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Campina Grande - PB

A primeira greve em Campina

29/04/2017 às 7:52

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo (*)

Em 1986, publiquei em A União o artigo “A primeira greve ferroviária em Campina” de que, aqui, faço um resumo.

Muito pouco se tem pesquisado sobre as atividade proletárias em Campina Grande, de forma que não se sabe ao certo quando ocorreu qualquer manifestação e greve nesta cidade, daí tomo a audácia de dizer que a greve de 1909, da Great Western, paralisando todas as suas linhas, foi o primeiro encontro da sociedade local com esta arma operária mui poucamente usada em toda sua história local.

Dependendo da conotação que se faça, Quebra-Quilos teria, também, um sentido grevista, quanto a protesto de uma categoria que, ignorando quaisquer rudimentos de táticas políticas, aquelas massas explodiram num movimento espontâneo, não direcionado e de caráter destruidor das leis que as dominavam. A greve de 1909 não teve um caráter local e, até, foi vista dentro de um caráter pseudo-nacionalista. Trabalhadores e apoiadores vociferavam contra o capital inglês.

Isto explica, por exemplo, o apoio dado pela imprensa local aos grevistas. Provavelmente este apoio não existiria se se tratasse de uma greve contra as oligarquias locais. Isto, então, descaracteriza a greve como sendo campinense, mas ao mesmo tempo inseriu o trabalhador local na órbita do capital internacional.

Noutro artigo, para uma revista de circulação interna da Universidade, mostrei que a primeira greve ferroviária ocorreu, em suas condições limitadas de época, na ferrovia inglesa Recife-São Francisco, em 1859, repetida por outra, três anos depois. Um terceiro protesto de que se teve notícia, ocorreu na construção da estatal Estrada de Ferro Sul de Pernambuco, em 1879. Informações sobre protestos e paradas de ferroviários em Pernambuco surgem a partir da República, mas, também, por causa da Lei da Abolição, que inflacionara o mercado de trabalhadores assalariados, como a de 1891.

Com a GWBR assumindo a ferrovia paraibana, ocorre a primeira greve em 1902. Campina ainda não seria atingida. Mas sim com a de 1909. Como a GWBR havia arrendado todas as ferrovias inglesas de Natal a Maceió, ocorreram seis greves na primeira década do século XX. Nesta greve de 1909, a Paraíba aderiu, uma vez que em momento algum nem a capital, Itabaiana, ou Campina viram trem algum se mover. Já vicejavam as palavras de ordem do O Congresso Operário, de 1906, cujas bandeiras eram as 8 horas de trabalho. Além disto o movimento dos ferroviários foi alimentado pelo jornal quinzenal Aurora Social, editado no Recife, em 1907.

Inaugurada em 1907, a estação da GWBR, em Campina pouco poderia prever que, dois anos depois, teria uma paralisação, uma coisa estranha à cultura local. No entanto, alguns advogados e estudantes de Direito campinenses já dispunham de um jornal O Campina Grande, que se reportou sobre a greve: “Um movimento patriótico de reivindicações de direito, opera-se actualmente entre os honrados servidores da Great Western. Os nossos patrícios querem aumento dos seus ordenados. E essa companhia de exploradores, que lhes roubam as energias, nega-se terminantemente. Somos um país livre e fiquem certo os senhores ingleses, que a escravidão para nós vive como dolorosa reminiscência. Estamos solidários com os nossos colegas da imprensa ao lado dos grevistas que querem a compensação do seu trabalho activo e produtor”.

O redator-chefe, Protásio de Sá escrevia: “Declararam-se em greve os honrados e heroicos empregados da Great Western. Em seguida, o autor transcrevia um telegrama chegado de Natal: “Continuamos no firme propósito de não aceitar abatimento nenhum. Estamos firmes bem garantidos e não podermos perder causa tão justa. O povo estaciona em diversos pontos a promover meeting, dispostos a luctar . Viva a República Brasileira!”

Caros leitores”, continuava: “Quem de vós não se sentirá entusiasmado diante do heroísmo deste povo que hoje exige com justiça e a recompensa de seu trabalho, de seu esforço, até hontem explorado por esta corja de sevandijas? Quem dirá que é um escândalo inqualificável ver, por exemplo, o Sr. Laurimer, engenheiro talvez de pegue aqui por favor (sic), recebe mensalmente cinco contos de réis, quando o honrado brasileiro que lucta, que trabalha em prol desta companhia, vem ao fim da cada mês perceber o pequeno salário de cento e poucos mil réis?”

Eu estou em certo que a própria Inglaterra não poderá deixar de sentir-se envergonhada diante dois acontecimentos tão comprometedores de sues filhos”. E terminando aqui direi bravo aos heroicos grevistas brasileiros”.

(*) Professor, historiador

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