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Arlindo Almeida: Crise e emprego

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 1 de outubro de 2020 às 21:05

As crises econômicas têm como uma de suas características a incidência diferenciada para as economias e para os indivíduos.  Com efeito, os mais bem posicionados no mercado, os que exploram atividades que se revelam mais resistentes às conjunturas desfavoráveis, podem, até, experimentar ganho de fatias maiores nos negócios, os mais capacitados a manutenção de seus empregos ou a conquista de melhores oportunidades.

Num contexto geral, as mudanças bruscas e continuadas na conjuntura socioeconômica, variam entre países, e no contexto local nas unidades menores do território – no caso do Brasil, Estados e Municípios.

A crise que se abateu sobre o Brasil a partir de março deste ano, veio interromper uma retomada, embora tímida, de crescimento do produto interno bruto, após os insucessos experimentados em anos recentes.

Isso se manifestou de variadas formas, seja pela queda no PIB, pela elevação do nível de desemprego, na elevação da dívida pública pela queda de receitas, pela necessidade de um programa de auxílio financeiro aos mais carentes, pela interrupção de muitos investimentos estratégicos, sem esquecer o fantasma sempre presente na vida do Brasil,: as desigualdades entre os entes federativos, e os indivíduos, seja pela posição social, renda, cor da pele, por sexo, etc.

As estatísticas bem construídas, podem não apenas quantificar a magnitude dos fenômenos econômicos, mas também a sua consistência qualitativa.

Como foi a evolução da conjuntura a partir de março, naquilo que mais afeta o cidadão comum, o trabalhador, a falta de ocupação remunerada?  O emprego é o que de mais importante para qualquer sociedade.

Nesse particular, como tem sido este ano para os trabalhadores brasileiros, as contratações? Segundo o CAGED, do Ministério do Trabalho, em janeiro e fevereiro de 2020, o saldo positivo foi de 342.709 postos de trabalho e em março, quando eclodiu a pandemia viral, o número foi negativo com 265.609. 1º trimestre terminou com um saldo ainda positivo de 76.574. Porém, no 2º trimestre os números evoluíram negativamente, totalizando 1.316.539 perdas; o menor número foi em junho com – 22.706; o pico negativo foi em abril com 934.380No 3º trimestre, em julho e agosto os números foram positivos, respectivamente, 141.190 e 249.388 novas contratações, sugerindo uma trajetória de ascensão. No conjunto, dos oito primeiros meses os números indicam perdas líquidas de 849.387.  O auge da crise foi em abril.

Em agosto, na Paraíba foram registrados números positivos: 9.753 contratações e, em Campina Grande, 1.521.  

Contudo, nunca percamos de vista que na cadeia dos eventos da economia, quando da retomada do crescimento, o emprego é o último elo da corrente, sendo tarefa difícil  recuperar não apenas as perdas conjunturais de 849.387, mas baixar o nível de desemprego de 13,4% da força de trabalho (segundo o IBGE), isso sim, o que mais interessa.  É preciso aumentar os investimentos, oferecer estímulos às atividades econômicas, promover as reformas indispensáveis à sustentabilidade e criação de um clima de confiança.

O grande temor é que, com a possível retomada do crescimento da economia, deixemos de lado algumas coisas fundamentais, como vimos fazendo ao longo da história do país, como a questão das desigualdades regionais e, dentro dos entes federativos os municípios.

Talvez fosse a hora de um redesenho da matriz econômica do país, tratando de maneira desigual os desiguais: tributação diferenciada, maiores estímulos para a capacitação das pessoas, obras de infraestrutura com vista à fixação de empreendimentos nas regiões menos desenvolvidas, levando mais empregos para áreas interioranas. 

É preciso que o Brasil deixe um pouco de lado o curto e pense mais no longo prazo. O desenvolvimento não se faz aos saltos, é uma construção demorada. 

É pouco construtivo adotar entre nós    o argumento de Keynes de que “a longo prazo, todos estaremos mortos”.  Afinal, estamos vivos, temos mais de 500 anos de história e continuamos repetindo os mesmos erros do passado. E a pior forma de despreparo é a repetição de erros.

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Economista.

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