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A pregação de Jesus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 21 de janeiro de 2017 às 17:13

São Mateus no seu Evangelho (cf. Mt. 4,12-13) interpreta como um rabino, o oráculo do profeta Isaías: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que andavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (cf. Is 8,23b-9,1), aplicando-o concretamente a Jesus. Na visão teológica de Mateus, nele a promessa de Isaías realiza-se, Jesus, o Messias, é a grande luz para o povo que caminhava nas trevas.

Por que o lugar escolhido por Jesus para iniciar a sua atividade messiânica é a Galileia, que não se considerava como terra natal do Messias? Por que não fica ele na Judeia e em Jerusalém, centro do Povo de Deus?

Ele não poderia ter-se situado num contexto mais devoto, entre os sacerdotes e piedosos judeus na cidade santa? Ou também ele não poderia ter escolhido o caminho de tantos monges essênios ou profetas, fugir para o deserto?

Como antes Jesus tinha ido viver em Nazaré (cf. Mt 2,22-23), agora vai atuar na Galileia e em Cafarnaum, obrigado pelos acontecimentos externos. Mas em ambos os lugares o evangelista faz notar que assim se realiza a vontade de Deus, anunciada pelos profetas.

Jesus se dirige às zonas periféricas de Israel, à “Galileia dos gentios”. Trata-se de uma região semi-pagã, odiada pelos judeus. Foi morar em Cafarnaum, nos confins desta região sombria do ponto de vista religioso, de sincretismo e relaxamento dos costumes morais.

Nesta periferia do mundo o jovem pregador começou a anunciar o Evangelho. Ele começa a partir dos últimos, dos mais desprezados pela elite religiosa de seu tempo. Junto a essa gente religiosa, cultural e socialmente desprezada o Mestre quis ser a luz também para os pagãos. Onde havia trevas e sombra da morte, surge uma luz.

Esta decisão de Jesus de deixar Nazaré e ir morar em Cafarnaum é um símbolo significativo de seu projeto missionário e evangelizador. Simboliza a abertura da evangelização a este mundo e a chegada do Evangelho ao “gentio”, ao pagão.

A pequena aldeia de pescadores, às margens do chamado mar da Galiléia, tem uma grande significação simbólica.

Mateus sugere que Jesus “se retira”, pois se sente ameaçado e cede ante a pressão da situação externa. A ameaça determinou já a mudança do lugar desde o inicio de sua vida e lhe obrigará continuamente a retirar-se também durante sua vida pública.

A casa de Jesus não será estável e fechada, inclusive Ele vai adotar uma forma nova de proclamação da Palavra de Deus, vai sair e caminhar; será um pregador itinerante durante todo o seu ministério e fundará um movimento de pregadores ambulantes para alcançar aldeias e povoados distantes, para anunciar-lhes a Boa Nova da presença do Reino de Deus, para que a luz continue brilhando, pois a luz que brilhou em Belém e a salvação não são para muitos nem poucos, mas para todos, é universal.

Com a moldura de Cafarnaum e o cenário da realidade dura da vida dos pescadores Jesus começa sua pregação: “Convertei-vos, porque o reino de Deus está próximo.” (Mt 4,17) Toda a mensagem de Jesus está resumida nessas palavras.

Contém um chamado e um anúncio. O chamado vem primeiro, mas depende completamente do anúncio, já que está fundamentado sobre o “porque o Reino de Deus está próximo”.

Este Reino não é uma realidade completamente presente. Jesus ensinará a rezar: “Venha teu reino” (Mt 6,10). Mas está definitivamente perto. Deus decidiu de modo irrevogável instaurá-lo frente a todos os outros poderes, e atuará de maneira aberta e plenamente eficaz. Não é possível nenhum passo para trás, mas só para frente, até sua plena manifestação.

Deus não tardará e não permanecerá oculto para sempre. Não abandonará a humanidade aos poderes da natureza e da história, nem à condição de estar submetidos uns aos outros. Porá um fim a todos estes poderes e será ele mesmo, de maneira direta e imediata, o Rei e Senhor.

Jesus esclarece a natureza deste Reino, sobretudo, em sua mensagem sobre Deus como Pai e em sua atividade misericordiosa de curas e de ajuda.

Ao anúncio precede o chamado: “Convertei-vos”. Jesus convida seus ouvintes a dirigir-se para Deus. Devem voltar a ele seu rosto, escutando-o com atenção, confiança e esperança. Não devem dar-lhe as costas, afastar-se dele e buscar longe dele a felicidade e a salvação.

O movimento de Deus para o homem exige como resposta o movimento dos homens para Deus. A pregação de Jesus fica dominada, desde o inicio, por estes dois temas fundamentais: esclarece o que podemos esperar do reino de Deus e expõe, ao mesmo tempo, as formas da verdadeira conversão.

A conversão é vivida no seguimento de Jesus: “Vinde e segui-me.” (Mt 4, 19) Quem  lhe segue, deposita nele sua confiança, convencido de que ele conhece a meta e sabe qual é o caminho. Quem lhe segue, se une a ele, os discípulos são introduzidos na mensagem sobre o Reino e na conversão como resposta adequada a essa mensagem.

Os que seguem a Jesus deixam suas condições de vida anterior e se unem a ele, numa comunhão de vida, numa comunidade de discípulos. Mas esta união não pretende desvinculá-los dos outros; deve prepará-los para uma nova tarefa em relação com eles e junto deles. Jesus chama a seu seguimento, manifestando ao mesmo tempo sua intenção:

“Os farei pescadores de homens” (Mt 4, 19). Na comunidade de discípulos Jesus os prepara a continuar, como enviados seus, sua própria missão.

Como assumimos hoje essa missão? Que fazemos para ser luz? Perto de quem ou onde nos situamos, nós os cristãos evangelizadores de hoje? Será que nos situamos na periferia ou na fronteira missionária e desafiadora da “Galileia pagã” de hoje? Não estaríamos nós acomodados ou por demais instalados em situações conservadoras, de manutenção ou administrativas?

Na Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” (A alegria do Evangelho) do Papa Francisco ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e aos fieis leigos(as) sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, ele disse que:

“Hoje todos somos chamados a esta nova ‘saída’ missionária. Cada cristão e cada comunidade há de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.” (EG 20)

Mateus parece ter bem presente a experiência da Igreja primitiva, sabendo que a conversão sincera não é tão fácil ou evidente.

Conversão exige mudança interior. Também nós os cristãos não nos teríamos acomodado ou instalados? Não nos comportamos como se não houvesse nada que precisasse ser mudado, nada mais de novo a aprender, nada a conhecer, nada a experimentar ou a aspirar?

“A Pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: ‘Fez-se sempre assim.’ Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades.”

(EG 33) A conversão é uma decisão que tenho que tomar agora e não deixar para depois, pois seria não ouvir o chamado do Senhor: “Vinde e segui-me!”.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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