Arlindo Almeida: A Nau dos Insensatos

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 20 de janeiro de 2021 às 21:07

Neste tempo de crise na saúde, é muito difícil para os cientistas sociais, principalmente os economistas, fazerem qualquer tipo de comentário sobre os rumos do desenvolvimento do Brasil e do mundo.

É uma profusão de informações, mais das vezes desencontradas, sobre o que ocorre num planeta engolfado numa das maiores crises já vividas pela humanidade. 

E o caldo de cultura disso tudo é, sem sombra de dúvida, a pandemia que se abateu sobre a Terra, sem um horizonte claro sobre quando a dominaremos.

No Brasil, ainda se recuperando timidamente das quedas no produto interno bruto experimentadas nos últimos anos, sofremos novo solavanco e a economia voltou a apresentar números negativos em 2020, com queda superior a 4,5%. E isso é particularmente doloroso para um país que possui potencial econômico difícil de ser igualado no mundo. 

Queda no PIB e pandemia. Além de queda, coice! É uma expressão popular que indica a ocorrência simultânea de um fenômeno que pune duplamente uma ou mais pessoas com resultados sempre dolorosos. É o preço que estamos pagando.

Em tudo isso, assombra a forma como os homens que comandam os destinos do país se comportam. Tudo é motivo para discórdia, quando o entendimento é do que mais precisamos.

As disputas pelo poder, pela manutenção dos privilégios, o aproveitamento dos cargos exercidos para enriquecer, a impunidade para criminosos, os interesses corporativos, o desprezo pelos mais humildes, tem sido a marca registrada do que ocorre no Brasil. Brigas idiotas até em relação à vacina para o Coronavirus. 

Vale aqui recordar o que nos disse Voltaire na sua Oração a Deus, que casa muito bem com estes tempos.  

“Não nos destes um coração para nos odiarmos e mãos para nos matarmos. Faz com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de uma vida difícil e passageira.” Parece que rasgamos o que escreveu aquele filósofo. 

Em certas ocasiões talvez fosse muito útil aos governantes imitarem alguns filósofos mais inteligentes e sensatos (se isso for possível).

Por enquanto, recorremos a uma expressão figurada denominada a “Nau dos Insensatos”, manifestada no final do século XV, pelo humanista alemão Sebastian Brant.  

Nessa embarcação, a   nau dos insensatos ou o navio dos loucos vemos  uma antiga alegoria  trespassada  de muito senso de autocrítica, descrevendo os países, o mundo,  e seus habitantes humanos como em um navio, cujos passageiros perturbados não sabem e nem se importam em saber qual o lugar a que  estão indo.

Pois bem! Pergunto, como estamos na nau dos insensatos que, alegoricamente, chamamos de Brasil. Vamos por partes por ser matéria que não é comportada em apenas um artigo. Passemos aos contrastes.

Vejamos nossa capacidade de produção de alimentos versus a ensandecida disputa política que vergonhosamente assistimos no Brasil.  

“O alimento é o produto mais necessário para a sobrevivência de um cidadão e a busca pela autossuficiência alimentar é prioridade de qualquer governo. O Brasil está bem posicionado neste cenário, pois produz seis vezes mais do que o necessário para o atendimento das suas necessidades.”   

Por enquanto, o Brasil ocupa o primeiro lugar na produção de Soja e Cana de Açúcar, terceiro em milho e carne de frango, quarto em algodão.  

Documento recente da FAO aponta que a agricultura mundial terá de ampliar em 80% a produção de alimentos até 2050, para atender as necessidades de uma população projetada para 9,7 bilhões de pessoas. A FAO prevê, também, que o Brasil deverá responder por metade desse montante. Em 2020, nossas exportações do agronegócio superaram US$ 100 bilhões. 

Essas perspectivas são fortalecidas nos modernos processos produtivos, na incorporação constante de novas tecnologias. Já somos o primeiro lugar em produtividade em muitos desses segmentos e deveremos ocupar importância crescente num mundo tão carente de alimentos. Com desunião e na balada que vamos a previsão da FAO será alcançada?

Os comandantes dessa nau, estão preocupados com isso, em fazer algumas reflexões sobre o seu papel e o que estão construindo para tornar as coisas melhores em um país de tantas desigualdades?   Nas atuais circunstâncias o que esperar do futuro? 

Por enquanto, ouçamos Cazuza: “Brasil. Mostra tua cara. Quero ver quem paga. Pra gente ficar assim. “

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