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A Poesia Sou Eu

José Mário. Publicado em 15 de julho de 2016 às 8:42

jose-marioPor José Mário da Silva*

A Poesia Sou Eu, título emblemático da obra poética reunida de Luís Augusto Cassas, constitui-se num dos acontecimentos literários mais importantes da nossa contemporaneidade. Assinala de pronto a história efetiva da prolongada convivência de um homem com a palavra em estado de estesia. Um raro, obstinado e comovente caso de paixão e amor entre um homem e a sublime e fundante arte da poesia.

Lendo, relendo e estudando, ao longo de anos a fio, a vasta produção poética do inquieto e criativo vate maranhense, veio-me à memória um elucidativo estudo teórico-crítico que a ensaísta brasileira Renata Soares Junqueira consagrou à luminosa obra da escritora portuguesa Florbela Espanca. A propósito de discorrer sobre as categorias conceituais da poética decadentista-simbolista, a referida autora apontou os seguintes marcos: triunfo do artifício, conversão da vida em arte, perda das identidades e ruptura dos gêneros. Sem perder de vista as especificidades inerentes a cada construto poético, e cultivando a nítida consciência de que a poesia de Cassas transborda dos enquadramentos periodológicos mais demarcados e previsíveis, penso que tais pressupostos acumpliciam-se sobremaneira ao ser/fazer poético do criador de A Liturgia da Paixão.

Em sua poética plural e acolhedora de todas as (im)possibilidades da linguagem, a arte, enquanto poderoso instrumento de remodelação transfiguradora do real, triunfa sobre as estreitezas impostas por esse mesmo real. “Deixo ao cego e ao surdo a alma com fronteiras/que eu quero sentir tudo de todas as maneiras”. Foi com esses versos que Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, expressou o anelo de abrigar, em seu seio, todas as sensações existenciais possíveis. É aqui que a identidade empírica de cada poeta, o eu civil que o ancora no porto das geografias mais denotadas do mundo, multipersonaliza-se e perde-se, a fim de reencontrar-se, plenificada, no reino infinito da linguagem. É por esse viés que Luís Augusto Cassas, de A República dos Becos até A Ceia Sagrada de Miriam, tem procurado capturar a quase incapturável síntese cosmogônica de tudo.

A Poesia Sou Eu é a travessia ininterrupta de um poeta que, ao converter a vida em arte e fazer da arte uma modalidade suprema de vida, “o refúgio do último ideal”, lúcida expressão adotada por Alexei Bueno ao referir-se à poesia de Mário de Sá-Carneiro, confundiu-se com a própria poesia, dela fazendo-se servo, amigo, amante e confidente de todas as horas.

Rasuradas, transgressoras e refratárias a qualquer imposição hierarquizante mais ortodoxa, as poéticas descendentes da estética romântica, da qual, com seu peculiaríssimo sotaque e singular tonalidade, Luís Augusto Cassas é tributário e recriador, fazem da ruptura dos gêneros, o ponto de partida e de chegada do seu itinerário radicalmente libertário. Cassas protagoniza essa travessia de confluências múltiplas, ao produzir uma poesia pluridimensional, em cujo estuário, transdialeticamente, o lírico, o épico e o dramático coreografam a dança sígnica de um verbo que se pretende tão local quanto universal; tão radicado no coração mais referencializado da temporalidade presente quanto metaforizador de todas as temporalidades possíveis. A Poesia Sou Eu. Como diria o mestre paraibano Juarez da Gama Batista, no sistema literário de Luís Augusto Cassas “a poesia é tanto autobiografia quanto sensação dos séculos”.

(*) Membro da Academia Paraibana de Letras

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José Mário

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