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Apresentação do livro “Juscelino, Vida e Obra, em verso”

Josemir Camilo. Publicado em 9 de novembro de 2017.

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Foi lançado em 07/11, no Museu de Arte Popular da Paraíba, pelo confrade do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, Dr. Luiz Nunes – Severino Sertanejo – o livro “Juscelino, Vida e Obra, em verso”. Atividade sociocultural muito bonita, fruto do imenso esforço da confreira Maria Ida Steinmuller, que também representou o Instituto Histórico de Campina Grande, uma vez que a presidente, a confreira, Dra. Juciene Ricarte, estava a representar o Brasil, em dois encontros, em Portugal e na Espanha. Foi Maria Ida Steinmuller apoiada, integralmente, por este mestre das Artes, Ângelo Rafael. A obra, que o nosso magistrado nos dá à luz, vem marcar a memória de um momento em que Campina Grande vicejava de otimismo, por que também, vivia à beira de um colapso, o da água potável.

A década de 1950 foi o ponto de decolagem do município para o desenvolvimento, que já era bandeira no governo Vargas, desde o pós-guerra e já podia ser sentido em Campina Grande, na primeira gestão de Elpídio de Almeida, seguida da de Plínio Lemos, que criara a Escola de Comércio. Esse clima se tornou sequência com o presidente bossa-nova, JK. Mas, pouco teria Campina atraído se não fosse a intrepidez de uma pequena gama de homens sonhadores, e a Associação Comercial, isto, tendo, à frente, o prefeito Elpídio de Almeida e o paraibano, Assis Chateaubriand, que fundara o seu Diário da Borborema, além do não menos influente, o campinense do Ligeiro, Aluízio Afonso Campos. Estes participaram das gestões iniciais da criação da Sudene, em 1956, de ações com o governador do Estado, José Américo e o engenheiro Saturnino de Brito Filho para o convênio e construções visando o abastecimento de água de Campina

Campina, naquela década, recebeu a luz elétrica, a luz da ‘Chesfe’, como se dizia em cada cidade do interior, que recebia o precioso bico de luz, e energia a esbanjar nas tomadas. Seguindo o espírito desenvolvimentista do presidente Juscelino Kubistchek, o prefeito Elpídio Almeida criou a COMUDE (Comissão Municipal de Desenvolvimento) e Fundação para o Desenvolvimento da Ciência e da Técnica (FUNDACT); apoiou a primeira reunião dos Bispos do Nordeste, realizada nesta cidade; e inaugurou o serviço de abastecimento de água.

Campina Grande também recebeu, naqueles dias, a conferência de Alceu Amoroso Lima sobre “O Nordeste para a Civilização Brasileira”. Além disto, a cidade foi a primeira do interior do Brasil a assinar convênio para os serviços aerofotogramétricos, para sua planta municipal. Além do mais, JK, aqui esteve, em 16/12/57, para inaugurar o trecho da Rede Ferroviária do Nordeste, em direção ao sertão.

JK passou a ser o presidente da República que mais visitou Campina, se não estou enganado. Seu nome era página diária de nossa imprensa escrita e da radiofonia. Visitou, ou marcou e desmarcou tantas visitas que, hoje, historiadores e memorialistas se confundem, mormente, agora, quando a casa que o recebeu e o caramanchão de onde falou JK, ao povo de Campina, residência do Sr. Alvino Pimentel, foram abaixo, patrimônio ignorado. Se formos dar crédito a todas as informações, JK teria visitado Campina desde o encontro dos Bispos do nordeste, em 1956, até 1960 (não encontrei, porém, registro para 1959).

Agora, às vésperas de completar 60 anos da inauguração do abastecimento de água de Boqueirão, o literato, membro da Academia Paraibana de Letras, Luiz Nunes, nos proporciona esta volta à memória, com suas 4.555 estrofes e seus quase 32 mil versos sobre o presidente Juscelino Kubistchek. O mestre das rimas nos apresenta uma poesia na estrutura de cordel, em versos de 7 sílabas, como já nos ofereceu, em modalidade mais simples, a revisitação ao clássico tema medieval “A Princesa Magalona e o seu amor por Pierre”, nesta obra, como Severino Sertanejo. Mas, no campo da História, Luiz Nunes já nos deu, também, “Napoleão, Amor e Guerra”. Sua produção é larga em versos no estilo da literatura de cordel, leitor assíduo dos grandes vates, como reproduziu a sua admiração em “Inácio da Catingueira, o gênio escravo”. Admirador da cultura nordestina, também versejou sobre grandes homens, como nos deu “Delmiro Gouveia: uma estrela na pedra”, ou, ainda, a “História da Paraíba em Versos”, conjunto de quatro folhetos.

Fiquei a imaginar seu método de leitura da autobiografia juscelinista, como sua mente, viciada, desde a infância aos decassílabos e martelos agalopados, vivenciados pelo interior da Paraíba, pôde ler a prosa biográfica e política de tão importante empreendedor. Imaginei um espelho, como fazem os desenhistas, mas para criar uma outra obra, estilos à parte. “Juscelino, Vida e Obra, em verso” é um desafio que o leitor vence por etapas, já que é um livro sem capítulos, conduzido por estrofes descritivas (o narrador) e por estrofes dialógicas (a fala do personagem), destacada esta por uma barra de mudança de interlocutor.

Campina Grande vai se sentir mais próxima, neste livro, a partir do Encontro dos Bispos, mas não diretamente e, sim, através de um personagem muito querido ao nordestino, mormente ao pernambucano, na figura de D. Helder Câmara, personagem que Luiz Nunes resgata e o põe nas entrelinhas da criação da Sudene, como um pré-ato para introduzir o maior dos paraibanos, o fundador da Sudene, Celso Furtado. Esse é o enredo que ocupa os versos das páginas em torno da página 420. Indicasse, o poeta, o antecessor de Celso Furtado, nesta cogestão da grande entidade, Dr. Aluízio Afonso Campos, e sentiríamos que, ali, estava a representação de Campina Grande. Mas, nem tudo é louvação, louvação, para combinar com os versos do cantor, concluo minha fala mostrando também uma face discreta de denúncia do autor:

“Segundo diz o adágio,/Depois do mal vem o bem./Sem cinquenta e oito, pois,/Com a seca e mais além/Não se falava em SUDENE/Cuja vida não perene/Sabe-se a culpa de quem”/.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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