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Arlindo Almeida: Caminhos da estabilização

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 15 de janeiro de 2021 às 9:02

Segundo o dicionário, “ressaca é popularmente usada para definir mal-estar causado por uma bebedeira e, também, movimento das ondas que rebentam ao chegarem no litoral quando o mar está muito agitado. Significa ainda falta de estabilidade.”

Quando falamos da economia nacional, após o deflagar da crise de 2020, as preocupações ainda persistem quanto ao que acontecerá em 2021, cercado de muitas incertezas. 2020, um ano que ainda não terminou.

Numa visão objetiva, 2020 não foi tão ruim como se esperava quando do deflagar da crise do COVID 19. As previsões, no meio do ano, de queda do nosso produto interno bruto de até 9% para alguns institutos de pesquisa, foi a metade disso – 4,52%.

Isso se deu em consequência da resiliência demonstrada pelos meios de produção do país, incluindo a dita economia invisível, muito mais forte do que se imaginava, e também de medidas em caráter de urgência adotadas pelo governo com foco nas famílias de mais baixa renda e ajuda a estados e municípios. Isso pode ter influenciado, por exemplo, a evolução do saldo da caderneta de poupança que bateu o recorde com valores superiores a um trilhão de reais em dezembro.

Os gastos do Tesouro Nacional com o Auxílio Emergencial devem ter sido de R$ 322 bilhões e aos Estados e Municípios R$ 78 bilhões, totalizando, portanto, R$ 400 bilhões.

O auxílio emergencial foi a única fonte de renda de mais de três milhões de famílias em um único mês com destaque para Amapá (12,9%), Piauí (9,6% e Ceará (8,7%). As regiões mais beneficiadas foram as de mais baixo PIB per capita, no Nordeste e Norte.

A consultoria Tendências estima que o rendimento dos nordestinos cresceu 8,3% no ano, e os do Norte 13,1%. As atividades econômicas nos respectivos estados caíram menos que as dos mais “ricos”, se podemos chamar assim. A média do país foi de (–) 4,6%, do Nordeste (-) 2,1% e do Norte (-) 2,6%.

A conclusão óbvia é de que mais pobres foram menos atingidos, por estarem num patamar muito baixo de renda. Para essas pessoas, qualquer acréscimo nos seus rendimentos faz uma diferença significativa.

A tudo isso, deve-se somar alguns problemas graves, como a alta taxa de desocupação, que atingiu a marca superior a 14 milhões de pessoas, com destaque para Bahia (20,7%, Sergipe (20,3% e Alagoas (20%).

Diante desse cenário, o mais urgente é equacionar os problemas e estabelecer políticas públicas que sirvam de contrapeso ao fim do auxílio emergencial. O fator que mais dificulta é que os gastos efetuados em 2020 ocasionaram déficit nas contas do governo federal, elevando a dívida em relação ao produto interno bruto para quase 100%. A equipe econômica calcula que o déficit é superior aos R$ 800 bilhões. Isso é um problema futuro de grandes proporções, que não será resolvido do “dia para a noite”.

Volta a pergunta antiga, batida, que trazemos constantemente, verdadeiro refrão cediço: o que deve ser feito?

Não é possível apontar soluções milagrosas.

O que é possível fazer em substituição ao auxílio emergencial? Qual o programa de recuperação do emprego, que em qualquer hipótese será um processo lento?

A inflação, foi contida em patamares civilizados, na faixa de 4,5%, mas seus efeitos não se disseminam igualmente para todas as categorias de bens adquiridos pela população, especialmente os alimentos, 14% no geral, que em alguns casos chegaram a 70%.

Nesse quadro tão complicado, cada vez mais cresce a necessidade de efetuar as reformas estruturais que tardam em ser implementadas (e isso vem de muito longe).

“Reformas importantes, que poderiam reduzir as despesas obrigatórias e aumentar o potencial de crescimento do país, seguem paradas no Congresso Nacional, depois de ficarem em segundo plano ao meio à pandemia e às eleições municipais”.

Sem uma reforma da estrutura de governo, racionalização dos seus gastos, eliminação dos privilégios e nos salários no serviço público que, em média, são de 30 a 40 vezes a renda média de população, nada mudará.

Isso sem esquecer a reforma tributária que sirva efetivamente de estímulo às atividades que geram emprego e renda, ao invés de apenas uma fonte de receitas do governo para a má aplicação em muita coisa desnecessária, ou de menor importância, como vem sendo feito até hoje. E nossa política industrial?

E os assuntos não se esgotam neste breve comentário. O anuncio de fechamento de unidades fabris da Ford, com fechamento de cerca de 5 mil postos de trabalho, acende um sinal de alerta para uma coisa que é esquecida pelo Brasil: a sua rápida desindustrialização. Não temos estratégias para atração de empresas estrangeiras e muito menos segurar as que estão aqui. Falta-nos o que se chama “inteligência de mercado”, na qual é feito um monitoramento permanente sobre as corporações mundiais com projetos de expansão, procurando atraí-las e mantê-las no país.

É muita coisa para mexer e não se pode atacar todos os problemas de uma única vez. Tem que haver planejamento e discussão das prioridades com os cidadãos, usando dos foros competentes para isso – e eles existem. É como consertar o avião em pleno voo.

É preciso acabar com o mimimi das ideologias, a defesa dos interesses ocultos e perniciosos. Que os homens de boa vontade – e parece ser muito poucos – se unam em prol dos interesses maiores.

São assuntos que, infelizmente, não se esgotam.

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