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Coluna de Padre Assis: A visita de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 23 de dezembro de 2018 às 7:37

No caminho do Advento, a Virgem Maria ocupa um lugar especial, como aquela que de maneira singular esperou a realização das promessas de Deus, acolhendo na fé e na carne Jesus, o Filho de Deus, em plena obediência à vontade divina.

Ninguém como Maria sabe o que significa esperar o impossível, crer na promessa e esperar a chegada do Salvador. O Advento chega ao seu final na realidade maternal da Virgem Maria. Acima dos profetas Isaías e João Batista, e de José, é Maria a personagem fundamental do Advento. Ela é quem esperou como ninguém soube esperar a vinda do Messias, pois o levou em seu seio. Ela marca, na história da salvação, a passagem da profecia messiânica à realidade evangélica, da esperança à presença real do Verbo encarnado.

Por tudo isto, o quarto Domingo do Advento é essencialmente mariano. Só das mãos maternais da Virgem Maria podemos chegar ao conhecimento exato do mistério de Cristo, pois através dela, Deus determinou oferecer-nos a realidade exata do Emanuel, o Deus conosco.

Às vésperas do Natal, a Sagrada Escritura faz-nos saborear a visita de Deus. Os textos deste Domingo são muito significativos. A profecia de Miqueias (cf. Mq 5,1-4) sobre Belém, a cidade de Jessé, pai de Davi; de onde sairá o futuro rebento da dinastia eleita, é muito bonita e já centra o lugar do nascimento do Salvador.

O profeta anuncia a aproximação dos tempos messiânicos, nos quais “a mãe dará a luz”, da mulher bendita, surgirá o Redentor. A futura ação desse Messias é também descrita: tomará cuidado do povo, agirá em plena sintonia com a vontade de Deus, garantirá um tempo de segurança e paz.

No Salmo 79 pedimos que se faça realidade a chegada da salvação: “Oh! Senhor, restaura-nos, que brilhe teu rosto e nos salve”. É que faltam poucos dias para o grande acontecimento do Natal e devemos estar preparados para esta visita do Senhor. “Visitai a vossa vinha e protegei-a!”

O Evangelho (cf. Lc 1,39-45) relata que Maria “partiu para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade da Judeia” (v. 39). Incorporada numa caravana, os viajantes só viram uma menina, confundida entre as pessoas e os camelos que solitária fazia seu caminho, impulsionada pelo amor e a alegria. O Redentor já está conosco! Só ela o sabe. O esperado por milhares de anos acaba de chegar, a espera acabou. Maria se põe a caminho para comunicar isso e vai ao encontro de quem sabe que necessita de ajuda.

Neste Natal, abramos nossos olhos como Maria para olhar ao nosso redor, mas não de qualquer forma, e sim com consciência. Olhemos nossa própria realidade e a dos outros para nos deixarmos transformar por ela e atuar em consequência. O Papa Francisco tem chamado a atenção para a triste realidade dos “descartados dentre mundo”.

Nós devemos saber que um cristão não pode celebrar dignamente o Natal cristão se não o faz com um coração misericordioso. Agora, neste Natal, nos chegam continuamente notícias da Europa sobre o problema dos refugiados, pessoas que vêm do oriente, fugindo da miséria, ou da morte, por causa de sua religião ou por perseguição política. Será que os cristão da Europa estarão dispostos a ajudar os refugiados e solucionar o problema, estando dispostos a sacrificar, algo seu para ajudá-los. E o que dizemos dos refugiados na Europa, dizemos aqui, entre nós, dos pobres em geral.

Como nos diz santo Agustinho: “cada um de nós examine sua própria vida e veja se o que faz brota do manancial do amor. Porque de nenhum modo se vence melhor o inimigo que sendo misericordioso”. Muitas pessoas não têm meios para viver dignamente. Sejamos solidários e pratiquemos a justiça para erradicarmos a pobreza no mundo.

Maria, mulher solicita e servidora, se põe a caminho para visitar Isabel que está a ponto de dar a luz. Quer saber como se encontra e em que pode servi-la. Lucas relata de forma simples e comovente a beleza desta visita e do encontro de duas mulheres grávidas, duas mães.

Isabel e Maria não podiam estar grávidas uma é demasiadamente idosa, outra é virgem. A Bíblia conta casos semelhantes ao de Isabel: Sara, Rebeca e Ana. Se uma mulher estéril engravidou, isso é um sinal de que Deus quer chamar a atenção para a missão importante da criança que vai nascer.

Mas, o sinal de Maria vem com uma força muito maior: a mulher em questão não é estéril, é virgem. As duas mulheres celebram as maravilhas que Deus realiza em favor do seu povo. Izabel que reconhece o mistério que Maria carrega em seu ventre, sente-se indigna de recebê-la: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” (v. 43)

Visitar é um tema muito caro a Lucas. Está no cântico de Zacarias (Lc 1,68.78) e é assim que o povo reconhece o milagre de Jesus em Naim: “Deus visitou o seu povo” (Lc 7,16). Jesus chora sobre a cidade de Jerusalém que não o acolheu quando foi “visitada”(Lc 19,41-44). Mesmo sem usar o verbo “visitar”, Lucas fala de Jesus “entrando na casa” de pessoas como o fariseu (Lc 7,36) e na casa de Zaqueu (Lc 19, 5) e de tantas outras pessoas.

O grande milagre, repetido anualmente no Natal, é que esse Menino-Deus vem nos visitar, chega aos nossos corações, e nos prepara para sermos melhores, para estar mais perto do outro, nosso irmão.

Este último domingo deste Advento deve servir para nós não pormos barreiras entre os desígnios amorosos de Deus e nossas capacidades para fazer o bem a todos. Entremos agora em estado de vigília esperando a visita de Jesus e vigilantes na oração estejamos preparados para que quando Jesus voltar pela segunda vez todos seus seguidores estejamos unidos na caridade.

Hoje o Senhor visita sua Igreja através de Maria. É Maria grávida do Senhor já presente, mas ainda velado. Como fruto de seu ventre. O Senhor está próximo, o Senhor já está presente no meio de nós, e isto faz a sua Igreja dançar de alegria e exultação, experimentar a alegria porque nos sabemos amados por Deus, é o melhor sinal para viver e celebrar o Natal.

É lindo o modo como Lucas consegue levantar o véu do mistério da encarnação do Filho de Deus no encontro entre uma jovem e uma anciã, Maria e Isabel ambas privilegiadas por Deus na história da salvação. A maternidade e a fé se unem, em perfeita simbiose, no ser inteiro de Maria.

Com toda razão, este Domingo propõe como chave de vivencias a fé; fé na encarnação, em que Deus sempre está ao nosso lado, em que deve existir um mundo melhor que este. E essa fé se nos propõe em Maria de Nazaré, para que advirtamos que o ser humano que quer ser como um deus se perderá; mas quem aceita ao Deus verdadeiro, viverá com Ele para sempre.

Precisamos todos do mesmo Espírito, que iluminou Isabel a perceber a ação de Deus em Maria. Ele também nos ajude a captar os apelos de Deus na nossa realidade e a ler os sinais dos tempos. Onde será que Ele está? Cada nova vida não será um sinal da sua esperança? Dizer sim ao dom da maternidade não é um sinal de sua presença no mundo?

Neste dia que precede o Natal peçamos a Maria, a “Mestra da esperança” a graça de saber permanecer, cheios de fé, à espera do seu Filho Jesus Cristo. “Ela precede com a sua luz o Povo de Deus peregrinante, como sinal de esperança certa e de consolo, até que chegue o dia do Senhor”. (Lumen Gentium, 68)

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* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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