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Ailton Elisiário: Guayaquil brasileira

Ailton Elisiário. Publicado em 28 de abril de 2020 às 22:30

Manaus é hoje a Guayaquil brasileira. Triste cenário que terrivelmente ocupa a realidade amazonense, com mortos e mais mortos empilhados sem perspectivas de sepultamentos condignos. A vida transmudou-se em algo banal, sem valor e sem cuidados, tamanho o colapso da rede hospitalar privada e do sistema sanitário público.

A expectativa é de crescimento dos óbitos pela Covid-19 que se associam a outros não identificados, mas todos arrolados como provindos da mesma origem. Com ou sem identificação, todos são encaminhados a uma vala comum, agora postos os ataúdes uns sobre os outros por escassez de espaços físicos nos cemitérios, entulhados como lixo. Enquanto isto não acontece, permanecem em câmaras frigoríficas, como alimentos em conservação para deglutição da mãe-terra.

Para fugirem da ameaça da morte que grassa as comunidades com extrema rapidez, aos familiares dos mortos tem sido negada a despedida orante, o mínimo de reverência sentimental que pode se dedicar a quem foi tragado pelo inimigo invisível. Sem velas e sem rezas, sem flores e sem grinaldas, sem velórios e sem sepulcros, todos jogados com desprezo às entranhas da terra. A que ponto chegou a indiferença humana!

As lágrimas dos que permanecem vivos não molham os lugares onde os mortos são enterrados, mas banham copiosamente suas almas por não terem podido se despedir com a demonstração do amor a eles dedicado. O coração despedaça-se, a alma se queda em profunda tristeza, o corpo se contorce em padecimento.

Foi embora aviltado o ente querido, ficou o parente profundamente entristecido. A dor por não poder ter prestado sequer o alento da presença, tanto no tratamento quanto no sepultamento, perdurará cruel por longo tempo. O estigma da morte rondará inexorável o resto de suas vidas.

A morte tem visitado os humanos sem distinção de qualquer característica que possa diferenciá-los. O tratamento dispensado aos por ela visitados tem sido igualmente sem distinção. A morte assim tem nivelado a todos por igual. Um ou outro que ainda se propõe a dispensar tratamento diferente, obriga-se à alternativa do crematório, mas sem as exéquias requeridas.

É extremamente doloroso tudo isto. O medo do contágio, a impotência das pessoas nas ações de socorro, as medidas protetivas determinadas pelas autoridades, o despreparo do sistema de saúde pública e privada, a incapacidade dos governos em suas três esferas de solucionar o problema com celeridade, estão deixando a todos em polvorosa.

O pico da pandemia ainda não foi alcançado. As autoridades não sabem precisar. As pessoas estão perdidas. Não se está mais morrendo de Covid 19, mas também de solidão. Toda dor necessita ser mitigada. Só temos um caminho até então, a misericórdia divina. Através dela haveremos de vencer esta pandemia, antes que ela se transforme num pandemônio.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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