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A sala de insulina do Hospital Universitário

Alberto Ramos. Publicado em 12 de março de 2017 às 11:11

Por Alberto Ramos

Desde que chegamos ao Hospital Universitário, há mais de 20 anos, eu e a Dra. Aline implantamos um sistema inteligente de dispensação de insulinas.

Inteligente porque ao invés de receitas mensais (ou trimestrais), usamos um cartão onde anotamos a dose de insulina lenta e rápida. A assinatura do médico deve ser renovada no máximo a cada 6 meses. O cartão dura muitos anos.

Inteligente porque a entrega das insulinas (pela farmacêutica e pela auxiliar de enfermagem) é capaz de fornecer a quantidade de insulinas de acordo com as doses, a distância de Campina Grande para onde o paciente mora, e a data da próxima consulta com o endocrinologista.

Inteligente porque não é apenas um processo burocrático de entrega de medicação. As duas funcionárias são capacitadas para treinar os pacientes e seus familiares na correta aplicação da insulina no que se refere à técnica de aplicação e às doses.

Inteligente porque, por conta do controle realizado pelas funcionárias, nunca (repito, NUNCA) mais faltou insulinas NPH e Regular no HUAC.

Pois bem, toda essa inteligência, que conta com a aprovação de 100% da equipe de saúde e dos pacientes e seus familiares, está prestes a ser jogada no lixo porque a atual direção do HUAC, ao que parece orientada pela EBSERH, resolveu fechar a sala da insulina (como é conhecida) com o intuito de “reduzir custos”.

Centenas de pacientes diabéticos, talvez metade deles do tipo 1, ficarão na dependência das secretarias de saúde de suas cidades ou de farmácias populares que não contam com pessoal qualificado para o treinamento dos pacientes. Por conta da incapacidade logística da maioria dessas instituições, vão ser frequentes os erros na entrega de insulina e burocratização pouco inteligente, tornando ainda mais difícil a vida de quem já sofre com uma doença cara e ainda incurável.

Sabemos que na imensa maioria das vezes, a tal da “redução de custos” na saúde, principalmente nos pacientes diabéticos, ocasiona maiores gastos com as complicações. Como exemplo cito os gastos decorrentes da amputação de membros inferiores em pacientes com diabetes, que poderia ser bastante reduzida se as secretarias de saúde investissem uma quantia 100 vezes menor em programas de treinamento para médicos, enfermeiras e outros profissionais das equipes dos PSFs e em equipamentos para prevenção das amputações.

Alguém poderia perguntar pelo custo destes equipamentos.

Um objeto simples como o monofilamento de Semmes-Weinsten (R$ 29,90) que identifica os pacientes com maior risco de sofrer amputações, reduziria as mesmas em cerca de 80%!

Metade das equipes de Campina Grande não tem o monofilamento. Nas cidades ao redor de Campina Grande que visitei nos últimos 4 anos, nenhuma (NENHUMA) tem o monofilamento.

Esta é apenas uma, de dezenas de situações, onde a cegueira (ou burrice) administrativa da maioria dos gestores de saúde de nossa região ocasionam custos elevadíssimos à saúde.

Se o prejuízo fosse apenas financeiro já seria grave.

No entanto, muito pior é o sofrimento humano decorrente da incompetência desses gestores (vide artigo meu intitulado “Pedaço de mim”, neste espaço).

Pois bem, senhores diretores do HUAC. Vocês estão próximos de cometer uma asneira tanto no que se refere a custos financeiros quanto a custos na qualidade de vida das pessoas.

Sem treinamento adequado, mais pessoas com diabetes vão se internar por conta de comas hiper e hipoglicêmicos (cada internação custa em torno de R$ 10.000,00).

Sem treinamento adequado, a via crucis das pessoas com diabetes e seus familiares vai ser ainda mais sofrida.

Cabe aos profissionais de saúde e as pessoas com diabetes e seus familiares protestarem contra este ato totalmente equivocado.

Cabe às nossas sociedades médicas interpelarem tecnicamente esse ato.

Contamos com a Associação Médica de Campina Grande que nestes 75 anos de vida tem sempre lutado pela boa prática médica de nossa cidade.

Contamos também (e principalmente) com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Paraíba para demonstrar aos diretores do HUAC que a ânsia de servir aos desígnios financeiros da EBSERH vai acarretar maiores custos financeiros e sofrimento para os diabéticos da região.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Alberto Ramos

Médico endocrinologista, professor do curso de medicina da UFCG, preceptor da pós-graduação do HUAC/UFCG e chefe da Unidade de Endocrinologia e Diabetes Professor Bezerra de Carvalho do HUAC.

falecom@fhc.com.br

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