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Alberto Ramos: Medicina e Política

Alberto Ramos. Publicado em 27 de outubro de 2020 às 22:30

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

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Estava eu a comentar com alguns alunos que várias sociedades médicas dos Estados Unidos e periódicos pesos pesados como Science, Nature, The New England Journal of Medicine e esta semana o British Medical Journal têm se manifestado contra Donald Trump. Chamei a atenção dos alunos para a importância desse fato inédito.

Porém, um dos alunos comentou que ele preferia estudar para ser um bom médico e dormir.

Que não tinha interesse nenhum na política.

Fiquei incomodado com essa opinião (lógico que ele tem todo direito de tê-la) da qual discordo frontalmente. Sei que é prevalente na classe médica e também sei o quanto é nociva para nós profissionais da saúde e pacientes.

Um cara chamado Rudolf Virchow (1821-1902) disse que “Die Medicin ist eine sociale Wissenschaft und die Politik ist weiter nichts als Medicin im Grossen (A medicina é uma ciência social e a política nada mais é do que medicina em larga escala)”.

Quando Virshow falou isso, a Medicina estava deixando de ser um refúgio de charlatões e dando os primeiros passos como ciência. E ele foi uma das pessoas que mais contribuíram para esse avanço. E sabia da importância da técnica aliada ao social.

De lá para cá, cada vez mais a ciência da qual dependemos, vem incorporando a alta tecnologia, que custa caro e que depende cada vez mais de verbas, preferencialmente públicas. A decisão de liberar ou não essas verbas é uma decisão política e nós, a comunidade produtora e usuária da ciência, devemos participar dessa discussão sob pena de não avançarmos.

Vou dar um exemplo.

Um meu professor chamado Francisco Arduino, um dos maiores conhecedores de Diabetes do mundo, previa que antes do ano 2000 teríamos a cura do diabetes tipo 1. Ele não podia prever que Regan (8 anos), Bush pai (4 anos) e Bush filho (8 anos), por pressão dos religiosos fundamentalistas, iriam cortar todo o dinheiro público para pesquisas na área de células tronco que envolvessem embriões a serem descartados.

Os 8 anos de Clinton e de Obama não foram suficientes para restaurar as equipes de pesquisa e, depois de quase 40 anos da previsão do Dr. Arduino, ainda estamos engatinhando nesta área.

Quantos diabéticos tipo 1 morreram desde então? Quantos perderam a visão, o rim ou sofreram amputações? Quanto sofrimento desnecessário poderia ser sido evitado se não tivesse havido essa solução de continuidade?

E nós que estamos no front, por mais que nos esforcemos e estudemos para tratar bem quem tem diabetes tipo 1, poderíamos fazer muito mais (a cura) se tivesse havido na época uma maior pressão contrária aos religiosos. A American Diabetes Association ainda hoje é criticada por não ter sido mais enfática na defesa das pessoas com diabetes tipo 1.

Este é apenas um pequeno (pequeno?) exemplo de como a política interfere na Medicina e no nosso dia a dia. Cada uma das especialidades médicas deve ter exemplos tão ou mais impactantes quanto esse. Mostra que não podemos enfiar a cabeça na areia (ou nos livros, ou nos cobertores) porque a realidade vai nos achar onde quer que nos escondamos e teremos que pagar o preço da nossa omissão.

Outro exemplo. Em 2014, alertado por seus conselheiros cientistas que previal algo como a atual pandemia, o presidente Obama criou um comitê para combate aos possíveis vírus emergentes. O que o obscurantista fez. Desmantelou o comitê e os EUA foram pegos de calças curtas.

Um exemplo de omissão no Brasil é a criminosa atitude do Conselho Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira ao não se manifestarem contra a forma incompetentemente perversa que o Governo Federal tem conduzido (conduzido?) o combate a COVID 19. Por conta da incompetência de um e da omissão de outros, mais de 150.000 brasileiros já perderam a vida. Como a classe médica está se manifestando contra o descalabro federal?

Infelizmente a classe médica tem uma das maiores prevalências de analfabetismo político entre todas as profissões. Provavelmente tem a ver com esse escapismo que, na maioria das vezes se inicia ainda enquanto alunos e, em grande parte das vezes, resulta na formação do analfabeto político.

Sobre o analfabeto político, Bertold Brecht (1898-1956) disse o seguinte:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem de decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que de sua ignorância nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Disse tudo.

E nós que fazemos e usamos a ciência, temos que nos opor a todos os governantes obscurantistas.

Os nossos pacientes agradecem.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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