Fechar

Fechar

Advento, tempo de conversão

Padre José Assis Pereira. Publicado em 3 de dezembro de 2016.

padre-jose-assis-pereira

“Nascerá uma haste do tronco de Jessé e, a partir da raiz, surgirá o rebento de uma flor” (Is 11,1). As flores que brotam das árvores em pleno verão, em plena seca, em nosso semiárido nordestino é um verdadeiro milagre que se repete a cada ano.

Troncos aparentemente mortos que se enchem de brotos verdes e flores na paisagem cinza e calcinada, raízes perdidas no fundo da terra seca que assomam reverdecidas e punjantes de flores e frutos. Com essa imagem Deus chama-nos à esperança neste período do Advento.

O profeta Isaías (cf. Is 11,1-10) se dirige às pessoas de seu tempo dizendo, nem tudo está perdido! Desse madeiro carcomido e velho brotará um descendente, desse povo deportado, exilado e dividido surgirá o Messias que salvará a humanidade inteira. E o milagre se realizou. O maior milagre que jamais se pode sonhar.

Do tronco de Jessé, da humanidade caída e morta, brotou o homem mais perfeito de todos, ele que ao mesmo tempo é perfeito Deus, Cristo Jesus nascido dentro da noite escura.

A recordação deste fato crucial para todos, nos reanimará, nos despertará de nosso sono, impulsionará nosso sonho, nos excitará à esperança, a olhar uma vez mais com amor e confiança esse ramo verde, este pau d’arco florido, Cristo nosso Senhor, que brota pujante do tronco de Jessé.

“Naquele dia, a raiz de Jessé, se erguerá como um sinal entre os povos, hão de buscá-la as nações, e gloriosa será a sua morada” (Is 11, 10)Deste modo contempla o profeta no horizonte da história esse broto novo que se elevará como estandarte de salvação.

Todos os povos o buscarão, pois só nele está a liberdade, o amor, a paz, a alegria… Nós também queremos caminhar para ti, mudar nossas rotas perdidas e orientá-las com decisão até onde o Senhor está.

O Advento é esse tempo “conversão”, de mudança de conduta… Temos de entrar neste movimento que a Igreja profeticamente exorta esperançosa. Hoje, neste segundo domingo do Advento o profeta Isaías nos faz sonhar com uma sociedade que parece um paraíso.

Desapareceram todas as inimizades, os que se odiavam, os que se matavam estão um ao lado do outro, um mundo sem guerras, uma sociedade ideal, onde acabou o medo e a morte! Ninguém ameaça ninguém! A harmonia não só é reconstruída em nível dos animais e da natureza, mas também entre Deus e a humanidade; não há ninguém que pratique mais a maldade, o pobre e o fraco deixaram de sofrer injustiças, todos se deixam conduzir por sentimentos de amor e de justiça.

Quando se cumprirá esta profecia? Parece impossível? Sem duvida. Porém, segundo Isaías, é isso que “o descendente de Jessé” irá realizar. A promessa jamais se havia realizado até o nascimento de Jesus. Jesus já veio, já iniciou esse reino e já viveu essa reconciliação radical perdoando os que o mataram.

Mesmo após o nascimento de Cristo esta profecia é para nós hoje uma mensagem de esperança. Como sabemos, os fortes continuam oprimindo os fracos e as guerras, as injustiças, os ódios e a violência estão ainda presentes no mundo, ainda nos comportamos como leões ou serpentes uns em relação aos outros.

O “rebento da família de Davi”, porém, já brotou com a missão de tornar realidade neste mundo a nova terra prometida por Isaías.

“Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo” (cf. Mt 3,1-12). Juntamente com o profeta Isaías todos os anos no Advento, nos é apresentada a figura austera de outro profeta, João Batista, o precursor. A figura neotestamentária do Batista é uma figura questionante e interpelativa, por si só.

Ele aparece no deserto, lugar das privações e tentações, mas também o lugar tradicional da experiência do encontro de Israel com Deus. Ele usa não uma roupa fina, mas uma roupa de pele de camelo e um cinto de couro na cintura e sua alimentação é frugal, em profundo contraste com as iguarias finas dos banquetes.

O profeta João é um homem que – não só com palavras, mas também com a sua própria pessoa – questiona certo jeito de viver, voltado para a exterioridade das coisas, para os bens de consumo, para o “ter”. Convida a uma mudança de valores, a esquecer do supérfluo para dar atenção ao essencial.

As palavras de João Batista, pregando a conversão, seguem tendo hoje valor total para todos nós. Porque nascemos com uma tendência inata ao pecado. O egoísmo e o afã incontido de prazer material fazem de nós um ser total e unicamente preocupado consigo mesmo. A conversão à generosidade para com o próximo e para o bem moral é um processo lento, continuado e imprescindível.

Temos necessidade de reflexão e de esforço moral para vencer as tendências que nos excitam ao mal e para adquirir as virtudes que nos permitem fazer o bem. Até os mais santos viveram continuamente preocupados e atentos à sua conversão pessoal, para estar cada dia, cada momento, um pouco mais perto da virtude e do bem, quer dizer, de Deus. Neste segundo domingo do Advento façamos cada um de nós um propósito sincero de conversão.

A conversão que exige o Batista pede uma mudança total e radical na relação com Deus e com os outros. Não é uma simples conversão interior, mas uma conversão também exterior que chega às obras.  

A conversão é o momento da verdade em que a pessoa se reconhece a si mesmo em seu pecado e se abre à verdade libertadora de Deus. É uma verdadeira revolução de mentalidade, de forma a que os valores fundamentais que marcam a vida sejam os valores do “Reino”.

É preciso, portanto, uma mudança de mentalidade, dos nossos valores, das nossas opções, dos nossos comportamentos, das nossas atitudes, das nossas palavras; é preciso um despojamento de tudo o que rouba espaço ao “Senhor que vem”.

Estou disposto a esta mudança, para que no meu coração e na minha vida haja lugar para Jesus? Então o que prioritariamente, deve ser mudado em minha vida?

Quais devem ser as minhas prioridades? Os meus valores são os valores do “Reino” ou são os valores efêmeros e fúteis a que a sociedade dá tanta importância, mas que não trazem nada de duradouro e de verdadeiro à nossa vida?

*Por Padre José Assis Pereira

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube