica, atingindo a produção.

A queda da renda nacional levou a uma retração na demanda, ao aumento dos estoques e à vertiginosa queda dos preços. Muitas atividades econômicas foram interrompidas e, como uma bola de neve, sucederam-se as falências e milhões de trabalhadores ficaram desempregados. Nos Estados Unidos, entre 1929 e 1933, havia cerca de 15 milhões de desempregados, 5 mil bancos paralisaram suas atividades, 85 mil empresas faliram, as produções industrial e agrícola reduziram-se à metade. Quando a crise atingiu proporções internacionais, o comércio mundial ficou reduzido a um terço, e o número de desempregados chegou a cerca de 30 milhões. Na Europa, os primeiros países atingidos foram a Inglaterra, a Alemanha e a Áustria, a França. 

A crise econômica nos Estados Unidos atingiu em cheio o Brasil.

Neste momento, o país exportava praticamente apenas um produto, o café.  

Para se ter uma ideia da dimensão do problema econômico entre nós, a saca de café era cotada a 200 mil réis, em janeiro de 1929. Um ano depois, seu preço era 21 mil réis, levando o governo federal a comprar grande parte das safras e a destruir 80 milhões de sacas do produto, para diminuir os estoques e sustentar o preço. 

A elevação das tarifas alfandegárias por muitos países reduziu o nível do comércio internacional, agravando a crise. 

A depressão trouxe também consequências na estrutura da sociedade, particularmente nas relações do Estado com o processo produtivo. Em todas as grandes economias capitalistas, coube ao Estado instituir mecanismos para controlar a crise e reativar a produção. Ocorria assim o abandono dos princípios do liberalismo econômico, que entregava aos próprios mecanismos de mercado a função de saneamento dos desequilíbrios que porventura surgissem nas atividades econômicas.” (adaptado da Redação Mundo Estranho, publicado em 18 de abril de 2011).

Foram muitos anos de extremas dificuldades. A recuperação das economias nacionais deu-se de maneira desigual, uns, os mais preparados, se recuperando mais rapidamente, mas, e de qualquer forma, puxando as economias mais frágeis para sua restauração.    

É nessa época que surge a inspiração do grande economista John Keynes, propugnando a intervenção do Estado na economia, para a superação da crise. Os Estados Unidos, sob a liderança do Presidente Franklin Roosevelt, ao final dos anos 30 já tinham se recuperado. Era o New Deal, coincidente com o pensamento de Keynes. 

A crise não chegou a afetar a União Soviética, que pouco antes acabara de entrar na fase da planificação econômica centralizada, pois ela se encontrava relativamente isolada no campo econômico do resto do planeta.

Em 2007/2008 o mundo voltou a sentir repentina queda da economia, motivada pelo excesso de crédito; os bancos dos Estados Unidos destinaram grandes ativos a tomadores de empréstimo sem capacidade de pagar. Em 15 de setembro de 2008, marco da crise, um dos bancos de investimentos mais tradicionais daquele país, o Lehman Brothers, foi à falência, e as Bolsas do mundo todo despencaram. A data ficou conhecida como “segunda-feira negra.” Em seguida, outros bancos anunciaram perdas bilionárias. Foram meses de muita instabilidade no mercado.  Para tentar evitar falências em série, governos de vários países anunciam planos de socorro à economia, injetando bilhões em bancos. Mesmo assim, a crise não ficou só no setor financeiro. Os Estados Unidos e outros países, incluindo o Brasil, entraram em recessão. O desemprego disparou, sobretudo entre os mais jovens, e muitas empresas faliram.  Os efeitos da crise de 2008 foram sentidos no mundo todo durante anos e o nível de emprego em vários países não retornou aos patamares anteriores ao colapso. E, no Brasil, já tínhamos enfrentado uma crise nos anos 80, período conhecido como a “década perdida”.

É incerto o rumo da economia mundial diante do Covid19, e ninguém se arrisca a fazer qualquer previsão. Mas, as poucas divulgadas, são atropeladas pela voragem do cataclismo. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), há um mês, supunha que o crescimento do PIB global seria de 2,9% em 2020, agora reduzido para 2,4%. Na China cairia de 6,1% para 4,9%; Nos Estados Unidos de 2% para 1,9% e no Brasil, manteve a previsão de crescimento, passando de 1,1% em 2019 para 1,7% em 2020. Na Europa cairia de 1,2% para 0,8%. Essas previsões se sustentaram nos últimos trinta dias? Quais serão as previsões no dia de hoje, caso alguém se arrisque a tanto?

Cerca de 70 países já anunciaram pedidos de socorro ao Fundo Monetário Internacional para enfrentamento da crise. No Brasil, os indicadores macroeconômicos são bem mais favoráveis.  Ainda bem que a nossa dívida externa é pouco relevante e temos mais de 470 bilhões de dólares em reservas cambiais (poucos países tem esses valores guardados), taxas de juros e inflação abaixo da meta do Banco Central.

O Brasil está numa encruzilhada, é fato. O grande desafio, simultâneo, é vencer a incidência do Covid 19 ao tempo em que cuidamos da economia. É tarefa para qual cada brasileiro deve dar sua contribuição, trabalhando arduamente em clima de harmonia, respeito às opiniões diferentes, manutenção da ordem democrática. As disputas eleitorais virão no seu devido tempo.

Enfim, parafraseando o grande escritor Gabriel Garcia Márquez: “amor no tempo do vírus”.  É do que mais precisamos.

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