Fechar

logo

Fechar

Arlindo Almeida: A importância da indústria

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 8 de outubro de 2020 às 7:55

Segundo o Novíssimo Dicionário de Economia, a indústria é “o conjunto de atividades produtivas que se caracterizam pela transformação de matérias-primas, de modo manual ou com auxílio de máquinas e ferramentas, no sentido de fabricar mercadorias. A indústria contemporânea caracteriza-se pela produção em massa nas fábricas, na qual os objetos padronizados resultam da intensa mecanização e automação do processo produtivo. Outra característica é a racionalização do trabalho, objetivando o aumento da sua produtividade e o máximo rendimento das máquinas.”

Muito tem se falado do retrocesso da indústria na economia brasileira, já que a participação relativa do setor no PIB do Brasil praticamente só tem caído desde o fim da década de 1970, atingindo seu ponto mais baixo agora – passamos de 22,3% em 1976 para 12,5% em 2019. Para alguns analistas, este é um processo normal das economias, à medida que se desenvolvem as atividades de serviços ganhando peso na estrutura produtiva. Mas não com tal velocidade.

O que preocupa não é o fenômeno em si, mas o fato de que vimos perdendo participação no cenário global. Por que os outros cresceram mais que o Brasil, mesmo enfrentando tantos problemas? Falamos de indústria. Até 2014 o Brasil se manteve entre os dez maiores produtores do mundo, mas em 2019 recuamos para a 16ª posição. Durante a recessão econômica que experimentamos no período 2014-2016, ficou evidenciada a perda de importância do Brasil; entre 2015 e 2017, perdemos posição para México, Indonésia, Rússia e Taiwan; em 2019 fomos superados pela Espanha, caindo, então, para o 16º lugar. No crescimento global, a China acrescentou 29,67% e o Brasil apenas 1,19%.

Em 2018, o Brasil foi apenas “o 30º maior exportador de produtos da indústria de transformação. A China é o maior exportador, seguida de Alemanha, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. (Confederação Nacional da Indústria)

Os principais compradores de produtos industrializados do Brasil são Argentina e Estados Unidos.

O que acontece com o setor industrial do país não é de hoje. Desde a década de 1990, o segmento vem apresentando decréscimos que se agravaram a partir de 2016, alternando resultados razoáveis seguidos de quedas, o chamado “voo de galinha”. No primeiro trimestre de 2020, segundo o IBGE, o setor industrial apresentou uma retração de 1,4% em relação ao último trimestre de 2019. No acumulado do PIB do ano anterior, a indústria recuou 1,1%. Em abril, mês que se caracterizou como o auge da crise, a produção industrial brasileira recuou 18,8% em relação a março. Apenas a título de comparação, durante a greve dos caminhoneiros, entre 21 de maio e 1º de junho de 2018, que travou o escoamento e a comercialização da produção industrial no Brasil, o recuo foi de 11%.

Questões estratégicas não consideradas talvez expliquem algo: as escolhas equivocadas, a insistência dos governos na promoção de exportações de produtos de baixo valor agregado, como petróleo cru, soja em grãos, suco de laranja. Por exemplo: ninguém consome petróleo bruto – usa-se a gasolina, o óleo diesel, etc. de valor muitas vezes maior que o da matéria prima. Exportamos petróleo bruto e importamos os derivados. Um litro de gasolina custa quatro vezes mais que a matéria prima básica. E os empregos são gerados nos países que adquirem nossos produtos primários. A mesma coisa ocorre com o suco de laranja e a soja, que passam por um processo industrial que agrega muito valor ao produto final. Em contraste, os produtos com grande valor agregado, como os bens duráveis, são produzidos fora do país, o grosso de nossas importações.

De tudo o que foi dito, conclui-se pela falta de uma política industrial consistente, que vise o longo prazo. O que vemos no Brasil são decisões que beneficiam, temporariamente, algum setor da indústria, com incentivos que a qualquer momento são questionados trazendo mais inquietação a uma economia enfraquecida. Precisamos, isso sim, de uma visão holística, que analise os fenômenos ou a realidade por completo, e não somente as partes separadas.

Da mesma maneira, a existência de uma indústria forte, competitiva, é fundamental para assegurar nossa posição entre as nações mais desenvolvidas. Atributos não nos faltam, falta estratégia. Temos tecnologia, grandes centros de qualificação de pessoas (Sistema Indústria – SENAI), Universidades e variados institutos de pesquisa.

Finalizando, lembretes que encorajam. 1. A indústria de transformação foi responsável em agosto de 2020 por 17,74% da mão-de-obra ocupada no país segundo o CAGED– ao todo mais de 6,7 milhões de empregos para um universo de 38 milhões; 2. O Índice de Confiança do Empresário divulgado pela CNI (que varia de 0 a 100), mostra 61,6 pontos em setembro, ante 57,00 em agosto.

“Todos os indicadores industriais (Faturamento, Horas trabalhadas na produção, Emprego, Massa salarial, Rendimento e Utilização da Capacidade) avançaram em agosto. O faturamento da indústria ultrapassou níveis pré-pandemia, e a Utilização da Capacidade Instalada alcançou patamar próximo ao nível pré-pandemia. Em agosto, houve também o primeiro resultado positivo do emprego industrial em 2020: o emprego avançou 1,9% com relação a julho.

A cada um real na indústria de transformação são gerados R$ 2,63 na economia nacional.”

A indústria, como os números mostram, tem revelado muita resiliência ante a crise e isso é animador.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Arlindo Pereira de Almeida
Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube