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Ailton Elisiário: Doutor Gouveia

Ailton Elisiário. Publicado em 19 de junho de 2020 às 9:12

Em nossas vidas há pessoas que delas participam de forma diferenciada e que por isso produzem marcas indeléveis. Não me refiro a parentes e amores, que já por natureza exercem envolvimentos profundos. Refiro-me a pessoas amigas ou não que se tornam referências, quer pela amizade que constroem, quer pelo comportamento que demonstram ou pelo exemplo que transmitem. E não há necessidade de existência de um convívio mais acentuado, bastando as alegrias mútuas que afloram nos encontros mesmo casuais.

Embora saibamos que Thanatos não avisa a hora de sua chegada, a surpresa pela notícia da partida da pessoa a quem temos amizade, respeito ou admiração, sempre nos deixa desolados, abrindo-se um vácuo de grande extensão em nossas vidas. Se tivermos convivido com ela, de imediato brotam as lembranças dos bons momentos que fizeram estabelecer a solidez daquela amizade. Alguns incidentes ruins se ocorreram e que tiveram importância apenas para testar a amizade, também se apresentam, mas, sem peso algum.

Ocorreu comigo neste final de tarde de 12 de junho, quando tomei conhecimento da transição de um grande amigo que traído pelo próprio coração cerrou seus olhos repentinamente para esta vida. José Juraci de Albuquerque Gouveia ou Doutor Gouveia, médico pediatra, amante da medicina tradicional que abraçou e que a ela associou com convicção os métodos antroposóficos de tratamento, partidário da igualdade humana pelo espírito solidário que vibrava em sua interioridade, defensor dos princípios do cooperativismo nas relações de trabalho,  deixou a todos e disto tenho certeza, atônitos e desconsolados.

Convivi com Gouveia mais de 50 anos e digo com muito orgulho que, embora não sendo eu médico, me considero fundador da Unimed Campina Grande, que com Gouveia, Milton Medeiros e Firmino Brasileiro, idealizadores dessa cooperativa de trabalho médico, iniciamos tal empreendimento em 1971. Gouveia era professor na Faculdade de Medicina e eu professor na Faculdade de Ciências Econômicas e, a seu convite, assumi a gerência administrativa da instituição, com a incumbência de organizar todo o setor administrativo da cooperativa.

Foram duros os dias iniciais da cooperativa, ocupando sala cedida no Edifício Rique por Milton Medeiros gratuitamente para funcionamento  da sede, conquistando os primeiros médicos cooperados, contratando os primeiros funcionários, consolidando suas simples instalações, tudo sob a administração austera de Gouveia. A Unimed Campina Grande foi a menina dos olhos de Gouveia, a obra social que mais o honrava, pois que dignificava cooperados e usuários e fazia a cidade avançar na prestação dos serviços médico-hospitalares, que passava a ter essa alternativa  ao lado dos serviços únicos previdenciários que existiam.

Todas as minhas filhas foram acompanhadas pela dedicada atenção médica de Gouveia, desde os seus tenros dias até que se tornaram adultas. Não somente a elas, porém a todas as suas pacientes crianças nem sempre pacientes, Gouveia sempre tinha uma maneira agradável de fazê-las tranquilas nos atendimentos e confiantes na sua conversação. Atitudes que também acalmavam os pais em suas ansiedades com as enfermidades de seus filhos.

O amigo Gouveia se foi sem despedidas. Decerto ele pensou que se fosse despedir dos amigos, seria muito mais doloroso. Nenhum deles o permitiria seguir e tentaria segurá-lo, aprisionando como fez Sísifo a misteriosa figura de Thanatos. Este o levou, mas não conseguiu levar sua memória, que passa a ocupar nossas mentes, fazendo-o presente em nossas vidas com a sua natureza cordial, humana, amiga, respeitável, que o distinguia como um verdadeiro ser de elegante envergadura espiritual.

As manifestações de pesar foram inúmeras por todos os meios, não obstante o espaço quase vazio da Capela Pax Domini no Parque da Paz, decorrente do recolhimento das pessoas imposto pela quarentena da pandemia. Contudo, mesmo os ausentes se achavam consternados, com os corações pesarosos pela perda dessa pessoa que, embora fosse enérgica em suas atitudes, determinada em suas decisões e inflexível em suas responsabilidades, era de uma generosidade ímpar, de uma solidariedade intensa e de uma humanidade exemplar. 

Cumpriu o amigo a sua missão com idealismo, responsabilidade, coragem, capacidade, comprometimento, dedicação e amor. Foi um médico humano, que cuidava do corpo e da alma das crianças. Agora dorme o sono dos justos, mergulhado na misericórdia do Criador. Esta é minha singela homenagem ao amigo. Descanse em paz, Doutor Gouveia.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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