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Alberto Ramos: Cada macaco no seu galho

Alberto Ramos. Publicado em 30 de dezembro de 2020 às 12:08

Com a ajuda de Malu (dando a ideia) e Talyta,
Lu, Guga e Guilherme colaborando com a revisão

No livro Naturalis Historia, publicado entre 77 e 79 dC, Plínio o Velho, conta a história de um pintor chamado Apeles que estava em um mercado pintando um quadro de um legionário romano. Nesse momento ia passando por lá um sapateiro que observou e mostrou que havia um defeito na pintura da sandália do soldado.

Apeles prontamente corrigiu o erro e, incentivado por isso, o sapateiro passou a apontar outros supostos defeitos na pintura. Apeles então teria dito ne supra crepidam sutor iudicaret (um sapateiro não deve julgar além do sapato).

Ou seja, ele falou o que na sua sabedoria o povo diz “cada macaco no seu galho” para afirmar que, a não ser em situações especiais, cada pessoa deve se limitar a fazer as atividades para as quais foi treinado.

Conversando com minha filha Mariana no último feriado, ela me falou de como tem tido dificuldade de discutir com algumas e alguns colegas de universidade a qualidade da condução que tem sido dada a vacinação dos brasileiros entre outras atitudes tomadas pelo atual ministro da saúde do Brasil.

Alguns, segundo ela, defendem a competência do militar ministro da saúde. Ele é “PHD em logística”, defendem eles e elas.

O que eu disse para ela foi que em primeiro lugar ela não estava sozinha nessa dificuldade. Temos que quebrar dogmas e talvez a maior dificuldade seja porque muita gente tem uma percepção errada que os militares (ou os “doutores”) são eficientes em tudo que fazem.

Como sou médico, vejo que muitos colegas se arvoram a capacidade de administrar qualquer coisa, de uma biboca a uma cidade, quando na verdade, a maioria de nós não foi treinado para isso.

Quando a Câmara de Vereadores de Campina Grande, em uma legislatura no passado teve 5 médicos, não houve (pelo que me lembro) nenhuma melhoria dos parâmetros de saúde pública. Muito antes pelo contrário.

Tenho alguma formação militar. Muito pouca, quase nada. Quando terminei o curso de medicina fui convocado a servir o exército.

Como sempre diz o inefável Marco Túlio, não fui convidado, fui convocado.

Na época achei que era o fim do mundo, mas essa convocação terminou sendo benéfica para mim.

Em primeiro lugar, porque tive tempo bastante para estudar e ser aprovado em dois concursos que fiz, em seguida, um para o Ministério da Saúde e outro para a Universidade Federal da Paraíba.

Em segundo lugar por ter, enquanto estava no exército, a oportunidade de conhecer pessoas incríveis como o Dr. Salomão, pediatra e um dos mais completos médicos que já conheci.

Em terceiro lugar por perceber as limitações do saber médico nas forças armadas.

O Dr. Salomão era um oásis, uma exceção nesse deserto do saber médico. A qualidade do serviço médico do exército era muito ruim. Não sei como é atualmente.

Observei que o modo de pensar do militar não combina com o modo de pensar do médico, e isso foi uma das maiores dificuldades que eu tive enquanto lá estive, pois não consegui me adaptar.

Nós somos treinados no método científico.

Este, por definição, se for bom, não aceita dogmas.

Tudo que lemos ou que ouvimos, temos que verificar várias vezes para ver se realmente são capazes de formar uma evidência.

As pessoas que dependem da ciência para viver têm que ser críticas. Temos que ler a maior quantidade possível de artigos, ou assistir a muitas palestras procurando os erros e se descobri-los, temos a obrigação de noticiá-los.

A nossa hierarquia é uma hierarquia de conhecimentos técnicos. Não respeitamos alguém simplesmente porque tem um cargo. Além do cargo, é necessário conhecimento e capacidade de liderança.

É exatamente o contrário do que é preconizado no exército. Em qualquer exército.

Na época que servi, tinha um primeiro tenente que dizia:

– Quando mando um soldado pular, ele só pode perguntar a qual altura quando já estiver no ar. Isso provavelmente é importante em uma guerra. Na paz dos civis só atrapalha.

O outro conceito era o do sigilo. Ninguém podia divulgar nada que pudesse “denegrir” o exército ou “a pátria”. Era no tempo da ditadura. Não sei se hoje ainda é assim.

Pois bem, na época tínhamos uma epidemia de meningite no país e o governo militar proibiu a imprensa de divulgá-la. Por conta disto, morreram milhares de brasileiros.

Só depois de milhares de mortes, os milicos resolveram orientar isolamento e vacinar a galera e a epidemia foi contida.

E ainda tem imbecis que acham que “no tempo do governo militar (eles não falam ditadura) era tudo melhor”. Era “melhor” porque a imprensa não podia publicar nenhuma notícia que não fosse boa para os ditadores.

