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Ailton Elisiário: As gripes espanhola e chinesa

Ailton Elisiário. Publicado em 7 de junho de 2020 às 16:38

No início do século passado surgiu uma pandemia que foi denominada de gripe espanhola. Só que de espanhola ela nada tinha, pois o que se sabe é que ela foi oriunda dos Estados Unidos de onde os soldados levaram para o sul da França aonde americanos e ingleses estavam acampados durante a Primeira Guerra Mundial. Agora aparece este coronavírus que origina a pandemia com o nome de Covid-19, que se diz oriunda da China, porque nela surgiu em primeiro lugar, conforme noticiam os jornais do mundo inteiro.

Independente da origem, o fato é que se não houver rígido controle no Brasil a peste do Covid-19 poderá causar resultados semelhantes à peste ou gripe espanhola que aqui chegou nos fins daquela Primeira Guerra Mundial. O escritor Ruy Castro no livro “O Carnaval da Guerra e da Gripe” descreve as cenas resultantes daquela pandemia que são terríveis e horripilantes. Transcrevo algumas partes de sua narrativa.

Diz ele: “Começava por uma aguda dor de cabeça, seguida de calafrios que nenhum cobertor conseguia aplacar. Em seguida vinham as dores em todos os ossos do corpo, a diarreia e a letargia. Devido à oxigenação insuficiente, o rosto ficava roxo ou azulado e os pés, escuros — era a cianose. Sucediam-se sufocações e espasmos de sangue ao tossir — eram os pulmões, cheios de um líquido avermelhado. Em três dias, sobrevinha a morte por parada respiratória. Seus alvos favoritos eram as crianças com menos de cinco anos, os adultos de vinte a quarenta e acima de setenta.”

Relata ainda: “A morte em massa começou a gerar consequências que ninguém podia controlar. Sem leitos suficientes nos hospitais da cidade, os doentes eram amontoados no chão das enfermarias e nos corredores. Muitos morriam antes de ser atendidos. Os hospitais foram fechados às visitas e, nos enterros, só se permitia a presença dos mais próximos. Mas logo deixaria de haver espaço para condolências. Em pouco tempo, os velhos rituais — velório, cortejo e sepultamento — ficaram impraticáveis. As casas funerárias passaram a não dar conta. Viam-se carros transportando caixões com tábuas mal pregadas, indicando que tinham sido feitos às pressas. Então, começou a faltar madeira para os caixões e gente para fabricá-los. As pessoas morriam e seus corpos ficavam nas portas das casas, esperando pelos caminhões e carroças que deveriam levá-los. Os motoristas e carroceiros os recolhiam na calçada e os atiravam nas caçambas como se fossem sacos de areia. Às vezes, descobria-se que alguém dado como morto ainda respirava — era liquidado ali mesmo, a golpes de pá, antes de o veículo sair, mas houve casos de enterrados vivos. Nos necrotérios, os corpos jaziam empilhados por dias sobre as mesas de mármore ou no chão.”

E mais: “As aglomerações foram desestimuladas e, com isso, a vida desapareceu: fábricas, lojas, escolas, teatros, cinemas, concertos, restaurantes, bares, tribunais, clubes, associações, até bordéis, tudo fechou. (…) Os doentes eram tantos que muitas atividades básicas sofreram por não haver quem as desempenhasse: vender comida, transportar produtos, aplicar injeção. Sem as telefonistas para lhes dar linha, os telefones ficaram mudos. E veio a inflação: um ovo passou a custar o preço de uma galinha; um pão, o de uma cesta inteira. (…) A Espanhola não distinguia classes sociais. Levou gente entre os pobres, os remediados e até de famílias importantes, como os Nabuco, os Penido e os Mello Franco. (…) A cafetina Alice Cavalo de Pau, imperatriz dos bordéis da Lapa, idem, se foi. O próprio poeta Olavo Bilac contraiu o mal, de forma benigna, mas isso contribuiu para sua grave condição cardíaca, da qual ele morreria em dezembro.” Acrescento a morte de Rodrigues Alves, presidente eleito do Brasil, vitimado pela gripe espanhola.

Ruy Castro diz também: “De repente, em fins de outubro – 15 mil mortes depois – a Espanhola pareceu amainar. Os infectados se recuperavam, os doentes pararam de morrer. Aos poucos, as portas das casas começaram a se abrir. A cidade voltava à vida. Os caixeiros reapareceram atrás dos balcões. O comércio retomou seu movimento e o dinheiro, inútil diante da morte, recuperou seu antigo valor. Os teatros reabriram e tinham agora filas nas portas. Os navios voltaram a parar no Rio. Das janelas, ouviam-se tímidos sons de pianos. Algumas moças saíram às ruas. Assim como surgira, a gripe fora embora. Não por alguma poção ou magia, mas porque as pessoas haviam ficado imunes.”

E mais: “E, com a Espanhola, foi-se também a Guerra. No dia 11 de novembro, dentro de um vagão-restaurante à margem do rio Oise, afluente do Sena, os aliados e a Alemanha assinaram o Armistício. A notícia chegou até nós pelo cabo submarino. O importante é que o Brasil, modestamente, estava entre os vitoriosos. Não tendo a quem vender café durante o conflito, diversificara seu setor agrícola. E, como não tinha de quem comprar manufaturas, começara a produzi-las aqui mesmo, com o que, em poucos anos, saltou de um país de enxadas e pés descalços para uma incipiente sociedade de máquinas e macacões. Subitamente, fabricávamos turbinas, elevadores, vagões ferroviários, tamancos, vasos sanitários, marmelada em lata, balanças, gravatas e cavaquinhos. Para um país em que, até então, quase tudo vinha da Inglaterra, de Portugal ou da França, aquilo era uma revolução. Chaminés surgiram no horizonte e nasceu um embrião de classe operária, formada, em boa parte, por imigrantes recém-chegados. E, de uma nova massa de funcionários públicos, brotou uma classe média. Poucas semanas antes, estávamos a milímetros da morte. Agora já eram as vésperas de 1919. Quem sobreviveu não perderia por nada aquele Carnaval.”

Se compararmos essa narrativa com a situação da Covid-19 hoje veremos que são muito semelhantes as consequências, inclusive aquelas que dizem respeito à economia. A gripe espanhola contribuiu para que o Brasil saísse de uma  economia primária para uma economia secundária, instalando-se a indústria e redirecionando o país para a exportação. O país não foi à falência, mas o processo de desenvolvimento econômico-social revigorou a economia posteriormente.

Portanto, não há que se temer o futuro da economia brasileira com o Covid-19, pois que ela se adaptará às novas situações e tomará novos rumos. Empresas hoje estão fechando e o desemprego aumentando, porém, novas formas de produção e de prestação de serviços surgirão, que levarão a economia a outro ponto de equilíbrio. A iniciativa privada e a capacidade laborativa humana se encarregarão desse redirecionamento e adequação, mediante a aplicação racional do capital e utilização eficiente da mão-de-obra sob novas formas.

 A discussão sobre o binômio “saúde x economia” deve ganhar forças para a visão do futuro, das perspectivas da economia e das oportunidades que serão criadas para a mão-de-obra, devendo-se abandonar a visão pessimista que se possa criar pela atual redução da atividade econômica geral. Os sinos haverão de dobrar em favor do Brasil.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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