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A tirania dos juros e da inadimplência

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 26 de março de 2018 às 8:24

O Brasil é, sem dúvida, uma terra de contrastes. Enquanto os lucros dos bancos não param de crescer, com certeza pela persistência das elevadas taxas de juros, a inadimplência na economia aumenta.

A inadimplência das operações de crédito do sistema financeiro, para atrasos superiores a noventa dias, subiu em janeiro, e também no crédito a pessoas físicas e no crédito a pessoas jurídicas. Os inadimplentes são hoje mais de 61 milhões de pessoas. Também subiu a taxa média de juros das operações de crédito tanto para pessoas físicas quanto para as jurídicas.

E como estão os Bancos nesse cenário desolador?

Um indicador consagrado para avaliar a performance dos bancos é a sua rentabilidade que significa a porcentagem do lucro anual sobre o patrimônio.

Segundo dados internacionais, a rentabilidade anual de dezesseis bancos americanos de uma lista selecionada, se situa, entre 2,24% e 9,71% com média de 7,93%. No Brasil tivemos em 2016, uma média de 10,97%. Os quatro melhores resultados foram para Itaú com 18,26%, Bradesco 15,97% – os dois são campeões mundiais; Banco do Brasil 11,51% e Santander 9,67%.

Os lucros desses quatro bancos em 2017 foram, pela ordem: Itaú R$ 24 bilhões; Bradesco R$ 14,65 bilhões; Banco do Brasil R$ 11 bilhões e Santander R$ 8 bilhões.

Na outra face da moeda, analisemos a questão das taxas de juros cobradas no Brasil, que explicam, em parte, lucros tão altos de nossos Bancos. E isso num país com inflação de 2,95% em 2017 e taxa básica de juros (SELIC), hoje, de 6,5%.

Para ilustrar, tomemos apenas um item para servir de exemplo; o rotativo do Cartão de Crédito, em levantamento realizado pela Proteste – Associação de Consumidores, comparando o Brasil a Colômbia, Venezuela, México, Peru, Argentina e Chile, Estados Unidos e Portugal.

E agora uma conta rápida. Suponhamos que o consumidor utilize o cartão com rotativo de 830% ao ano – sim, segundo o Banco Central, isso existe – com uma fatura mensal cujo valor é de R$ 1 mil e paga somente o valor mínimo (que é de 15% do valor total da fatura), no mês seguinte a dívida passará a ser de R$ 1.020. O cliente deu para o cartão R$150 a sua dívida estará ainda maior do que antes.

Devido aos altos valores, as taxas cobradas nas modalidades do crédito rotativo são uma das maiores causas do crescente endividamento dos brasileiros. De acordo com dados fornecidos pela PEIC (Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), o cartão de crédito foi apontado como um dos principais tipos de dívida por 76,9% das famílias endividadas no País.

Para finalizar, vejamos a pesquisa realizada pela CNDL e SPC Brasil sobre a questão da inadimplência: 38% dos inadimplentes possuem contas em atraso de compras parceladas ; 82% afirmam que essas contas estão há mais de 90 dias atrasadas; 27% dos inadimplentes possuem apenas um cartão de crédito, 16% possuem 2 cartões e 5% possuem 3 cartões de crédito; 85% dos inadimplentes desconhecem a taxa de juros mensal quando não é feito o pagamento do valor total da fatura; 22% dos inadimplentes pretendem voltar realizar compras parceladas nos próximos seis meses.

Falta educação financeira básica à nossa população. O que é que as autoridades estão fazendo nesse sentido? Existe alguma experiência de escolas que ministrem esses conhecimentos? Estou pesquisando se em Campina Grande existe alguma unidade de ensino tratando do assunto, se é que merece atenção.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

falecom@fhc.com.br

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