Por incrível que pareça, pensei em tudo isso quando a minha filha me falou sobre os embates dela com os minions.

Eles acham que a forma que o governo federal está lidando com a pandemia do COVID 19 está correta.

Não são os únicos. Segundo o DataFolha em agosto, 47% dos brasileiros achavam que o capitão não tinha nenhuma culpa nas mortes. Esse percentual, aumentou para 52% em dezembro (disponível em https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/12/14/datafolha-52percent-isentam-bolsonaro-de-culpa-por-mortes-na-pandemia-para-8percent-ele-e-o-principal-culpado.ghtml)

É incrível que mais de metade da população ache que temos que recusar a “vacina chinesa” e esperar pela vacina de Oxford. Outro percentual expressivo acha que não temos que tomar vacina nenhuma pois temos a cloroquina.

Essas pessoas não têm sido até agora, capazes de observar a bagunça que é o ministério da saúde dirigido por um militar.

Em quase todos os países do mundo, o ministro da saúde (na maioria dos casos profissionais da saúde com formação em epidemiologia) reúne os melhores técnicos da área e leva as sugestões para o mandatário que geralmente as segue.

Hoje, dia 29/12/21, as 13:15, o site https://ourworldindata.org/covid-vaccinations mostra que já foram vacinadas 4.670.000 pessoas no mundo e nenhum é brasileiro. Aliás, tem dois brasileiros vacinados, um nos EUA e outro na Inglaterra.

E ainda não estão na conta os da Hungria, do restante da Europa, etc.

Para os que acham que nós somos “Os Tampa”, o México, o Chile e a Costa Rica estão vacinando. A Argentina começa essa semana. E nós estamos contando os mortos.

Aqui o ministro está patinando. Não tem equipe. Tem um pelotão de militares, que seguem ordens. Em uma das poucas vezes que tomou uma decisão, quando resolveu comprar a vacina Coronavac do Instituto Butantan, foi desautorizado publicamente no dia seguinte e disse uma das frases mais vergonhosas da história militar do Brasil: “É simples assim, um manda e o outro obedece” (disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Pr4-k3wiHmg).

Sabe aquela coisa de vergonha alheia? Eu tive. Fiquei nauseado ao ver um homem de meia idade, general, se rebaixar daquela maneira.

Quando vi esse vergonhoso episódio, lembrei-me do Sargento Garcia.

Vou explicar

Nas décadas de 1960 e 70, era exibida na televisão um seriado chamado Zorro. Era ambientado na Califórnia ainda sob domínio espanhol. Nele, o herói Dom Diego de la Vega, que se passava por um almofadinha covarde, se transformava em um herói quando vestia sua roupa do Zorro e combatia o mal. Esse (o mal) era personificado pelo capitão Monastério, indivíduo ardiloso, misógino, grosseiro, autoritário, preconceituoso, incompetente e (principalmente) corrupto. Não sei se ele lhes lembra alguém. Era secundado pelo seu chefe da guarda, o sargento Garcia. Este, era um poltrão balofo, subserviente e incompetente ao extremo. Quando os planos mirabolantes e mal-estruturados do capitão eram seguidos por ele e davam errado (sempre dava), ao ser humilhado e execrado pelo capitão, o sargento Garcia se limitava a dizer: Si mi capitán (Sim meu capitão).

Você pode assistir a um episódio dublado em https://www.youtube.com/watch?v=VfC2cr0E54o

Pois bem, lembrei-me do sargento Garcia ao ver o general ministro dizer: “É simples assim, um manda e o outro obedece”.

Mesmo que o chefe dele fosse um estadista do nível de Barak Obama ou Angela Merkel, seria um desastre apenas “cumprir ordens” pois ninguém sabe tudo.

Parando para lembrar que essa desculpa não colou em Nuremberg.

E quando quem manda é o capitão coronga?

Segundo Elio Gaspari em sua coluna de domingo (20/12/20): “Ganha uma fritada de morcego do mercado chinês de Wuhan quem for capaz de mencionar uma só fala de Jair Bolsonaro que tenha contribuído para o bem-estar da saúde nacional desde o começo da pandemia do coronavírus”.

Ele consegue errar em 100% das vezes. Duvidam? Vamos ver:

Ele diz que o bom é cloroquina, ivermectina e nitoxamida (Annita). Pois bem, nenhum deles, até agora mostrou eficácia em prevenir ou tratar o COVID-19 nos estudos randomizados, controlados, duplo-cegos que são o padrão-ouro para avaliar a eficácia de novas drogas.

Ele é contra isolamento, máscara e vacina. Pois bem, todos 3 funcionam, dizem as pesquisas.

O problema maior é que o capitão coronga, além de ser um psicopata, não aceita seguir orientações técnicas e, como autoritário que é, exige fidelidade canina dos seus ministros.

O próprio ministro da economia diz que a vacina é essencial para a economia se recuperar em 2021 (disponível em https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/12/18/guedes-defende-vacinacao-em-massa-e-diz-que-retomada-sustentada-da-economia-depende-de-retorno-seguro-ao-trabalho.ghtml).

