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Alfabetização solidária!

Jurani Clementino. Publicado em 7 de fevereiro de 2019 às 11:54

Entre os anos de 1999 e 2000 trabalhei como professor do Programa de Educação de Jovens e Adultos, (Alfabetização Solidária), na época, coordenado pela professora Fatinha de João Grande. As aulas aconteciam todas as noites na escola Pedro Alexandre de Sousa, mesmo local onde fui alfabetizado. E reunia uma turma com aproximadamente trinta alunos. O mais velho deles devia ter setenta e poucos anos, e o mais novo algo em torno de vinte. Eles quase sempre chegavam cansados depois de um longo dia de trabalho. Muitos dormiam em sala. Vez por outra eu flagrava dona Ivonete roncando na cadeira enquanto eu explicava o conteúdo ou acompanhava o desenrolar de uma atividade. Das minhas alunas ela era a que mais dormia durante a aula. Ficou até conhecida popularmente como “a aluna que vai pra escola dormir”.

Era uma escola formada basicamente por casais: Ivonete ia com o esposo Miguel, Chagas com Maria de Lourdes, Diassis com Nilma, Antônio Augusto com Marlene. Tinha uns que faltavam bastante as aulas. Outros eram fieis e bastante pontuais. Raramente o casal Nilma e Diassis faltava as minhas aulas. Eles chegavam cedo, sentavam nas cadeiras da frente e prestavam atenção a tudo o que eu explicava. Copiavam cuidadosamente no caderno e com pouco tempo notei um considerável avanço na escrita e na leitura. Era o que podíamos chamar de alunos exemplares. Visando o interesse da turma, procurava sempre tornar as aulas atraentes e explorava o que eles tinham de conhecimento adquirido ao longo da vida. Um dia estávamos falando sobre o clima seco e as consequências disso no roçado e, no outro, cantando “Asa Branca” de Luiz Gonzaga embalado pelo barulho da sanfona tocada por Zé Leandro.

A aluna mais velha da turma, na época com algo em torno de setenta e dois anos, era dona Antônia. Todos ali tinham um parentesco muito próximo dela. Dona Antônia era mãe, sogra, tia e madrinha de um em cada dois colegas de classe. Era uma senhora querida por todos, não enxergava muito bem e tinha uma dificuldade danada para escrever. Ficava tão nervosa quando pegava no lápis e segurava com tanta força que, em pouco tempo, estava banhada de suor. Sua maior dificuldade era desenhar os números quatro e cinco. Lembro que ela nunca conseguiu fazê-los corretamente. Às vezes pedia para que repetisse infinitas vezes no caderno, aqueles números, mas quando voltava ela estava pingando de suor e não demonstrava nenhum sucesso na empreitada. O cinco ela sempre fazia ao contrario e a parte da grafia do número quatro que deveria ficar pra trás, ela insistia em colocar pra frete. Ela dizia pra mim que o quatro era uma cadeira de ponta cabeça. Mas ela nunca conseguia colocar a cadeira na posição que ela mesma imaginava.

Foi um período muito curto, algo em torno de um ano, um ano e meio. Impossível mudar muita coisa na vida daquelas pessoas. Quando notei que muitos estavam reconhecendo algumas palavras e construindo algumas frases curtas, tive que me ausentar. Ainda hoje alguns deles falam que aprenderam bastante. Airton sempre que me ver faz questão de dizer como aquelas aulas foram importantes na vida dele. Que aprendeu muito, que era um momento também de descontração. Zé Roberto até hoje me chama de “eterno professor”. Em meados de 2000, às vésperas de vir morar em Campina Grande pedi que eles escrevessem uma espécie de cartinha, bilhete, recado para o professor. Hoje reencontrei os bilhetes carinhosos que eles me escreveram.  Diassis Leandro que não estar mais entre nós, escreveu: “Gostaria que você ficasse. Depois que você começou a ensinar eu já aprendi muita coisa”. Em meado de 2017, esse meu aluno nos deixou de forma inesperada. E o que todos nós queríamos de ter dito a ele, naquele momento, era: gostaríamos que você ficasse. Ainda temos muito o que aprender muito com você.

Jurani Clementino 

Campina Grande – Terça-feira, 05 de janeiro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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