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Abrir a Palavra de Deus ao mundo e fazer discipulos

Padre José Assis Pereira. Publicado em 27 de maio de 2017 às 11:05

Por Padre José Assis Pereira

Quarenta dias atrás celebrávamos aquele dia santo em que Cristo saltou da morte para a vida, e com Ele, todos nós. Os discípulos de Jesus nos quarenta dias em que viveram a Páscoa foram instruídos pelo Ressuscitado para que compreendessem tudo que havia acontecido e viveram um período de compreensão.

O grupo tem uma ferida, produzida pela traição e desaparecimento de Judas. Não são mais doze, mas sim “onze”. A ferida recorda que todos foram sacudidos na sua fidelidade a Jesus no seu caminho da paixão. Eles interromperam o seguimento e se distanciaram, até o negaram. Jesus vai curar esta chaga, eles precisam acalmar seu espírito diante desses acontecimentos. Têm que compreender a cruz, aceitar as negações, situar o abandono, têm que superar o medo. Durante quarenta dias o Ressuscitado aparece a seus discípulos para que assumam a fé com maturidade.

O VII Domingo da Páscoa acolhe, desde muito tempo a solenidade litúrgica da Ascensão do Senhor. A Ascensão é a festa da maturidade apostólica que convida a Igreja a ser uma Igreja em saída e a pôr-se a caminho: “Ide anunciar o evangelho a todos”. É hora de começar a pregar, é hora de alargar o Reino fazendo-o vida em nosso caminho. É hora da Igreja em prática.

Contamos nos textos de hoje da Liturgia da Palavra com um principio e um final. Leem-se os primeiros versículos do livro dos Atos dos Apóstolos (cf. At 1,1-11) e os últimos do Evangelho de Mateus (cf. Mt 28,16-20). Nos Atos São Lucas narra de maneira muito plástica a subida de Jesus aos céus e no evangelho São Mateus não se refere à ascensão de Jesus, que para ele é um mistério de glorificação de algum modo já incluído na ressurreição.

São Mateus é o único evangelista que não fala das aparições do Ressuscitado em Jerusalém, exceto às mulheres (cf. Mt 28, 1-10), no final do seu evangelho registra um único encontro dos discípulos com o Ressuscitado, onde ele enlaça de maneira impressionante passado, presente e futuro, posição de Jesus, relação pessoal dos discípulos com Ele e mandato recebido dele, tudo aparece no texto, unido e entrelaçado, oferecendo o fundamento estável e a característica permanente do discipulado de todos os tempos.

“Os onze discípulos caminharam para a Galileia” (v. 16). Sim, é na Galileia, distante de Jerusalém e do seu templo, uma região cuja situação geográfica fazia dela o ponto de encontro de diversas culturas e povos diferentes, com uma significativa população pagã, chamada “Galileia dos gentios” (Mt 4,15) onde o movimento de Jesus vai começar.

Os discípulos vão à Galileia que foi destinada por Deus como campo da atividade de Jesus (cf. 4,12-16). Ele quis viver ali, inserido naquela realidade periférica. Percorreu os seus caminhos ao encontro das pessoas para anunciar-lhes o evangelho; foi ali onde os primeiros discípulos foram chamados (cf. Mt 4,18-22) e é neste cenário que o Ressuscitado se revela a seus discípulos como o que possui toda autoridade, um poder que se estende sobre tudo, sem limites, no céu e sobre a terra.

Aquele que os havia chamado, a quem eles haviam seguido, cujo ensinamento haviam escutado, cujas obras haviam visto, aquele que havia morrido na cruz e está vivo diante deles, é o Senhor absoluto, dominador do céu e da terra e quer reuni-los de novo.

É preciso regressar à Galileia que se torna assim, um novo ponto de partida. A fronteira com os povos pagãos significa que agora, o anúncio e a prática de Jesus vão ser propostos a todo o resto da humanidade. Onde tudo começou Mateus apresenta o Ressuscitado que outorga aos discípulos um poder comunicador de salvação e de graça e entrega um programa de vida e uma missão: “Ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (vv. 18-20).

Abrir a Palavra de Deus ao mundo, e abrir o mundo à comunhão com Deus. É o momento dos discípulos levarem o Evangelho onde Jesus não pode ir: “todas as nações”. Sem distinção, todos os povos são destinatários da missão cristã. A finalidade é torná-los “discípulos”, manifestando assim o caráter universal da pregação do Reino, a salvação de Deus com a humanidade não terá limites.

O Batismo será o sacramento de “iniciação” dos que querem levar uma vida nova neste mundo. Os discípulos de Jesus, provenientes de todas as nações, entram a fazer parte do único Povo de Deus mediante a imersão batismal. Graças à fé no Filho, eles aderem à comunhão com o Pai e com o Espírito Santo, prometido, e assumem o encargo de por em prática a vontade de Deus como o Mestre a deu a conhecer com o seu estilo de vida e com o seu ensinamento.

A mensagem da Ascensão do Senhor tem um valor existencial excepcional. Celebrando-a, percebemos que um dos sentidos desta festa é nos sentirmos chamados a ir às “galileias” de hoje, a esse lugar de onde podemos ver as coisas com outra perspectiva, ver as situações, a história, a realidade a partir da sua perspectiva. A partir daí pode ser que percebamos que as aspirações que temos e nas quais investimos tanto tempo e energia não pagam a pena.

Jesus quer nos introduzir hoje nessa dimensão de onde podemos ver e julgar o sentido profundo do que comunicamos, fazemos, vivemos e somos. Aproveitemos para ver a nossa vida com outra ótica, ver com mais clareza.

Outra mensagem desta festa é também uma mensagem ativa e comprometedora para nós cristãos batizados: “fazei discípulos.” (v.19) Depois da ascensão começa, portanto, o tempo da Igreja, tempo compreendido entre dois eventos: a subida de Cristo ao Céu e seu retorno no fim dos tempos. Jesus sobe e os Apóstolos partem para pregar em todo o mundo. A Igreja nasceu e inicia seu caminho na história.

A Ascensão do Senhor nos recorda a urgência de transmitir a fé que professamos e vivemos. Não é fácil a tarefa que nos confia o Senhor. Porque sopra ventos contrários a tudo aquilo que está relacionado com o Espírito. Em um mundo em que predomina o superficial, o imediato, a falta de referências, resulta complicado o anúncio do Evangelho e muito mais fazer discípulos.

Não é fácil a missão que nos atribui o Senhor. Mas não é uma missão solitária, é uma missão onde Ele mantém sua promessa, “estou convosco até o fim do mundo”. Jesus nos promete que não nos deixará sós.

A última palavra do Ressuscitado é essa promessa que resume a esperança do Povo de Deus. Os cristãos, discípulos e discípulas de Jesus, a sua Igreja, pode contar com esta promessa. Ele estará com todos os que se comprometeram a levar a alegria do Evangelho e o seu projeto de Amor a todas as nações, acompanhando-os, ajudando-os a superar as crises e dificuldades da caminhada.

Não tem abandono por parte de Deus. Batizar no nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo é a atualização dessa presença eterna e plena de Jesus no cumprimento de sua promessa.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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