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Arlindo Almeida: “Elogio” à burrice

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 22 de abril de 2020 às 11:29

A expressão “tempestade perfeita” tem sido usada desde o início do século XVIII, e quer dizer situação em que um acontecimento desfavorável é agravado repentina e severamente pela superposição ou soma, confluência, de circunstâncias nefastas, transformando-as, em catástrofe.

Os resultados da soma desses fatores são diferentes, dependendo da maneira como são enfrentados pelos homens: os mais sábios, os mais preparados, demonstram resiliência (Capacidade de quem se adapta às intempéries, às alterações ou aos infortúnios – Vide Dicionário Online de Português). Na sua raiz, nem sempre as “tempestades perfeitas” são fruto da inépcia, da incompetência, do despreparo dos homens. É o acaso.   

Para os que agem corretamente, mesmo com altos custos e sacrifícios, os resultados favoráveis começam a brotar mais rapidamente do que acontece com os que agiram de maneira incorreta. São os mais inteligentes.

Quando o mundo estava procurando resolver seus problemas econômicos decorrentes de uma tendência de baixo crescimento, ainda não surgira a peste que se abateu sobre todos. Sejam os  ricos e os poderosos, adoradores de ídolos de ouro (insensíveis aos problemas de quem precisa de maior proteção), indo aos pobres e famintos lembrados apenas por alguns – como o Papa Francisco e sua Igreja, Dom Quixotes a esgrimir não uma espada mas uma Cruz, último pouso de quem morreu por todos. Morreu e está vivo.

No Brasil, país de enormes potencialidades, celeiro do mundo tão descuidado pelos brasileiros, conseguimos sobrepor à crise econômica que se prolongava por uma década, e que já apresentava sinais de recuperação, os efeitos do mal que se abateu sobre o planeta. Aqui alcançamos a situação inimaginável: ao problema econômico juntou-se o vírus letal, e acrescentamos, também, nossas questiúnculas políticas e ideológicas e a ambição desmedida de muitos. A tríplice coroa da desgraça.

Na linguagem popular “além de queda, coice – “É o que se costuma dizer, quando o azar vem em dobro. Ou seja, além de cair do cavalo, ainda pode ser atingido com o coice que pode ser pior do que a própria queda”.

Na superação de qualquer crise, é indispensável a união de todos; dos poucos que exercem poder de mando e dos protagonistas anônimos, grande maioria. E isso, infelizmente, passa bem longe de nós. A desunião, cujo exemplo vem de cima, com os Poderes da República se digladiando cotidianamente; mau exemplo. É o Executivo agir atabalhoadamente, sem coesão interna, ignorando os outros poderes. É o Legislativo invadindo a competência do Executivo, é o Judiciário manifestando preocupantes ações autocráticas, procurando legislar e atropelando o Executivo. Tantos talentos, nos três poderes, sendo desperdiçados numa guerra onde só haverá perdedores.  São as redes sociais e de comunicações jogando lenha na fogueira, causando mais medo e desespero. 

Samba do crioulo doido, e não aparece alguém para dar um conselho e ser ouvido: vamos nos unir, passar por cima das nossas diferenças, mesmo porque não é tempo para essas coisas. Estamos todos em um único barco, somos todos, governantes e governados, passageiros nessa quadra difícil de nossas vidas. 

Aos economistas de muito talento, pergunto: é possível trazer algo para iluminar esses tempos de trevas a não ser especulações sobre o que fazer? Todas as previsões falharam. 

Só parodiando o “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdã, teólogo e escritor holandês do século XV, para quem “a pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos”. A paródia é o elogio imerecido de pessoas ou coisas sem valor que tem proliferado com velocidade superior ao Covid-19.

Responda, desocupado ouvinte e leitor dos tempos de coronavírus! Você desejaria como disse o inigualável Cervantes,  “O descanso, o lugar aprazível, a amenidade dos campos, a serenidade dos céus, o murmurar das fontes, e a tranquilidade do espírito que entra sempre em grande parte, quando as musas estéreis se mostram fecundas, e oferecem ao mundo partos, que o enchem de admiração e de contentamento”?

Ou você prefere a burrice? Creio que não!

O amanhã é incerto, mas um mundo melhor está bem à nossa frente.

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Economista.

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