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Alberto Ramos: Disputa de Mambembes. Cloroquina X Cocô de vaca

Alberto Ramos. Publicado em 12 de junho de 2021 às 16:33

A Índia é o segundo país mais populoso, o sétimo maior em área geográfica, a sétima maior economia em Produto Interno Bruto (PIB) e a democracia mais populosa do mundo. As reformas econômicas feitas desde 1991 transformaram o país em uma das economias de mais rápido crescimento do mundo; no entanto, a Índia ainda sofre com altos níveis de pobrezaanalfabetismo, desigualdade, violência de gênero, doenças e desnutrição.

Ou seja. O pacote completo de emergentes que nunca emergem.

Lar da Civilização do Vale do Indo, de rotas comerciais históricas e de vastos impérios, o subcontinente indiano é identificado por sua riqueza comercial e cultural em grande parte da sua longa história. Quatro grandes religiõeshinduísmo, budismo, jainismo e siquismo — originaram-se no país, enquanto o zoroastrismo, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo chegaram no primeiro milênio d.C. e moldaram a diversidade cultural da região.

Ao lado da pujança em áreas como informática e fabricação de medicamentos e vacinas, o país convive com muitas regiões extremamente atrasadas (fonte https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndia).

O hinduísmo é a mais conhecida das religiões. Mesmo correndo o risco de tentar simplificar um conceito extremamente complexo visando o objetivo deste texto, vou tentar resumir. O hinduísmo conta com cerca de 33.000.000 (isso mesmo, trinta e três milhões) de deuses e deusas no seu panteão. 

Uma dessas divindades é a vaca.

A tradição nasceu junto com o hinduísmo. Os Vedas, coletânea de textos religiosos de cerca de 1500 a.C., comentam a fertilidade do animal e o associam a várias divindades. Outra escritura hinduísta, o Manusmriti, compilado por volta do século I a.C., também enfatiza a importância da vaca para o homem. Nos séculos seguintes, foram criadas leis elevando gradualmente o status religioso bovino.

No sistema de castas que ainda vigora na sociedade indiana, a vaca é considerada mais “pura” até do que os brâmanes (indivíduos pertencentes à casta mais elevada, a dos sacerdotes) – por isso, não pode ser morta nem ferida e tem passe livre para circular pelas ruas sem ser incomodada. O leite do animal, sua urina e até mesmo suas fezes são utilizados em rituais de purificação. (fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-a-vaca-e-sagrada-na-india/).

Nós achamos muito estranho uma devoção a uma vaca. Quando falo na estranheza de se considerar a vaca um animal sagrado e reverenciá-la, não estou querendo ridicularizar o hinduísmo. Para mim, a Vaca, enquanto divindade, é tão digna de respeito quanto o Alcorão, a Bíblia, a Torá, o Torri e a Roda do Dharma.

Disto isso, vamos ao que interessa.

Há pouco menos de um mês, fiquei estarrecido ao ler na Folha de São Paulo que religiosos indianos e alguns médicos estavam usando e estimulando a  população a usar um método nada ortodoxo para a prevenção e o tratamento do COVID 19.

Reza a matéria:

“No estado de Gujarat, no oeste da Índia, religiosos têm ido a abrigos de vacas uma vez por semana para cobrir seus corpos com esterco e urina na esperança de que a prática aumente a imunidade contra o coronavírus ou os ajude a se recuperar…”Até médicos vêm aqui. Eles acreditam que essa terapia melhora a imunidade e assim podem cuidar de pacientes sem medo”, disse Gautam Manilal Borisa, gerente associado de uma empresa farmacêutica, para quem a prática o ajudou a se recuperar da Covid-19 no ano passado…Enquanto os participantes esperam que a mistura de esterco e urina em seus corpos seque, eles abraçam ou homenageiam as vacas no abrigo e praticam ioga para aumentar os níveis de energia. Os grupos são então lavados com leite”.

Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/05/medicos-na-india-fazem-alertas-contra-uso-de-esterco-de-vaca-como-prevencao-a-covid.shtml?origin=uol 

Meu estarrecimento, no entanto, durou pouco tempo. 

Comecei a raciocinar sobre as similitudes que existem entre o Brasil e a Índia assim como de alguns médicos do Brasil e alguns médicos da Índia e cheguei a algumas conclusões que guardei para mim.

No entanto, ao assistir parte dos depoimentos das médicas Nise Yamaguchi e Luana Araújo na CPI do senado, achei que devia me manifestar.

Em primeiro lugar, a Luana.

Quando perguntada qual a opinião dela sobre o uso da Cloroquina ela respondeu: 

“Quando eu disse que há um ano estávamos na vanguarda da estupidez mundial, infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos. Ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular. Não tem lógica”, completou.

Como dizíamos nos anos 70, “falou e disse!”.

Ou como dizia minha avó: prego batido ponta virada.

Mesmo assim há quem diga que muitos dos que se curaram da COVID, alcançaram este resultado por causa da cloroquina.

Discordo.

Defendo, baseado nas evidências oriundas de estudos científicos controlados, randomizados, duplo-cegos (que são os que valem), que ninguém se curou por causa da cloroquina. Os que tomaram a droga e escaparam, se curaram apesar da cloroquina.

O argumento para esta minha afirmação tem como respaldo  o fato de que a cloroquina, nos estudos acima citados não contribuiu para nenhuma cura.

Em segundo lugar, um forte argumento foi dado por uma das mais ferrenhas cloroquiners, a Dra. Nise Yamaguchi.

