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Campina Grande - PB

Adeus Mainha

07/07/2017 às 11:59

Fonte: Da Redação

Por Jurani Clementino (*)

No sertão é comum os netos chamar as avós carinhosamente de mainha. Eu tive a minha. Hoje a perdi. Ela era a mãe de minha mãe. Da última vez que a vi ela estava muito debilitada. Havia perdido quase cem por cento da audição. Quase não abria os olhos. Não me disse uma só palavra. Dormia o tempo todo. Minha tia ainda gritou no ouvido dela avisando que eu estava ali. Abatida, ela dava sinais claros de que aquele seria o nosso último encontro. Era como se tivesse escutado a mensagem de que estava ali, mas não teve forças para responder. De repente, lágrimas inundaram meu rosto em desespero. Contive-as. Procurei me apegar às boas lembranças.

Mainha sempre me recebia com uma frase em tom interrogativo: “Tá bom Jurani!?”. Ao que sempre disse “Sim, estou”. Pouco importava se não estivesse. E quando aparecia pelo sítio e ela ficava sabendo reclamava por não tê-la visitado. “Mas menino Jurani tá aí e não veio me ver”. Contudo, nunca deixei de ir. Sempre fiz questão de ficar alguns minutos ao seu lado. E quando pedia a benção como sinal de despedida ela tomava um susto e dizia: “Mas já vai? Fica mais um pouquinho”. Aquilo doía em mim. Seus últimos anos foram de uma solidão plena. Viúva, há 20 anos, não quis ir pra casa dos filhos. Preferiu a antiga casa que viveu com meu avô.

A tardinha costumava ficar na porta olhando as pessoas que passavam pela estrada. Às vezes convidava um conhecido para sentar a calçada e conversar um pouco. Assim ela não via o tempo passar. Aos 94 anos, os últimos cinco deles vividos numa rede e sob os cuidados dos filhos, especialmente Piedade e Zé Almeida, hoje ela se despede de nós. Deixa-nos um vazio, mas também fica a certeza de que já não valia a pena viver daquele jeito. Foi um sofrimento coletivo que não desejaríamos passar. Tua ausência, mainha, vai ser uma presença constante em nossas vidas. Será sempre triste a nossa alegria sem você.

Hoje refaço o caminho de volta pra me despedir de ti em silencio. Obrigado pelas histórias engraçadas, pelos almoços de semana santa e por aquele feijão com leite que jamais esquecerei. E sempre que provar aquela comida sentirei o gosto agradável de sua bondade. Ficaram nossos olhares, nossos abraços e nossas conversas. Um beijo “mainha”. Descanse em paz.

Campina Grande – sexta-feira 07 de julho de 2017

(*) Jornalista, escritor, professor

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