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Padre José Assis Pereira. Publicado em 18 de novembro de 2017 às 16:41

POR PADRE ASSIS 

Neste penúltimo domingo do Ano Litúrgico, o Evangelho apresenta-nos mais um texto do “discurso escatológico” de Jesus no Evangelho de São Mateus (Mt 24-25) que lembra  como os cristãos devem esperar e preparar a segunda vinda de Cristo, no fim da história humana.

Em outros tempos, os pregadores inflamados faziam sucesso quando ameaçavam uma multidão com a iminência do fim do mundo e os castigos divinos, profetizados como as grandes catástrofes anunciadas no Apocalipse. Também não faltam hoje pessoas que dão grande importância às notícias que provêm de visões pessoais e difundem uma atmosfera de predições que não são verdadeiras.

Porém, o fato de não crermos nos profetas que se autodefinem como tais, não significa que não tomemos a sério a escatologia cristã, os ensinamentos sobre os últimos acontecimentos a respeito da humanidade e do mundo. Não podemos aceitar que o cristianismo seja só um sistema de opiniões estabelecidas de uma vez para sempre.

A Igreja é a comunidade dos que com fé e com esperança esperam o Reino de Deus que deve consumar-se. O cristianismo tem, portanto, um aspecto escatológico. Vivemos esperando as coisas futuras.

Esta certeza da vinda gloriosa do Cristo Salvador dá aos cristãos uma perspectiva diferente da vida, do seu sentido e da sua finalidade. Para os não cristãos, a vida fecha-se dentro dos limites estreitos deste mundo e, por isso, só interessam os valores deste mundo; para os cristãos, a verdadeira vida, a vida em plenitude, está para além dos horizontes da história e, por isso, é preciso viver de acordo com os valores eternos, os valores de Deus. Assim, na perspectiva dos cristãos, não são os valores efêmeros, os valores deste mundo (dinheiro, poder, sucesso…) que devem constituir a prioridade e que devem dominar a existência, mas sim os valores de Deus.

A “parábola dos talentos” (cf. Mt  25, 14-30) que hoje nos é proposta está muito ligada à parábola precedente, “das dez jovens” (cf. Mt 25,1-13). É uma narração realista, inspirada no que acontece no mundo. Ela pretende desenvolver e aprofundar o sentido da vigilância ou espera dinâmica. Em outras palavras, quer esclarecer o significado do “óleo” que alimenta a chama das lâmpadas. A parábola dos talentos se refere ao tempo que se chama hoje em vista do amanhã. O que fazer enquanto o noivo da parábola anterior ou o patrão da parábola de hoje não chegar? Lembremos que os nossos dias são tempo de espera ativa que provoca a vinda do Senhor.

A parábola dos talentos fala de três servos aos quais o patrão, ao partir para uma longa viagem, confia os seus bens, talentos, distribuídos pelos servos. Dois deles comportam-se bem, porque fazem render o dobro os bens recebidos. O terceiro, ao contrário, por medo, esconde os talentos recebidos num buraco.

Ao regressar, o dono chama os servos para a prestação de contas do que lhes havia confiado e, enquanto se agrada com os dois primeiros, fica desiludido com o terceiro servo. De fato, aquele servo que escondeu o talento sem o valorizar, comportou-se como se o seu dono não voltasse mais, como se não chegasse o dia em que lhe seria pedido a prestação de contas da sua ação.

Os cristãos são como servos aos quais o Mestre Jesus confia a tarefa de fazer frutificar seus dons para o desenvolvimento do seu Reino e que devem prestar-lhe contas da gestão que fizerem. Na parábola como em nossa vida, não há diferença entre aquele que recebe mais e aquele que recebe menos: “cada um recebe de acordo com a sua capacidade” (v. 15).

O importante é que nenhum deles permaneça ocioso, mas que se ponha inteiramente a serviço de Deus, da Igreja ou dos irmãos. O que importa é que o dom se ponha a serviço e que faça crescer o Reino. Cada um consoante com suas próprias capacidades deve desenvolver, dentro da comunidade, um ministério, deve empenhar-se em prol dos irmãos. Nenhum tesouro de Cristo deve permanecer inutilizado.

Dois servos não guardam os talentos para si, com a maior gratuidade, quase sem dar-se conta começam a trabalhar e o dom recebido frutifica para Deus e para o Reino. No entanto, o terceiro servo tem medo e por isso não faz nada. Não perde nada, porém, tampouco ganha nada. Por isso perde até o que tinha: “tirai-lhe o talento que tem e dai-o àquele que tem dez…” (vv. 28-29)

O Reino de Deus é coragem de correr risco, quem não quer arriscar-se, perde o Reino! Os que com medo dobram-se sobre si mesmos envelhecem e entram em decadência. E chegam até a desaparecer… Portanto, o inimigo que se tem que vencer é a preguiça ou a omissão; essa espécie de sono que anestesia as melhores qualidades do coração e nos abate em uma vida triste e estéril.

O inimigo que temos que vencer é também o medo que nos faz esconder o talento para não arriscar um fracasso: “amedrontado, fui enterrar o teu talento no chão” (vv. 24-25).

Temos que combater um dos vícios capitais e dos pecados mais graves contra a esperança: a preguiça, que a teologia interpreta como “tristeza da graça”. É o pecado de que o terceiro servo da parábola é imagem: o aborrecimento e o desgosto do dom recebido; a recusa em deixar-se amar; a incredulidade de quem duvida de que o Senhor lhe dê confiança e o torne companheiro na tarefa de dar forma e rosto ao Reino.

A tarefa, a missão confiada à comunidade cristã e a cada um de nós é viver o êxodo cotidiano do temor servil para o amor filial, “já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15) a crescer no amor. Jesus manifesta a verdade e a fecundidade do dinamismo do amor: “a todo aquele que tem, dar-se-á mais e terá em abundância, mas àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29). Quem ama torna-se cada vez mais capaz de amar; quem é fiel e responsável nas tarefas que lhe foram confiadas, sejam elas grandes ou pequenas, cresce na fidelidade e na liberdade dos filhos de Deus. Tudo isso lhe será dado por Deus, e o discípulos fará a experiência disso no amadurecimento da interioridade pessoal e na eficácia do testemunho.

Nada é mais triste que viver só para si. Nada é mais infeliz nesta vida pondo em risco sua própria salvação eterna que o subjetivismo individualista que nos retrai a nosso próprio mundo e nos faz ver só nossos interesses. Nada é mais triste que tomar o talento que está destinado para dar frutos e enterrá-lo no próprio egoísmo. Ninguém é mais triste e infeliz nesta vida que o egoísta e põe em risco sua salvação eterna: “servo mal e preguiçoso” o chama o senhor.

Resumidamente a lição da parábola é bem simples: Não tenhamos nunca medo dos que nos amam, Jesus e nosso Pai Deus; e não sejamos preguiçosos, invistamos nossa vida no amor, amando a Deus e a nossos irmãos e irmãs.

“Vem participar da minha alegria!” (vv. 21.23) A felicidade e a alegria prometida a quem serve o Senhor na alegria é entrar, finalmente na própria alegria do Senhor, aquela pela qual Ele veio e virá.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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