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A Poética de Manuel Bandeira

José Mário. Publicado em 17 de setembro de 2016 às 10:10

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  • Por José Mário

Para todos os meus alunos de Teoria do Texto Poético da UFCG

De acordo com Alfredo Bosi, em seu ensaio “A interpretação da obra literária”, a tonalidade de um texto diz respeito à dimensão afetiva que recobre as camadas da expressão; e arremata afirmando que a identificação adequada, por parte do leitor, da tonalidade de um poema já se constitui em meio caminho andado para uma boa interpretação. Assim é pelo tom presente no texto que iniciaremos as nossas considerações sobre “Epígrafe”, que é o primeiro poema do livro A Cinza das Horas, com o qual Manuel Bandeira começou a sua consagrada travessia na literatura brasileira, sendo considerado pela crítica literária especializada como um dos mais importantes poetas do nosso modernismo e, por extensão, de toda a nossa literatura. Antes de fazê-lo, contudo, vamos à transcrição do poema:

EPÍGRAFE

Sou bem-nascido. Menino,

Fui, como os demais, feliz.

Depois, veio o mau destino

E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,

Rompeu em meu coração.

Levou tudo de vencida,

Rugiu como um furação.

Turbou, partiu, abateu,

Queimou sem razão nem dó –

Ah, que dor!

Magoado e só,

-Só! – meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes

Na sua paixão sombria…

E dessas horas ardentes

Ficou esta cinza fria.

-Esta pouca cinza fria.

A parte introdutória do primeiro verso marca-se por uma tonalidade afirmativa, enfática, eufórica, sinalizadora de uma condição de positividade, a adornar, sem rasuras, a infância feliz do poeta, vivenciada na companhia de uma família acolhedora, em cujo interior ele teria amplas possibilidades de desenvolver todas as suas potencialidades.

Na poesia de Manuel Bandeira, em mais de um momento ele faz referências ao mundo alado da sua infância. Em Itinerário de Pasárgada, livro autobiográfico no qual o poeta nos revela instantes decisivos da sua formação de escritor, assim ele se pronuncia: “Dos seis aos dez anos, nesses quatro anos de residência no Recife, com pequenos veraneios nos arredores, construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma dona Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa do meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica dos personagens dos poemas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adjacentes, limitados pela Rua da Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha troada; a casa do meu avô, a capital desse país fabuloso. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio desses últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante”.

À louvação do poeta ao edênico universo da infância, sinalizada pela enfática afirmação: “Sou bem nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz”, contrapõe-se o modalizador temporal “Depois”, com que se abre o terceiro verso da primeira estrofe, indiciador, agora, de uma realidade dramática, opressiva e limitadora, com a qual o poeta terá de aprender a conviver até os últimos dias da sua vida.

“Depois, veio o mau destino/E fez de mim o que quis”. Avulta aqui, no plano conceitual, a noção de destino como uma realidade que se impõe, inapelavelmente, ao ser humano, e contra a qual pouco ou quase nada pode a liberdade dos homens. Aqui e nos versos que se seguem, o destino, atroz, assume-se como sujeito de todas as vontades, reservando-se ao poeta a condição de objeto passivo, inteiramente incapacitado para esboçar qualquer reação.

A sucessão de verbos de que lança mão o poeta para referencializar as ações empreendidas pelo “destino e pelo mau gênio da vida”: “rompeu, levou, turbou, partiu, abateu, queimou”, mostra, à exaustão, sobretudo pelo investimento estilístico neles operado, notadamente o magistral jogo aliterativo posto em cena, a impiedosa ação de forças que se abateram sobre o poeta, dele roubando a felicidade experimentada no reino encantado da infância.

Ao poeta passa a restar, tão somente, a desconfortável realidade da dor por ele evidenciada num verso tão conciso quanto impregnado de sincera e comovente emotividade: “Ah, quer dor!”. Dor que, no final das contas, passa a ser encarada pelo poeta como uma espécie de realidade última da sua existência, ponte única de comunicação entre e o mundo, notadamente o do seu leitor, a quem ele direciona os seus poemas, com especialidade os que se enfeixam no livro A Cinza das Horas, cuja tonalidade crepuscular, melancólica, prefigura-se já a partir do título, com a cinza apontando para o que resta do fogo, semema de destruição, e horas pontificando a implacável passagem do tempo. Passagem que, no final das contas, leva o homem para a estação definitiva da vida chamada morte.

Nesta quadra cronológica da vida, que corresponde ao momento em que o poeta vê-se portador de uma enfermidade considerada incurável para os padrões da medicina da época, Manuel Bandeira estava tão engolfado pelo sentimento da dor que em “Desencanto”, segundo poema do livro em apreço, numa nítida tonalidade elegíaca afirma: “Eu faço versos como quem chora/De desalento, de desencanto./Fecha o meu livro se por agora/não tens motivo nenhum de pranto”. Realidade que, ao fim e ao cabo, vai sendo modificada ao longo do tempo, sobretudo com a chegada da maturidade.

É nessa fase que a lírica do poeta amplia o seu compasso, alarga as suas fronteiras e torna-se mais solidária, na medida em que se abre, repleta de compaixão, para a necessária e difícil comunhão com a alteridade, conforme acertado pronunciamento do poeta/crítico Ruy Espinheira Filho em ensaio consagrado ao notável poeta Manuel Bandeira.

“Magoado e só/só meu coração ardeu”. A reiteração da palavra “só” realça o estado de abandono e solidão a que o poeta se vê relegado, completamente impotente para encontrar uma saída para os muitos sofrimentos com os quais ele se defrontaria ao longo dos oitenta e dois anos que viveu.

“E dessas horas ardentes/Ficou esta cinza fria/Esta pouca cinza fria”. A imagem final do poema reveste-se de singular ambivalência. De um lado, a cinza restante, pouca e fria, pode apontar para a vitória da morte, da inexorável certeza de que, no final das contas, ela triunfaria sobre a limitada existência de quem, dali a pouco, seria apenas lembrança, nada mais. De outro, a cinza, mesmo pouca e fria, é o diminuto espólio de “uma vida inteira que poderia ter sido e não foi”, mesmo tendo sido o suficiente para, a partir dela, o poeta construir uma das mais sólidas poéticas de quantas emergiram no solo da língua portuguesa.

  • Docente da UFCG / Membro da Academia Paraibana de Letras

 

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