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Campina Grande - PB

A poética de Lourdes Ramalho em Flor de Cacto

23/07/2016 às 8:14

Fonte: Da Redação

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* Autor: José Mário da Silva

Símbolo da cultura nordestina mais imorredoura, ícone das nossas paisagens afetivas mais acalentadas e índice de um vigoroso e cativante ser/fazer estético, Lourdes Ramalho é mais do que merecedora da justa homenagem que lhe foi prestada recentemente pelo Pôr do Sol das Letras, importante confraria literária que, mentoreada pelo jornalista e escritor Hélder Moura, vem prestando relevantes serviços à cultura paraibana, ao criar uma atmosfera propícia ao debate, à exposição de ideias, ao lançamento de livros, ao convívio, enfim, com todas as artes, especialmente com a Literatura, arte que, no dizer do ensaísta goiano Wendel Santos, é a que mais profundamente revela o ser humano, dado que o faz em toda a vasta e quase incontornável dimensão que o caracteriza.

Ancorada, sobretudo no porto do gênero dramático, do qual se tem mostrado uma consumada mestra, Lourdes Ramalho, de igual modo, mostra a força da sua criatividade na seara da poesia. Originalmente publicado na já longínqua quadra cronológica dos anos setenta, a reedição do livro Flor do Cacto, portando o selo editorial da Universidade Estadual da Paraíba, constitui-se na cabal prova de que, habitada, dentre outras, pela função sinfrônica da literatura, a poesia emula contra o tempo e vive da sua própria eternidade.

Flor de Cacto seduz pela singeleza do título, em cuja tessitura semântica complementar flagramos uma admirável viagem ao ignoto do ser, ao ignoto do sertão e ao ignoto do ser da poesia. Nessa peregrinação triádica, o eu-lírico posto em cena por Lourdes Ramalho faz da palavra a companheira inseparável de sua lírica e, ao mesmo tempo áspera, travessia. O poema “Flor de Cacto”, que inaugura o livro e lhe confere título é um emblemático exemplo do que sinalizamos. Consorciando, harmoniosamente, ritmo, conceito e imagem, três estratos constitutivos do fenômeno poético conforme os postulados de Ezra Pound e investindo no jogo bem urdido de assonâncias e aliterações, a poeta cartografa a paisagem árida do sertão; incursiona pelo universo interior igualmente árido do homem que nela habita; e, por fim, anela pela “rosa fulgurante da poesia”, configurando-se, assim, o tríplice itinerário percorrido pelo conjunto de poemas que integram o livro.

Ser inarredavelmente telúrico e norteado por infrangível paixão pelas suas origens, Lourdes Ramalho, em A Flor do Cacto, faz da fazenda São Domingos, seu berço e lar primevo, a personagem principal de um enredo memorialístico tingido por funda nostalgia, cujo alimento mais ostensivo é a dolorida consciência da inflexível passagem do tempo, de um lado; e, do outro, da inevitável chegada daquela a quem Manuel Bandeira, nos imortais versos de “Consoada”, chamou de A indesejada das gentes. Aqui, a simplicidade composicional dos versos engendrados por Lourdes Ramalho, desvestidos do mais leve vestígio retórico, ganha uma indisfarçável tonalidade reflexiva, que o digam os poemas “A porta” (pág. 32); “Reminiscências” (pág. 37) e “Libertação” (pág. 79).

Por esse patamar e retomando os pressupostos teóricos de Ezra Pound, a poesia de Lourdes Ramalho, regional sem regionalismos reducionistas, exibe forte dimensão ideativa e, como toda grande poesia, “com apenas duas mãos revela ser portadora do sentimento do mundo”, conforme a sinalização preconizada por Carlos Drummond de Andrade para o ser/fazer do poeta. Atenta à lição de Leon Tolstoi, Lourdes Ramalho soube cantar a sua aldeia, e o fez tão competentemente que atingiu o estatuto da universalidade.

Lourdes Ramalho, em sua visceral viagem poética, do território do ser ignoto, que somos todos nós, incursiona pelo ignoto sertão, tópica recorrente da literatura brasileira. E, ao fazê-lo, seu lirismo se ilumina com imagens belíssimas, a exemplo do “cacto, altaneiro, que, na face nua da escalvada serra, cresce, desabotoa o caule… e oferece uma flor de neve – estrela sobre o monte”. Mais tocante ainda é a imagem do “jorro límpido que sobe do seio da terra”, e que não é outra senão a salgada lágrima da terra esturricada do sertão, do velho e mítico nordeste sempre visitado pelo flagelo das secas, acumpliciado à falta de políticas que confiram ao homem nordestino a capacidade de conviver com o cíclico fenômeno da natureza chamado seca.

A dicção metalinguística percorre o jardim de palavras, onde a escritora campinense plantou a sua Flor de Cacto; o que reforça a consciência artesanal de que ela é inquestionavelmente portadora. Cito, aqui, em abono a essa constatação, dentre outros, os poemas “Expectativa” (pág. 43) e “O poeta e a noite” (pág. 91). Neste último, na “sua noite fatal, secreta, o poeta ao fazer a sua iniciação ele é mordido pelo grande Cão/E começa na via Láctea/a sua via crucis”.

Desde Platão até aos nossos dias, as relações entre o poeta e a república são sempre conflituosas, não raro perigosas para o poeta, esse ser que tem o “Desejo de possuir/todos os corpos/como se fossem rosas machucadas/para haurir-lhes todos os perfumes./desejo de prender todas as respostas/para oferecê-las/às perguntas que correm mundo sem destino;/desejo de sorver/e absorver-se/em todas as dimensões/… Mas/ (a lua come coco/quanto mais juízo pouco).

O veio humorístico com que se fecha o poema colide com o sonho, ambicioso, dos poetas de terem, com a precária senha das palavras, acesso à essência de todas as realidades; o que, se viesse a ocorrer, colocaria um ponto final e definitivo no errante itinerário da literatura, que, como toda arte, é uma confissão de que a vida só não basta, conforme preconiza Fernando Pessoa em suas fundamentais páginas de teoria e estética literária. Como a Clarice Lispector de A Hora da Estrela ou mais precisamente o narrador que se delineia nas labirínticas dobras da linguagem, Lourdes Ramalho também quer continuar a escrever enquanto tiver perguntas a endereçar ao esfíngico enigma da vida. Ademais, o que é a literatura senão uma espécie de grande e irrespondível?

Percebem-se ainda no imaginário poético de A Flor do Cacto ecos e ressonâncias de outras vozes poéticas, com as quais a escritora campinense dialoga, a elas imprimindo a sua particular dicção. No poema “Sombras”, por exemplo, percebemos as reverberações de “Noite Morta”, poema de Manuel Bandeira.

Em “A nova face da lua” (pág. 93) Lourdes Ramalho critica a ambição humana que, frequentemente, é traduzida por dramáticas agressões à natureza. Poderíamos ainda falar da religiosidade, da valorização da cultura popular, do código familiar ternamente cultivado, dentre outros temários habilmente trabalhados pela ilustre homenageada da bela tarde/noite que lhe foi propiciada pelo Pôr do Sol das Letras. Satisfaço-me, contudo, com o já dito, absolutamente certo de que ele é menos ponto de chegada que de partida para outros e múltiplos dizeres, somente propiciados por uma plurissignificativa e rebelde dama chamada poesia.

* Membro da Academia Paraibana de Letras

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