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Adeus a “besta canela”

Jurani Clementino. Publicado em 19 de julho de 2016 às 11:51

JuraniPor Jurani Clementino*

Os meninos da minha época integraram a última geração de jovens que andavam longas distâncias a pé. Isso mesmo, sem o auxílio de qualquer transporte que se movimentasse sobre rodas ou, até mesmo, sem o apoio de animais como mulas e cavalos. Era tudo na “besta canela” como costumávamos chamar. As gerações anteriores eram especialistas nisso. Varavam caminhos por dentro das roças. Por ali vagavam dia e noite. De tão usados essas veredas se transformavam em grotas.

A regra era simples: para encurtas as distâncias, atalhos. Era o que a gente chamava de “ir por dentro” que, traduzindo ao pé da letra, significava traçar uma reta entre origem e destino. Andava-se em fila como numa romaria. A gente não estudava geometria, mas sabia que a menor distancia entre dois pontos é uma reta. As estradas feitas para carros não obedeciam essas teorias. Elas quase sempre ampliavam as distâncias. Por isso, eram desprezadas pelos transeuntes que preferiam as veredas, ir por dentro do roçado. Quando chovia os caminhos viravam  pequenos riachos por onde escoavam as águas. Até a água das chuvas sabia qual o melhor caminho a percorrer. Mas a correnteza aprofundava mais aquele caminho. Cavava pouco a pouco e dificultava a passagem do caminhante. Mas não apenas isso…

Entre a divisão de um pedaço de terra e outro existiam as cercas. Para ultrapassar essas cercas construíam-se passadiços. Na prática, compreendia em colocar quatro forquilhas de madeiras de cada lado da cerca, atravessada por dois pedaços de paus unindo os ganchos e formando uma espécie de degrau. Subindo os dois degraus alcançava-se o topo da cerca e, ao mesmo tempo, os degraus do lado oposto. Dessa forma realizava-se a travessia. Quando não eram essas engenhocas primitivas que permitiam passar de um lado a outro da cerca havia os colchetes e as cancelas. Esses mais raros porque eram mais modernos e, portanto, mais caros pra se construídos.  O comum mesmo eram os passadiços.

A cerca sempre foi um problema na vida do pobre. Primeiro porque separava e privatização a terra que já não era sua. Depois porque impedia esse ir e vir. Atravessava o caminho. Atravancava sua vida. Mas elas não diminuíram, pelo contrário, muitas cercas foram sendo construídas a medida que os grandes proprietários de terra foram morrendo e a herança sendo repartidas entre os filhos. Choveu cerca no sertão. Já não era possível andar. Uma cerca acavalada na outra. Um obstáculo a cada metro. Os caminhos ficaram inviáveis. Tinha que se buscar outra saída. Ao mesmo tempo em que os caminhos fecharam deu-se inicio a civilização das bicicletas. Todo jovem, em toda casa, tinha uma. As calçadas ficavam lotadas de bicicletas. E, finalmente, as estradas se tornaram úteis.

Só tinha um problema, pedalar exige muito esforço físico. Pra descer era bom (todo santo ajuda), mas ninguém gostava de subir uma ladeira empurrando seu transporte. A bicicleta era boa mas não prestava. Vez por outra furava o pneu e novamente estava o dono a percorrer longos trechos a pé. As vezes levava-se uma garupa e revezava na condução do transporte. Mas não tinha mais como voltar atrás. As rodas tinham seduzido os homens há tempos. Bastava apenas adaptar, aprimorar. E eis que botaram o motor nas duas rodas. Melhorou em cem por cento. Adeus caminhos do roçado. Não havia mais problema entre as distâncias. O que era longe ficou perto. O que era difícil ficou fácil.

O intransponível foi superado. Chegamos à civilização das motocicletas. Usava-se pra ir ao trabalho, pra visitar o parente, pra fazer a feira na cidade, pra ir ao jogo no fim de semana, pra ir a casa da namorada, aos forrós… As motos seduziram a todos. Tinha estilos e modelos pra endinheirados e carentes de dinheiro. Ricos e pobres conseguiam adquirir uma. Em casos mais extremos, ia-se trabalhar fora (São Paulo, por exemplo) e voltava com dinheiro suficiente para comprar uma moto. A moto seduziu especialmente os jovens. Andar a pé ou bicicleta era sinônimo de pobreza. E selar um cavalo pra uma viagem virou sinônimo de atraso. Gerava vergonha. Não garantia status. Jovem “descolado” tinha uma moto.

Ter uma moto ampliava as chances de conseguir uma namorada. Garantia um
Chamego. As meninas gostavam dos que tinham moto. E assim, dia após dia, aquelas estradas foram sendo ocupadas por dezenas, centenas de motos. Ah! ladeadas por cruzes também. Ficou perigoso dividir espaço com outros meios de transporte. Os jovens dessa nova geração acham que com a moto ganharam asas. Eles vivem apressados como se estivessem com a mãe na forca. Se bem que, ao que parece, eles nem ligam muito pra elas. Coitadas das mães. Hoje não existem mais os caminhos por dentro das roças ligando as comunidades rurais. As bicicletas entraram em extinção. Quase ninguém cria cavalos ou mulas. Contudo, toda casa tem duas, três motos. Ah os carros já são comuns por lá. Quase toda casa tem um. Adeus a “besta canela”. Adeus tempos de outrora. Viva o progresso?!!.

Campina Grande 19 de julho de 2016.

(*) Jornalista, Escritor, Professor

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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