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Arlindo Almeida: 100 anos de Celso Furtado (1)

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 18 de março de 2020 às 10:45

Foto: Paraibaonline

Em 2020 comemoramos 100 anos do nascimento de Celso Furtado, um dos mais ilustres homens públicos nascidos na Paraíba e um dos maiores economistas brasileiros. O Professor Celso Furtado, foi patrono da turma de 1966 da Faculdade de Ciências Econômicas de Campina Grande, da qual tive a honra de fazer parte.

Celso Furtado nasceu em Pombal em 26 de julho de 1920, tendo dignificado a vida em todos os encargos que lhe foram cometidos seja como estudante, Doutor em Economia, Ministro de Estado, dentre outras importantíssimas funções. Nomeado diretor da Divisão de Desenvolvimento da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), nunca perdeu sua visão crítica sobre as desigualdades, sempre lembrando o Nordeste brasileiro, “pobre de recursos e abandonado pelos Governos”.

Ao ser eleito Presidente em 1955, o grande Juscelino Kubitschek o convidou a participar do grupo de trabalho que visava redirecionar o desenvolvimento do País. Daí surgindo o Plano de Metas. Com o lema “cinquenta anos em cinco”, Juscelino levou o Brasil a diversas transformações. As principais obras de grande repercussão interna e mesmo internacional foram:

– A implantação da indústria automobilística;
– A expansão das usinas hidrelétricas – foram instaladas as usinas de Paulo Afonso, no rio São Francisco, em 1955, a de Furnas e a de Três Marias em Minas Gerais, além de outras em vários estados;
– A criação do Conselho Nacional de Energia Nuclear;
– A expansão da indústria do aço;<
– A criação do Ministério das Minas e Energia;
– A fundação de Brasília, a meta síntese do governo JK. A localização no planalto Central, era estratégica, pois criaria um polo dinâmico no interior do país, principalmente no Planalto Central.
– A criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE);

Em 1959, inspirado por Celso Furtado, foi aprovado o projeto de JK criando a SUDENE, entidade que propunha efetuar as transformações que nossa região reclamava – abandonada e vítima das desigualdades regionais do País.  Foi ele o primeiro Superintendente da SUDENE.

Pensava Celso Furtado como o poeta e filósofo francês Paul Valéry: “ Não somos uma fantasia organizada? uma incoerência que funciona e um distúrbio que age?”. Celso, como JK, era um sonhador de pés no chão, e ambos quiseram transformar o Nordeste numa fantasia organizada, menos desigual.

A SUDENE passou a ser o eixo por onde passavam todas as discussões sobre os mais variados aspectos do desenvolvimento da região. As reuniões do seu Conselho Deliberativo eram local das mais variadas discussões sobre temas de interesse comum,  contavam com a participação do Governo Federal e dos mais diversos órgãos sob sua jurisdição, de todos os Governadores dos Estados, dos movimentos sociais organizados, algo muito distante dos dias de hoje quando Governo Federal vai num sentido, os Governadores vão para outro e nunca buscam o diálogo.

A estrutura organizacional da SUDENE privilegiava, ainda, estudos e pesquisas sobre a realidade da região propondo iniciativas e obras que fortalecessem a integração do Nordeste, suas conexões com o Brasil e o mundo, a melhoria de sua infraestrutura – energia, estradas de rodagem e ferrovias, portos e aeroportos, telecomunicações – de forma a torná-lo moderno e competitivo.

Mas o sonho virou fumaça quando o governo federal, presidido por um intelectual de primeira linha, Fernando Henrique Cardoso,  em 2001, praticamente “matou” a SUDENE, que passou a ser apenas um penduricalho da estrutura governamental, perdendo toda a força que tinha adquirido até então. O argumento esgrimido pelo então Ministro da Integração Nacional, Fernando Coelho, foi, “vamos repensar os mecanismos, os instrumentos, avaliar o que eles têm de obsoleto, até de bandalheira”. Ao invés de cuidar das doenças, de punir os promotores da bandalheira, mataram o paciente.

Mas, voltemos aos cem anos de Celso Furtado, mesmo porque o assunto não se esgota em apenas uma bordagem. Dada a extensão do tema, voltaremos na próxima semana aprofundando algumas questões ora tratadas “en passant”.

Queremos recordar as comemorações pelos oitenta anos de seu nascimento,  quando a SUDENE realizou, nos dias 08 e 09 de junho de 2000, o Seminário Internacional ‘CELSO FURTADO, A SUDENE E O DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE”, que trouxe palestras e uma série de estudos que procuravam mostrar a “natureza dos desafios e das oportunidades que se abrem à economia nordestina e à SUDENE.”

Dentre os mais variados temas tratados, pontuaram: 1. Celso Furtado e o pensamento econômico latinoamericano; 2. A ideia do Desenvolvimento: Balanço de meio século; 3. Planejamento Regional: Confronto de Experiências; 4. O Nordeste nos próximos 40 anos.

Foram, ainda, realizados encontros,  o primeiro em João Pessoa, promovido pelo SEBRAE/Paraíba e pelo Governo do Estado (José Maranhão). Igualmente, na Universidade de São Paulo, o Seminário “Novos Paradigmas de Desenvolvimento”.

Na reunião da Paraíba, o Presidente do SEBRAE/Nacional, Sérgio Moreira, lembrou, muito apropriadamente, que o “desenvolvimento do Nordeste terá que ser inventado na própria Região, a partir de sua realidade ecológica e do patrimônio culural que cimenta a identidade do nordestino”.

O que ocorreu de positivo desde então?

Enfim, ao  ensejo dos cem anos de Celso Furtado é oportuno perguntar: o que têm feito as instituições paraibanas e nordestinas – Governos, Universidades, entidades da sociedade civil ditas organizadas –  para trazer às gerações presentes o pensamento de vultos de suma importância de nossa sociedade, mantendo viva a obra, os efeitos alcançados e, principalmente, tudo aquilo que não foi feito, condenando-nos ao atraso.

Como iremos comemorar os cem anos de Celso Furtado? Buscando recuperar o tempo perdido, a fantasia organizada, ou continuar a pasmaceira, o contemplar as coisas sem um propósito determinado?

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