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Acadêmica e colunista Mabel Amorim: Hoje é feriado (um conto sem canto)

Mabel Amorim. Publicado em 15 de novembro de 2019 às 16:39

Os olhos se abrem devagar num despertar preguiçoso e morno, sem o barulho insistente e incômodo do alarme do celular. 

O corpo se estica até as juntas estalarem e, logo depois, se encolhe sob o conforto da manta quente. 

Hoje é feriado, daí a desobrigação do horário rígido da chegada ao trabalho. Ela força a vista e vê as horas no relógio digital do aparelho de DVD quase nunca usado e que talvez ainda esteja ali apenas por exercer a secundária função de marcador do tempo. 

Já passa das oito horas. Ela sorri, se sente como se estivesse deliciosamente transgredindo uma regra, a de pular da cama às seis, e se permite fechar os olhos novamente como a buscar algum resquício de sono que justifique ficar mais alguns minutos ali. 

Depois de mudar de posição seis vezes, resolve aceitar o fato de que havia dormido tudo o que podia para aquela manhã. Levanta-se devagar, a pele dos braços arrepiada porque o ar estava gelado devido à janela do quarto que tinha ficado aberta por toda a noite. 

Enrola-se na manta e sai andando até a cozinha para aquecer água para o café. Volta para o quarto e só então vai fechar a janela. Ao olhar para o quintal, vê que o ninho dos bem-te-vis está no chão, parcialmente destruído, provavelmente por causa da forte chuva que caiu durante boa parte da madrugada. 

Dava pra ver dois ovinhos em meio aos galhos finos e ouvir o piar triste do casal de aves empoleirado na corda do varal a olhar para baixo. Que pena, ela lamenta. Vira quando eles estavam construindo o ninho no telhado e chegou a imaginar essa possibilidade, mas não fez nada, afinal, o que podia fazer? 

É a força da natureza, ações e reações que seguem o fluxo da vida. Onde foi mesmo que ela ouviu isso? Não lembra mais, também não tem importância não lembrar. 

Na verdade, andava esquecendo de tanta coisa que, por vezes, chegou a pensar que estava com alguma doença do esquecimento dessas que acometem os mais velhos e que, inadvertidamente, parecia ter chegado a ela precocemente. 

Nada disso, garantiu o médico, o estresse diário era o grande responsável além de uma insuficiência vitamínica que a levou a consumir cinco comprimidos no café da manhã por semanas e a reeducar sua alimentação. Lembrou da água deixada no fogo e correu para a cozinha. A pequena chaleira estava quase seca, boa parte da água havia evaporado. Suspirando, tornou a encher até a metade a vasilha e recolocou-a no fogão. Decidiu sentar-se à mesa e esperar. 

Ainda não tinha ido ao banheiro, lembrou. Levantou-se e foi, decidida a ser rápida. Ao entrar, notou que um pequeno vazamento no cano da torneira que se fixa à pia acabou por molhar todo o lavabo e a água que descia pela parede lateral já formava uma poça no chão. 

Praguejando alto, ela tirou e secou todos os objetos do lavabo, se perguntando se realmente usava tudo aquilo, e secou a superfície do móvel com a própria toalha de banho, não iria mesmo tomar banho agora com aquele frio, e o piso, com o pano de chão. Recolocou todos os objetos de volta e só então fez uso do banheiro como pretendia. 

Ao voltar para a cozinha, deu de cara com a chaleira vazia, ardendo na chama alta do fogão. De novo praguejou, baixo dessa vez, e colocou mais água no fogo. Agora não sentou, se pôs de pé encostada no balcão, olhando, melhor dizendo, vigiando atentamente a vasilha a sua frente. 

Olhou de relance para o relógio do microondas, já passava das nove. Bom, é feriado, pra que a pressa? Sorriu ao perceber que agora a chuva tamborilava forte na janela e que ela poderia voltar pra cama quentinha com sua caneca de café e algumas torradas sem se preocupar com nenhum compromisso. 

Viu que a água fervia, preparou então seu café como sempre gostou, bem amargo e encorpado, com uma pequena colher de açúcar e uma pitada de canela em pó. Colocou numa bandeja a caneca fumegante e um pacote de torradas que sobrara do dia anterior e voltou para o quarto. 

Sentou-se na cama e acomodou a bandeja ao seu lado. Preferiu não ligar a tv, apenas deixou-se ficar ali, bebendo o café quente em pequenos goles, as mãos aquecidas pela caneca, olhando a fumaça que levantava da bebida.

Pensou no casal de bem-te-vis que perdeu seu ninho, em como piavam cheios de desengano. Lembrou dela mesma quando veio morar ali, sozinha, há oito meses, com o coração machucado. 

A perda da mãe, o casamento desfeito, a dor da solidão como companheira das suas noites. Seu ninho também estava devastado. Resistiu aos convites dos amigos para sair, construiu uma rotina que, aos poucos, foi ajudando-a a recuperar a vivacidade e redescobrir o prazer de satisfazer a si mesma, uma viagem interior de autodescobrimento, como se aquela criatura que a olhava de volta no espelho precisasse ser-lhe novamente apresentada. 

E, mesmo com suas manias e medos, descobriu-se uma companhia formidável: lia, conversava e ria consigo mesma, e, às vezes, levava-se para passear com alguns amigos, só para ter assuntos novos para alimentar seus pensamentos. 

Piscou os olhos, viu a caneca vazia em suas mãos e as torradas intocadas na bandeja. Sorriu. Colocou a caneca no criado mudo, empurrou a bandeja pro canto e deitou-se na cama, aninhando-se na manta quente. 

Tudo o que tinha agora era o que precisava naquele momento. O amanhã haveria de chegar com suas cobranças e desafios, mas era no agora que ela confiava e depositava sua força. 

Ela aprendera que o instante seguinte é apenas o suspiro do que se pensa eterno e que nada poderia ser mais forte que sua crença em si mesma. E hoje? É feriado! 

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