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Alberto Ramos: Em que ano estamos?

Alberto Ramos. Publicado em 7 de fevereiro de 2021 às 10:16

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

Na semana passada estava conversando com alguns amigos (virtualmente) quando um deles falou que até parece que 2021 ainda não começou. Que parece que estamos na segunda temporada de 2020.

Apesar de ter achado a observação extremamente criativa e pertinente, argumentei que, no meu entendimento, estamos em 1984.

1984?

Já explico.

Até o mundo mineral sabe que o sargento Garcia (também conhecido como Pazuello) e o capitão coronga, desde o início da pandemia defendem, prescrevem e forçam os médicos a prescreverem medicamentos sem nenhuma comprovação de eficácia (cloroquina, azitromicina, ivermectina e nitazoxanida). Deram a esta mistura o nome de “kit de tratamento precoce”.

No início da pandemia tinha alguma lógica em usá-los já que alguns desses medicamentos tinham ação in vitro contra o vírus SARS-COV-2.

In vitro que dizer no laboratório. Um medicamento que mostre ação no laboratório precisa ser testado para saber se realmente funciona.

Era o que se tinha.

No entanto, os estudos adequados infelizmente não demonstraram eficácia.

Atenção! Quando falo estudos adequados são aqueles que seguem algumas premissas que já detalhei em artigo anterior.

Nenhum dos estudos que defendem o kit foi realizado adequadamente.

As evidência foram se acumulando e hoje temos uma quantidade imensa de pesquisas e artigos que têm demonstrado ad nauseam que nenhum desses remédios é melhor que o placebo para tratar a COVID 19.

Lembro que placebo é aquela substância sem valor terapêutico que se usa na maioria das pesquisas bem feitas para saber se a droga em estudo é eficaz contra aquela doença que ela se propõe a tratar.

Pois bem, nenhuma das drogas acima citadas foi melhor que o placebo.

Era para a discussão ter acabado aí.

No entanto, os defensores dessas drogas, mais conhecidos como cloroquiners, inverteram o ônus da prova e passaram a exigir que os médicos que estavam defendendo a ciência, “provassem que as drogas eram ineficazes”.

Só lembrando, o ônus da prova significa que quando você defende determinada ideia, tem que provar que está certo. Por exemplo, quando o sistema judicial acusa alguém de um crime, o sistema tem que provar que o acusado é culpado. Não cabe ao acusado provar que é inocente.

Os cloroquiners exigiam e alguns ainda exigem que nós provemos que as drogas não funcionem.

Sociedades como a de infectologia do Brasil, dos Estados Unidos, de praticamente todos os países do mundo não recomendam nenhuma dessas drogas.

As evidências da ineficácia estão se acumulando de tal forma que grande parte dos defensores já parou sua cruzada brancaleone.

E não é só isso. Estão sendo publicados relatos cada vez mais frequentes que o “kit de tratamento precoce” além de não ser efetivo pode causar danos à saúde e até a morte. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/medicos-e-pacientes-relatam-efeitos-colaterais-graves-do-chamado-tratamento-precoce-contra-covid.shtml

Quanto à Ivermectina, o próprio laboratório que a fabrica publicou nota informando a sua ineficácia em tratar a COVID 19. Disponível em https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2021/02/05/fabricante-ivermectina-eficacia-covid-19.htm

A ficha está caindo para muitos e alguns do alto escalão do governo federal estão receosos que possam ser responsabilizados criminalmente por induzirem todo um sistema de saúde a uma prática deletéria que certamente causou enorme prejuízo financeiro e, principalmente, causou inúmeras mortes.

Eles, na maior desfaçatez, estão negando que tenham prescrito cloroquina.

Sabem aquelas fotos onde o capitão coronga segurava a caixa de cloroquina como se fosse o Santo Graal? Mandou apagar todas nas várias redes sociais onde ele passa o dia se divertindo junto com Carluxo, ao invés de trabalhar.

E o sargento Garcia diz que nunca prescreveu cloroquina.

Que não arrebanhou uma manada de médicos para irem com ele a Manaus (quem pagou a viagem?) para forçar os médicos da rede pública de Manaus a prescreverem a porcaria do “kit de tratamento precoce”. Os pacientes morrendo sufocados por falta de oxigênio e o sargento e sua chusma forçando os médicos a prescreverem uma porcaria de um kit sem nenhuma evidência científica.

A notícia da “força-tarefa” bovina está em https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2021/01/com-manaus-sem-oxigenio-pazuello-montou-e-financiou-forca-tarefa-para-disseminar-cloroquina-em-ubss.shtml

Isso se chama crime.

Contra os pacientes e contra os médicos.

Por falar nisso onde anda o Conselho Federal de Medicina?

Mas isso também se chama reescrever a história.

Lembrei-me do livro 1984 (quem ainda não leu, vale a pena). Nele, o personagem principal chamado Wiston Smith trabalhava no MINISTÉRIO DA VERDADE e sua função era apagar dos livros e dos jornais antigos todos os fatos e fotos que incomodavam o dirigente supremo (conhecido como o Grande Irmão – Big Brother no original).

Em minha opinião estamos vivendo essa distopia. Estamos em 1984!

E sabem qual a pior parte? É que o gado continua acreditando na narrativa do capitão por mais inverossímil que seja.

Também pudera. Eles são profissionais. O Ministério da Verdade do livro foi substituído pelo Gabinete do Ódio dirigido pelo irrequieto 02.

Lá, além de apagarem as notícias passadas inadequadas, promessas esquecidas etc., eles criam ou requentam mentiras deslavadas principalmente na área de costumes.

Fico impressionado cada vez que vejo pessoas inteligentes acreditando nas criações odientas. Em um grupo que participo, no qual todos os constituintes são pessoas de nível universitário, foi publicado esta semana um vídeo sobre todas as fakes disseminadas no período eleitoral inclusive o famoso da mamadeira de piroca.

O objetivo é desviar as atenções. Ao invés de se discutir a mortandade de brasileiros causados pela incúria da kakistocracia ou se discutir a relação promiscua e indecente com o centrão, são colocadas em foco o “perigo comunista”, o kit gay, o nióbio e outras aleivosias.

E tal qual em 1984, a manada segue.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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