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Antropólogos e Índios, Índios e Antropólogos

Noaldo Ribeiro. Publicado em 4 de abril de 2018 às 8:14

Por volta de 1984 tive o prazer de conhecer o antropólogo Roberto Kant de Lima. Na ocasião, lecionava na Universidade Federal de Rondônia e junto a alguns colegas tentávamos colocar a instituição no eixo das discussões nacionais. Resolvemos, então, convidar dois intelectuais para uma rodada de conferências. Um deles, já citado. O outro foi Luiz Mott, do mesmo ramo, porém com objeto de estudo distinto.

Fiquei mais próximo de Kant. Depois das preleções saíamos para os bares e o papo seguia noite adentro. Na primeira conversa (sua estada foi de três dias em Porto Velho) a conversa girou em torno de sua formação no Brasil e nos Estados Unidos, o que o levou a escrever “A Antropologia da Academia: Quando os Índios Somos Nós” – título que, radicalizando na interpretação, designa que, na terra do Tio Sam, sob a égide da dominação cultural, o antropólogo brasileiro deixa de ser sujeito e passa a ser objeto. Isto, evidentemente, metaforicamente. Nesta mesma noite, fui presenteado com o livro aludido, acompanhado de uma simpática dedicatória.

É comum entre um gole e outro de cerveja tergiversar, divagar, soltar piadas (às vezes sem graça), “pagar mico”, mudar repentinamente de assunto e, caso não se fique embriagado, retomar o temário original. Nesse clima de descontração, ele praticamente resenhou o livro que há pouco me dera de presente.

Duas questões ficaram gravadas memória: A tradição generalizante e prolixa da academia, digamos europeia, se bem que mais concentrada na França, e que a temos como herança e; em contraposição, o pragmatismo do fazer científico norte-americano (Qual é o ponto?) e o alto grau de especialização que quebra a amplitude, em infinitas fatias, da realidade a ser estudada.

Um traço não colocado no seu livro, mas abordado naquela noite de produtiva farra, foi a distinção, feita por ele, entre o caráter do movimento estudantil brasileiro e o do norte-americano. Aqui, no coração dos trópicos, o ME desfraldava bandeiras gerais, principalmente pela materialização do sonho de uma sociedade nova.

Nas universidades dos EUA, ao contrário, os estandartes reivindicatórios refletiam pretensões miúdas. Protestos eram feitos, por exemplo, para boicotar a Coca-Cola em favor da Pepsi e coisas do tipo. O desprezo, enfim, pelo todo e a adesão pelo minimalismo, me parecia assustador e, nesse ponto, eu sentia orgulho da visão ampla da estudantada do meu país.

Hoje, após 32 anos de um feliz papo com Roberto Kant de Lima (depois disso nunca mais o vi), deparo-me com o Brasil em situação, não diria semelhante, porém caminhando pra sê-la. Embora continuemos com pautas políticas, nos perdemos a discutir episódios isolados, miudezas que tentamos unificá-las, mas que nos falta fôlego para construirmos uma narrativa de um projeto nacional.

Macacos me mordam!

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Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

falecom@fhc.com.br

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