Por que o capitão é contra a vacina?

Eu acho que é a maldade absoluta.

Da mesma forma que o capitão Monastério, o capitão coronga navega entre a maldade e a incompetência.

E o sargento Garcia tem fidelidade canina para com o capitão.

Ele que tenha cuidado. Alegar que estava apenas seguindo ordens, não colou em Nuremberg.

O ministro segue ordens criminosas e isso não o exime da culpa. Ele tem sido capaz de, em um dia, dizer que não vai comprar a vacina da Pfizer porque não temos condições no Brasil de levar essa vacina a 70 graus negativos para todos os brasileiros e, no dia seguinte, por ordem do capitão, dizer que vai comprar 50 milhões de doses.

De mandar para os secretários dos estados 60 milhões de reais para a compra de equipamentos de refrigeração sem ter ainda decidido se vai comprar a que precisa ficar de 2 a 8 graus positivos ou a 70 graus negativos.

Criminosamente, o edital para a compra dos insumos (seringas e agulhas) só foi publicado em 16/12/20 (https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/licitacao-governo-compra-de-seringas/).

Simplesmente, ele, seguindo o tipo de raciocínio do exército, está apenas seguindo as ordens do capitão coronga que pensa (?) de forma errática.

O capitão coronga disse em 19/12 que não entendia o porquê dessa pressa em se vacinar. Disponível em https://br.investing.com/news/economy/bolsonaro-diz-que-pressa-por-vacina-nao-se-justifica-814791

Quase que imediatamente, o Sargento Garcia postou comentários, tipo, “por que essa ansiedade?” Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2020/12/para-que-essa-ansiedade-pergunta-pazuello-o-tranquilao.shtml?origin=folha

Será que quase 200.000 pessoas mortas são motivo suficiente para estarmos ansiosos?

A primeira pessoa a ser vacinada por Jenner em 1796, um menino de 8 anos, foi inoculado com o pus da mão de uma ordenhadora que havia contraído a varíola bovina e o inoculou em um menino saudável. Algumas semanas depois o menino foi exposto a varíola humana e não morreu.

Aqui para nós, eticamente este primeiro experimento deixava muito a desejar.

E as vacinas tiveram muita oposição.

Alguns clérigos ingleses e portugueses afirmavam ser a vacina um invento de Satã para penetrar nos corpos de suas vítimas e apoderar-se de suas almas.

Em 1904 aconteceu no Rio de Janeiro a revolta da vacina. Um dos motivos foi a forma extremamente autoritária com que o governo federal tratou o assunto. Outro fator desencadeante foram as notícias falsas divulgadas pelos anti-vacina.

Houve até, mesmo entre os médicos, aqueles que receavam que as pessoas vacinadas adquirissem feições bovinas. Os chargistas desenhavam vacinados que desenvolviam chifres, rabos e tetas.

O pau quebrou. A revolta foi duramente reprimida, mas o governo voltou atrás. A vacina deixou de ser obrigatória, mas pessoas precisavam do atestado de vacinação para contrato de trabalho, viagem, casamento, alistamento militar, matrícula em escolas públicas e hospedagem em hotéis.

Essas exigências se mantiveram na legislação brasileira. A obrigatoriedade é exercida por meios indiretos. Em um artigo anterior neste espaço defendo a obrigatoriedade como está na legislação e explico o porquê. Não é uma questão individual, é coletiva.

Pois bem. Voltamos mais de 100 anos no tempo!

Em pronunciamento recente o capitão sugeriu que quem fosse vacinado poderia se transformar em um jacaré ou virar gay. (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lBCXkVOEH-8)

Ou seja, voltamos ao início do século passado.

O que temos que fazer para sairmos do atoleiro em que essa galera nos meteu?

As pessoas precisam se convencer que as duas únicas coisas que existem na cabeça do capitão são: como fazer para se reeleger e como proteger seus filhos bandidos.

O resto que se exploda. “Vai morrer gente?”, “E daí?”, “Quer que faça o que?”, “Eu não sou coveiro”.

Por tudo isto, principalmente por conta desses dois, estamos chegando ao final do ano com quase 200.000 mortes e provavelmente teremos ainda muitas outras a lamentar, antes de conseguirmos vacinar a população.

Se esse genocida não for impedido, ainda vamos sofrer muito em 2021.

Falta “apenas” convencer 52% da população brasileira que esse cara é um assassino.

Mas acho importante afirmar que não precisamos de um Dom Diego de la Vega para fazer isso por nós.

Como bem disse Bertolt Brecth, “Miserável país aquele que não tem heróis. Miserável país aquele que precisa de heróis”.

Nós (o povo) precisamos é trabalhar diuturnamente para que aqueles 52% que acreditam que a dupla capitão monastério e sargento Garcia não tem culpa, sejam convencidos do contrário e que nós consigamos defenestrar essa canalha.

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Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

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