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Amor e perdão

Padre José Assis Pereira. Publicado em 18 de fevereiro de 2017 às 12:23

Por Padre José Assis Pereira

Continuamos escutando no evangelho de São Mateus a aplicação das bem-aventuranças à vida da comunidade cristã. No evangelho de hoje (cf. Mt 5, 38-48) seguimos falando da plenitude da lei, que, segundo Jesus, os escribas e fariseus não cumpriam em plenitude.

Amor e perdão são por assim dizer, duas palavras chaves na mensagem deste domingo. Fáceis de pronunciar, mas difíceis de praticar. Amar aos que nos amam pode ser interessante. O mérito, no entanto, está em amar aquele que não nos pode retribuir o amor, e inclusive aquele que nos prejudica ou que nos odeia.

Diz o livro do Levítico, uma espécie de código de normas cultuais, morais e sociais, destinadas a consolidar a consciência nacional de Israel: “Não terás no teu coração ódio pelo teu irmão… não te vingarás, nem guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o próximo como a ti mesmo”. (Lv 19,17-18)

O amor a Deus e ao próximo não se improvisa. É um amor que nasce de uma experiência religiosa, uma experiência existencial profunda que dá sentido a vida. Aqui acrescentamos um novo elemento, o cristão não se vinga, “ama os inimigos” que é muito mais do que perdoar-lhes; é fazer-lhes bem, é oferecer a outra face. É uma perspectiva nova, paradoxal, dura, partindo de um ponto de vista impensável: amar os inimigos porque Deus os ama e é deste modo que os filhos e filhas de Deus imitam a sua paternidade: “Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”. (Mt 5, 48)

O evangelho (Cf. Mt 5, 38-48) nos apresenta as duas últimas antíteses do sermão da montanha. A primeira antítese de Jesus faz referência à chamada lei do Talião, tal como está escrita no livro do Êxodo, 21, 25: “olho por olho e dente por dente”. A lei do Talião era considerada pelos judeus como uma lei sagrada, dada por Moisés ao seu povo, para impedir a vingança desproporcionada e indiscriminada. Em seu tempo, foi uma lei boa e necessária. Mas Jesus de Nazaré pede a seus discípulos que eles vão mais além: “àquele que te fere na face direita oferece-lhe também a esquerda” (Mt 5,39).

Eu não sei se nós, em nosso comportamento cotidiano, somos mais partidários da lei do Talião, que do conselho de Jesus. Porém, o que se sabe é que a plenitude do perdão, segundo o mandamento de Jesus, nos obriga a não devolver o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem. Cristo nos abre uma nova perspectiva. Ele considera que temos que descartar todo desejo de vingança ou de justa compensação por um dano sofrido.

Nas sociedades bem organizadas, não se admite a “justiça feita pelas próprias mãos” e não se

tolera a vingança, que assistimos estarrecidos em nossa sociedade brasileira que tem o mito, o estereótipo de “não violenta”, mas que tem se revelado o contrário ao longo de toda a sua história sangrenta. Quem é agredido injustamente pode defender-se, mas não lhe é lícito superar a legítima defesa. Além do mais estamos convencidos de que uma autoridade ou instância superior tem melhores possibilidades para promover a justiça do que uma ação individual.

Segundo a doutrina evangélica, não tem que se enfrentar a quem nos prejudica, não tem que devolver mal por mal. Ainda que isso seja o normal, e inclusive podemos dizer que é o natural. É evidente que existem os tribunais de justiça, e que também os cristãos temos direito a fazer uso deles quando o acreditamos justo e conveniente. Porém, na convivência de cada dia devemos esforçar-nos em ser sempre mansos e humildes de coração.

Olho por olho… o mundo acabará cego”, dizia um dos ícones da “não violência” Gandhi. Jesus vai mais além da letra da Lei. A atitude cristã diante daquele que nos ofende não é responder com a mesma ofensa, ou uma maior, porque gerará mais violência ainda, se não se resistir, que é uma maneira de responder com o bem ao que te faz o mal. No fundo esta quebra da espiral de violência, é um testemunho de fé, é um momento evangelizador que fará que a outra pessoa se questione sobre o que é que me move a dar a outra face e não a contestar com a mesma violência ou maior. Nossas obras, nossos comportamentos, estarão mostrando nossa fé no Deus de Jesus, que não resistiu em nenhum momento de sua Paixão e morte de Cruz.

A segunda antítese de Jesus se refere ao amor aos inimigos: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5, 44). É possível amar os inimigos? Afetivamente, quase nunca é possível, porém o que nos manda Cristo não é que amemos afetivamente aos inimigos, mas que façamos o bem e rezemos por eles. Isto não só é possível fazê-lo, como o fazendo nos sentiremos certamente muito melhor. Amar uma pessoa significa então fazer-lhe o bem, e nos disse Jesus que se fizermos isto atuaremos como verdadeiros filhos e filhas de Deus: “Desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, por que ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5, 45).

Jesus quer que nos pareçamos mais com nosso Pai Deus: “Deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 48). E se ele não distingue entre bons e maus na hora de mandar a chuva ou de fazer sair o sol, tampouco nós que somos seus filhos podemos deixar-nos levar por critérios meramente humanos. Temos de lutar por ser perfeitos.

Amar uma pessoa na medida com a qual ela nos ama, é relativamente fácil; amar uma pessoa para além da medida com a qual ela nos ama, é difícil: “se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também os publicanos a mesma coisa?” (Mt 5,46). Isso é amar sem medida, amar com a medida de Deus. Muitas pessoas dizem: “eu perdoo, mas não esqueço.” Pois se perdoa em sentido cristão, já é o suficiente. Esquecer sabe-se psicologicamente é impossível e ninguém nos vai exigir. Essa é a paz da consciência que nos deve dar a religião, ante as injurias, os insultos e os danos não merecidos. O perdão é a cara humilde do amor; o que sabe perdoar sabe amar.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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