No seu depoimento à CPI ela citou estudos que não provaram a efetividade da cloroquina. A maioria porque foram estudos de baixa qualidade, sem as características que citei acima. Em um deles (um estudo bem-feito), ao ser confrontada por um dos senadores sobre as conclusões do estudo respondeu: “ao que eu saiba o estudo mostrou eficácia.”

Em primeiro lugar o estudo citado não mostrou eficácia. Pelo contrário. E o mais grave. Ao dizer “ao que eu saiba” ela está confessando que não leu o artigo. E se leu não entendeu. E se entendeu e continua dizendo a mesma coisa está mentindo. E está convencendo os incautos.

Tenho visto muitos médicos bolsonaristas e cloroquiners que também citam um monte de estudos de baixa qualidade e que pelo que falam e postam, fica perfeitamente claro que também não os leram.

Mas o mais grave foi que ao ser perguntada sobre a possibilidade de a droga provocar arritmias cardíacas ela afirmou que sempre solicita Eletrocardiograma e eventualmente Ecocardiograma dos seus pacientes antes da prescrição.

Mostra em primeiro lugar que ela sabe (embora negue) que a droga em questão pode provocar arritmias e que com os pacientes ricos dela, ela teve esse cuidado.

Na opinião de vocês, quantos dos milhões de pessoas do Brasil que tomaram cloroquina tiveram acesso a esses dois exames?

Embora sejam relativamente raras, as arritmias cardíacas causadas pela cloroquina, podem ser desencadeadas ou pioradas em alguns pacientes. Estes, na sua imensa maioria, mesmo que sintam algo, não têm acesso a um serviço médico imediato.

A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, em nota afirma que “O perfil farmacológico da cloroquina é bastante seguro e o seu uso, especialmente em doenças reumatológicas, confere muitos benefícios com raras complicações importantes. Entretanto, o uso indiscriminado e sem acompanhamento médico e também a exposição a possíveis interações com outros medicamentos, podem expor o indivíduo a efeitos adversos graves.” (disponível em https://sobrac.org/home/alteracoes-cardiacas-secundarias-ao-uso-de-cloroquina/)

Podem ter morte súbita.

Quantos morreram assim?

Todos nós conhecemos muitos casos de pessoas que estavam melhorando e de repente, sem motivo aparente, subitamente morreram.

Pode ter sido uma arritmia causada pela cloroquina? Pode.

Nunca saberemos quantos brasileiros morreram por causa de complicações cardíacas causadas pela cloroquina.

A política de distribuir o kit Covid com todos que procurassem os serviços médicos, mesmo sem confirmação do diagnóstico, como aconteceu em Campina Grande (e que ainda acontece pelo que sei),  é uma política criminosa.

Fiquei então a matutar. Qual o pior? O kit COVID defendido pelos cloroquiners ou o cocô de vaca dos indianos.

Vamos raciocinar.

Tomar cloroquina, como vimos acima, pode provocar arritmias que geralmente se manifestam por sintomas vagos, quase nunca corretamente descritos pelos pacientes. Se o paciente sentir um vago mal-estar no meio da noite, vai fazer o que? Dependendo de onde more vai chamar o SAMU, que devido ao processo de desmonte que vem sofrendo, pouco vai poder fazer pelo paciente. Consulta com o cardiologista?

Assim como todos os outros especialista que atendem os pacientes do SUS, se tiver sorte, vai ter vaga daqui a um ano. E se for na farmácia o balconista vai “prescrever” um complexo vitamínico que não vai servir para absolutamente nada.

Quantos morreram assim?

Além disso, a divulgação principalmente pelas palavras e atos de nossas principais autoridades estimulam as aglomerações e outras atitudes que favorecem a disseminação do vírus (não usar máscaras por exemplo) ao prometer prevenção ou pelo menos uma melhora rápida e quase milagrosa. Tem um vídeo do presidente onde ele diz que melhorou no outro dia quando esteve doente e estimula (através do exemplo) ao uso indiscriminado. (disponível em https://www.bol.uol.com.br/noticias/2021/05/20/bolsonaro-diz-que-tomou-cloroquina-de-novo-sem-recomendacao-medica.htm) 

E o cocô de vaca?

Se cobrir de cocô, até onde sei, pode provocar principalmente infecções. 

Ora, infecções geralmente se manifestam com febre, adinamia e outros sintomas dependendo do local que acometam.

Tem tratamento? Sim. Antibióticos. Como existem sintomas o paciente pode procurar um serviço médico e, se a Índia for como o Brasil, é possível achar uma farmácia onde por uma quantia módica, o balconista vai esquecer a lei e vai “prescrever” um antimicrobiano que provavelmente resultará em cura.

Então, acho que todos concordam que é mais fácil tratar um “efeito colateral” causado pelo cocô de vaca do que o causado pela cloroquina.

1 a 0 para o cocô!

Por outro lado, o “tratamento” com cocô de vaca recomenda que o paciente passe várias horas coberto com o esterco e que depois “seja lavado com leite”. 

Banho com água e sabão não é citado, mas, pela leitura do texto, fiquei com a impressão que não deve ser usado sob pena de “tirar o efeito” do tratamento. 

Imaginem o mal cheiro que resultará na mistura de cocô de vaca com leite podre depois de algumas horas e mantido por vários dias!

Ninguém conseguirá chegar perto do paciente.

Isto terá um efeito extremamente benéfico que é a indução ao distanciamento social.

Sendo assim, na disputa do Troféu Terra Plana, os médicos indianos que prescrevem o cocô de vaca ganharam de 2 a 0 dos médicos cloroquiners. 

Vida longa à vaca.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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