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Ailton Elisiário: Banco poético

Ailton Elisiário. Publicado em 6 de fevereiro de 2020 às 11:31

Quando estive visitando o Egito durante o período de Carnaval em 2016, fui a Alexandria conhecer a grandiosa biblioteca moderna, haja vista que a antiga biblioteca foi incendiada por Júlio Cesar, segundo uma das teorias para o seu desaparecimento. A biblioteca atual com cerca de 8 milhões de livros chamou-me muito a atenção por suas instalações, dentre os quais destaco um detalhe: um banco de madeira em formato de livro aberto situado na entrada da sala de leituras.

No banco estão gravadas em inglês poemas, tanto no assento quanto no encosto, que dão ao móvel uma particularidade deveras interessante. Fizemos eu e Socorro algumas fotos nesse banco e hoje resolvi verificar que texto nele se encontra escrito. Para minha surpresa, o assento inicia com o primeiro soneto de William Shakespeare (1564 – 1616): “From fairest creatures we desire increase/ That thereby beauty´s rose might never die”. O encosto começa com o sétimo soneto: “Lo! in the orient when gracious light/ Lifts up his burning head”. 

A surpresa é que imaginei que a gravação no banco seria de algum texto da literatura oriental, já que a biblioteca se acha no Egito, mas não, ali se encontra a literatura ocidental de origem shakespeariana: “Desejamos que as mais belas criaturas se reproduzam, a fim de transmitir a rosa de sua beleza” (Soneto I). “Vê! No oriente, quando a luz graciosa levanta sua cabeça ardente” (Soneto VII). 

Shakespeare escreveu cerca de 154 sonetos em estilo próprio, pois que formados cada um de 14 versos ou linhas distribuídas em 3 quadras e duas linhas denominadas dístico, não estando as estrofes separadas. O soneto tradicional, muito utilizado pela poesia renascentista e lírica, também chamado soneto petrarquiano ou de Francesco Petrarchan (1304 – 1374), é composto de 14 versos ou linhas distribuídas em 1 oitava (2 quartetos) e 1 sexteto (2 tercetos). 

Shakespeare escreveu dramas históricos, tragédias, comédias, e poesias nas quais se percebe quão também era ele um filósofo. No Soneto I Shakespeare fala de homens que são egoístas e que privam a vida de continuidade, estimulando-os a procriarem para não morrerem sós sem deixar nada na Terra. No Soneto VII ele metaforiza a juventude e a velhice no nascer e no pôr do sol, proclamando a que o homem constitua uma família para não chegar ao ocaso sozinho. 

Os 17 primeiros sonetos de Shakespeare são conhecidos como os Sonetos da Procriação, pelas súplicas que fez o poeta às pessoas a se casar e ter filhos, já que a juventude de seu tempo não estava interessada em ter filhos. Porém, parece que Shakespeare os está escrevendo hoje, quando se vê a juventude atual desinteressada para o casamento e para a procriação, envolta com a cultura do prazer e da beleza. 

Bela constatação fiz com esse banco poético. A poesia que não tem fronteiras, a filosofia que transcende espaços, os sentimentos que são comuns na interação do ocidente com o oriente, a vida que une os seres humanos numa mesma caminhada. O homem que anseia e luta por sua identidade. E isto nos remete ao próprio Shakespeare quando na cena 1 do ato 3 de Hamlet ele diz: “To be, or not to be: that is the question” (Ser, ou não ser: eis a questão). Afinal, somos todos humanos, as diferenças são apenas culturais.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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