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Campina Grande - PB

A Revolução de 1817

Desarticulado esquema de fraudes em licitações na PB - image data on https://paraibaonline.com.br11/04/2017 às 22:55

Fonte: Da Redação

Os ideais iluministas trazidas pela Revolução Francesa de 1789 vieram a ser disseminadas no Brasil através dos filhos de senhores de engenho que estudavam na Europa. No Nordeste brasileiro a Coroa Portuguesa tentava impedir de forma rigorosa que aqueles ideais não proliferassem, sem alcançar êxito diante da criação em 1796 do Areópago de Itambé e do Seminário de Olinda em 1800.

O Areópago, tido como a primeira loja maçônica do Brasil, fundado pelo maçom paraibano e ex-frade Manuel Arruda Câmara, que estudou em universidades de Portugal e da França, congregava muitos padres pernambucanos que estavam incluídos no rol dos intelectuais que voltavam da Europa, influenciados pelas ideias iluministas. Os padres  professavam uma “Teologia da Ilustração” que, segundo o Professor Antônio Jorge de Siqueira, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), era  “um pensar teológico com base numa sistematização filosófica, ambas balizadas e inspiradas nos ventos e valores do iluminismo europeu”. Por isto  e pela grande participação de clérigos –  pelo menos 70 padres participaram do levante -, que o historiador Manuel de Oliveira Lima diz que a Revolução Pernambucana de 1817 poderia ser conhecida como A Revolução dos Padres.

Com isso, o Seminário de Olinda viria a ser um dos principais pontos onde os padres ensinavam o que eles discutiam no Areópago de Itambé. E um dos principais pontos discutidos no Areópago era a de um movimento com o intuito de separar Pernambuco da jurisdição da Coroa Portuguesa e criar uma República. O primeiro resultado desse movimento veio com a “Conspiração dos Suassunas”, no ano de 1801. Embora essa insurreição tenha sido sufocada, os mesmos integrantes que formavam as sociedades maçônicas e os padres envolvidos voltariam com os mesmos ideais em 1817.  Em 6 de março daquele ano eclodiu o movimento liderado pelo maçom Domingo José Martins, cujo nome foi inserido no Livro dos Heróis da Pátria, pela Lei n° 12. 488/2011.

Nos anos de 1815 e 1816 Pernambuco e Paraíba haviam sofrido com a seca que tinha produzido uma crise na produção de cana-de-açúcar e algodão. A mão de obra escrava estava  ficando muito cara e os senhores de engenho não tinham alternativa se não vendê-la para os plantadores de café nas províncias do sul. Havia insatisfação dos pernambucanos, notadamente dos senhores de engenho, membros do clero, militares e comerciantes, com o comando do comércio e dos cargos administrativos ocupados por portugueses. Com isso, a conspiração se instalou, tendo os revolucionários efetuado a prisão do governador e proclamado um governo republicano, instituindo um governo provisório formado pelo comerciante Domingos José Martins, padre João Ribeiro Pessoa de Mello Montenegro, capitão Domingos Theotônio Jorge Martins Pessoa, advogado José Luiz de Mendonça e coronel Manoel Correia de Araujo.

A Revolução estendeu-se às províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Na Paraíba, Amaro Gomes Coutinho, Estevão Carneiro da Cunha e José Peregrino de Carvalho, deram início ao movimento no dia 13 de março, tomando o Palácio da Redenção e a Fortaleza de Santa Catarina. Segundo o historiador Josemir Camilo, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Campina Grande poderia ter sido a capital da nova república, pois que o padre João Ribeiro Pessoa, em carta histórica datada de 30 de março de 1817, por ele dirigida aos membros do Diretório Republicano da Paraíba, na pessoa do vigário do Pilar, o padre Antônio Pereira e o revolucionário Ignacio Leopoldo, escrevia: “segundo penso o nosso governo (…) me confirma na opinião, de que Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará devem formar uma só República, devendo edificar uma cidade central, para capital (…); estas Províncias estão tão compenetradas e ligadas em identidade e de interesses, e relações que não se podem separar; e para que não penseis, que digo isto afim de engrandecer Pernambuco, sujeitando-lhe as outras províncias, proponho, como condição essencial, o levantamento de uma cidade central, que pelo menos diste 30 a 40 léguas da costa do mar, para residência do Congresso e do Governo; um obstáculo acho eu, que é em semelhante distância e proporção um local fértil, sadio e abundante de boas águas para semelhante fundação; e cumpria, que esta capital fosse na Paraíba”. Por tal carta, é de se admitir realmente a possibilidade de que os  revolucionários possam ter pensado em Campina Grande como a capital da nova república.

A República instaurada em Pernambuco durou apenas 74 dias. As tropas navais portuguesas bloquearam o porto de Recife e cercaram todo o seu litoral. Os soldados do rei fizeram uma incursão militar pelo sertão afora para combater os revoltosos que ainda tentavam se defender do ataque. Na Paraíba, a capital e algumas cidades do interior resistiram, mas sucumbiram. No dia 20 de Maio, o Governo Provisório se rendeu. Vários de seus líderes foram arcabuzados, como Domingos Martins e alguns foram presos, contudo, anos depois D. João VI os anistiou. O padre João Ribeiro suicidou-se. Exumado teve sua cabeça e mãos cortadas, como aconteceu a tantos outros.

Se a Revolução de 1817 é também chamada de Revolução dos Padres, eu diria que ela poderia ser conhecida por Revolução dos Maçons e Padres, porque ela foi produto da união de maçons e padres, os primeiros sob o comando do maçom Domingos Martins, os segundos sob o do padre João Ribeiro. Com o propósito libertário, em Recife, Antonio Gonçalves da Cruz, o Cabugá,  fundara a loja maçônica “Pernambuco do Oriente” e Domingos Martins fundara a loja maçônica “Pernambuco do Ocidente”. Na divisa com a Paraíba funcionava o “Areópago de Itambé” fundado pelo maçom e ex-frade Arruda Câmara. No Seminário de Olinda o corpo eclesiástico empenhava-se em formar sacerdotes ilustrados, isto é, que fossem úteis à Igreja e ao Estado, tolerantes com outras religiões e partidários da razão em detrimento da superstição. Unidos pelo mesmo ideal maçons e padres lutaram pela república sob os mesmos princípios liberais.

Por Ailton Elisiário

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