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Ailton Elisiário: O que fazer nesta crise

Ailton Elisiário. Publicado em 20 de maio de 2020 às 11:26

Estou há dias a pensar até quando haveremos de permanecer em nossas casas, sem perspectivas de retomarmos a normalidade de nossos deslocamentos. Entendo que o isolamento social é necessário, senão até a principal arma de defesa contra os ataques do coronavírus. Com ela, se quer dificultar a sua propagação e ganhar tempo para prover os hospitais dos meios necessários de atendimento aos infectados.

Desde o início da pandemia que semanalmente ouvimos que o pico da onda será alcançado, tomando-se medidas cada vez mais rigorosas para que a permanência das pessoas em suas casas seja mantida. E na semana que se segue mais um pico se apresenta e assim sucessivamente. Já não se fala mais em achatamento da curva de controle da propagação do vírus, senão apenas na obrigatoriedade de se ficar em casa.

Enquanto isto, o número de pessoas infectadas segue aumentando e o dos que falecem vítimas do vírus. O Brasil vem a cada instante ganhando terreno nesses números e com perplexidade vemos a tendência de que ganhará a triste competição, tenebroso embate do qual nenhum país quer sair vitorioso. Do sexto lugar que ocupava passou ao terceiro lugar em número de casos confirmados, ultrapassando o Reino Unido, a Espanha e a Itália. Os primeiro e segundo lugares estão ocupados pelos Estados Unidos e Rússia.

O combate ao vírus tem se mostrado assim, inoperante. Concorrem para isto os hospitais de campanha que não são concluídos ou não entram em atividade, os equipamentos de respiração que não chegam ou chegam defeituosos ou imprestáveis, os desvios de recursos financeiros, a indolência nas decisões das autoridades sanitárias ante a ausência de sintonia da hierarquia administrativa, as divergências de posicionamentos entre as esferas de governo que dividem a administração da crise, os desentendimentos na observância de protocolos médicos de aplicação de medicamentos e utilização de métodos e procedimentos, a tudo isto aliando-se ainda tentativas dirigidas às escuras de desestabilização política do governo.

Sob o falso dilema “saúde x economia” não prosperam as ações de combate à questão. Isolamento horizontal e isolamento vertical são as palavras de ordem em tal discussão, enquanto continua temerária a capacidade do sistema de saúde e dos hospitais da rede pública. É impossível que um único país, a China, dê conta da demanda mundial de equipamentos hospitalares de respiração, de máscaras de proteção. É impossível que se livre totalmente a população brasileira e mundial da ação deletéria do vírus. 

Se é verdadeiro que a estabilização viral ocorrerá com cerca de 70% da população infectada, pelo alto grau de imunização coletiva decorrente, não há que se falar em bloqueio de fluxo de deslocamento ou “lockdown”, em face do anglicismo de que se faz uso na língua portuguesa. Se isola a população agora para ter vida, ela morre no futuro. Se libera a população agora para ter vida, ela morre no presente. Em outros termos ou como no ditado popular, o que se tem é que “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. 

O que fazer? À primeira vista o problema parece não ter solução. Porém, a solução existe e está nas mãos das autoridades públicas federal, estaduais e municipais, nos representantes dos três poderes, executivo, legislativo e judiciário. 

Basta que essas autoridades se dignem a pensar na população brasileira e não nos seus interesses políticos individuais e nas suas ideologias como armas sociais de dominação. Medições de forças, índices de popularidade, estratégias de confrontos, vaidades de todos os matizes, enfim, fatores os mais diversos que contribuem para uma guerra declarada ou fria entre esses poderes da República, impedem as ações políticas conjuntas para a salvação da população. 

A imprensa brasileira não para de noticiar que a crise política recrudesce dentro da crise da pandemia. Portanto, se nenhuma culpa possa ser atribuída às autoridades brasileiras pela entrada do vírus no país, a elas pode se tributar a responsabilidade pela não solução do terrível problema, pelo não controle da epidemia, pela insensibilidade com a vida dos brasileiros. Assim, há o que se fazer e se pode fazer, desde que haja  compreensão, solidariedade, compromisso e vontade política desses agentes públicos.

O vislumbre enevoado do futuro, a lentidão nas ações combativas, o desespero que invade a alma, o cansaço que começa a se instalar, a descrença nas autoridades que se manifesta, a impaciência dos confinados, a falta de perspectiva na retomada normal da vida, já devem gritar alto aos olhos e ouvidos dos governantes. Unam-se, pois, em torno da vida, esqueçam suas divergências, mesmo que temporariamente, e se portem como reais e verdadeiros governantes, representantes e julgadores do nosso povo.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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