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Ailton Elisiário: Vírus e Isolamento

Ailton Elisiário. Publicado em 28 de março de 2020 às 17:56

Todos estamos nos protegendo do ataque de um inimigo desconhecido que, repentinamente, chegou perturbando as nossas vidas. E como tem perturbado! Até o seu nome já ocupa todo o espaço nas leituras, áudios e vídeos, porque esses meios não falam de outra coisa. O mundo virou o próprio vírus, que pelo temor submete os seus habitantes.

Assim como eu, para atravessar intacto essa onda, acredito que as outras pessoas têm agido de modo parecido, considerando as características de cada um. Confinados, cada qual se ocupa em preencher o tempo segundo aquilo que mais lhe apetece. Eu, por exemplo, estou devorando livros, gastando tinta escrevendo e montando novos projetos.

Outros estão apenas consumindo notícias, paralisados diante de um aparelho de televisão. Enquanto outros mais estão buscando consertar coisas em suas casas, arrumar escritórios, concluir trabalhos manuais, esquecer as agruras da vida, sonhar com depois de tudo isso, planejar como sair da crise econômica que virá, enfim, estão ocupando a mente com quase nenhuma chance para o físico, angustiados com a situação para a qual não conseguem ajudar para que se venha alcançar rápida solução.

Minha condição é tranquila, apesar de ser a mais vulnerável ante a ação viral. Diferente de tantos que sobrevivem e mantêm suas famílias com o suor do rosto no dia a dia de suas vidas, têm mais forças para responderem adequadamente ao ataque do inimigo invisível, que eu e minha mulher, que estamos mais propensos à sua ação deletéria. Isto faz a grande diferença entre mim e os demais que não integram o grupo do qual faço parte.

Embora isto seja real, algo porém, nos deixa todos igualizados numa necessidade sentimental que fragiliza a cada um. A impossibilidade de externar o amor aos entes queridos que, mesmo distanciados, apesar muitas vezes da pouca distância que os separa, os impede de demonstrar esse amor pelos abraços e beijos que os tornam tão juntos e misturados, até mesmo de os visitar se estiverem enfermos em hospitais ou não.

Não vejo minhas filhas, meus netos, meus irmãos, meus amigos. O “facetime” do celular não é capaz de substituir o prazer do sentir e tocar verdadeiros. É a mesma sensação do leitor que não consegue sentir o cheirar e o tocar do livro estando diante de um “e-book” ou livro eletrônico. É irreal, é ilusório, é fictício, é “fake news”. É altamente desgastante e passível de surto psicológico.

As autoridades se desentendem quanto ao isolamento social. Uns o querem relaxado, outros o querem rigoroso. Se relaxarmos, corremos o risco de infecção mais acentuada. Se formos rigorosos, corremos o risco de enlouquecermos. Em ambas as situações, só temos a perder. Resta-nos, pois, avaliarmos qual a menor perda para que continuemos vivos e sãos.

Penso que a solução sensata e racional é a do meio termo. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A doutrina budista diz que o melhor caminho é o do meio. Assim, entendo que relaxar o isolamento mantendo o rigor nas precauções é trilhar o caminho do meio e, por essa forma, posso sair de casa e ver as pessoas queridas, mesmo que não as toque, não as beije e nem as abrace. Mas, chegando perto delas, meus olhos as verão ao vivo.

Agindo desse modo, decerto não surtarei, não infectarei nem serei contaminado. Manterei meu coração alegre, minha cabeça tranquila, meus entes amados felizes. Driblarei ao mesmo tempo dois vírus, o da epidemia e o do isolamento e, todos seremos salvos.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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