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Campina Grande - PB

A Páscoa e os advogados

22/04/2017 às 14:05

Fonte: Da Redação

Por Carlos Pessoa de Aquino*

No instante sagrado em que celebramos a Páscoa de Jesus, a maior de todas as celebrações cristãs, nas palavras de Santo Agostinho, “A alma de todas as celebrações”, revisitamos os instantes em que o filho doa a vida e vence a morte, abrindo-nos a possibilidade de fazer a mesma passagem em direção à vida eterna, pois uma vez que compreendamos a ressurreição poderemos efetuar também uma passagem do comodismo ao compromisso, do conformismo que aceita a injustiça à coragem de lutar em prol dos nossos ideais. A celebração da Pascoa deve pois renovar em todos nós o amor como o de Jesus capaz de doar, sofrer, perdoar, vencer a morte para a vida definitiva.

O advogado, como qualquer cidadão, tem no seu ofício os encargos, as vicissitudes e os desafios inerentes ao seu ofício ao encontrar sempre um sepulcro vazio, sofrimentos, incertezas, injustiças, mas, sobretudo não deve jamais perder a esperança tendo como paradigma o ressuscitado que nos deixara os sinais de sua vitória para seguirmos além, anunciando o amor que é maior e que a tudo supera.

Nesse período pascal, torna-se imperioso que no coração do advogado deva residir sua fé inquebrantável com a alma aberta às luzes da consciência como um cristal de virtudes sem jaças com sua devoção e crença inarredável na missão balsâmica e confortadora do sacerdócio com inspiração superior sensível aos toques do bem, infenso a febre dos negócios a paralisar-lhe os sentimentos de dignidade, de honra, de solidariedade humana embora com travos de fel no coração, mas com intemerata dignidade, colimando, em meio aos rudes interesses.

Os advogados devem estar agrilhoados ao facho permanente de luz a iluminar as trevas avassaladoras que se lhe apresentarem, com inarredável desassombro, resistência glorificadora e holocaustos redentores. Para tanto, devemos mais fortemente rogar súplicas a Deus para que nos fortaleça em nossa crença na vida e possamos abraçar apaixonadamente os interesses alheios, tal qual um Cirineu moderno, a carregar a cruz alheia, e como tal, deve o advogado possuir compromissos com a bela profissão, amor ao grau de advogado, como o poeta Antônio Boto (1.902-1959) certa feita em belo poema indagou: “Tem quatro letras apenas/ a triste palavra amor/ menos uma do que a morte/ mais uma do que a dor./ Quem não conhece a palavra,/ tão infinita e tão breve/ que apenas nas suas voltas/ com quatro letras se escreve?”.

As novas gerações não devem transformar-se em janízaros mercadores profissionais e mercenários insensíveis sem enxergar o romantismo da advocacia, o telurismo da militância e o fascínio do ofício. O advogado deve especialmente perseverar ante as intempéries de toda sorte, pois além de sofrer as agruras da causa ingrata, tem que absorver duros golpes oriundos do seio da comunidade recheados de altissonantes desgabos e malquerenças de toda sorte, com avoengas generalizações niveladoras. Como já se disse, que a advocacia é “a defesa sofistica do que é torto” e ainda “limpadores de chaminé misturados a fuligem que enegrece”. Tais conclusões, além de equivocadas, distorcidas e falsas, são enganos de fácil desmentido. Para advogar é imprescindível o sopro do espírito, um ar de beleza, adornos para argumentos convincentes à esplender feixes de luz no direito pleiteado.
Ser advogado é ser um repositório inesgotável de observações, instantes e contatos com as diversas facetas humanas e uma fascinante continua e ininterrupta viagem no clima ardente dos Tribunais. Na incessante luta da advocacia, temos encontros e desencontros, néctar e fel, vitórias e derrotas, invernos rigorosos e primaveras luminosas.

O fascínio de advogar, se traduz neste brado, verdadeiro canto à advocacia, entoado pelo pontífice dos advogados brasileiros, o grande Rui Barbosa … “No quase meio século que já mede a nossa carreira forense, temos tido, muitas vezes, a honra de perder abraçado com as causas mais justas, mais santas, mais gloriosas, para, anos depois, recebermos o consolo dos nossos reveses, vendo laurear os princípios, com que, tempos antes, haviam sido esmagados.” Maitre Langlois respondeu certa feita uma indagação porque se incumbia tantas vezes de más demandas e assim respondeu: ” Tantas boas tenho perdido, que já não sei de quantas me encarregue”. Falsa a estima do valor de uma causa, de uma reivindicação jurídica, pelo seu desfecho. A esgrima advocatícia faz com que nós possamos lavrar a terra estéril e nela buscar seus frutos tendo como instrumentos de trabalho, o estudo, as leituras, o saber e a alma da nossa pena. Mesmo que tantas incertezas adunem de nuvens sombrias os horizontes das nossas causas, as impregnamos de paixão pela Justiça e devoção ao Direito, pelo sopro do espírito e o ar da beleza em nossos escritos, sem nos deixar levar pela sedução do ato frio, mecânico, em detrimento do trabalho apurado, sóbrio, equilibrado, elaborado com engenho e arte.

Devemos nos renovar a fé e na esperança, para o exercício contínuo das faculdades superiores do pensamento, da tolerância e o exercício da paciência a se contrapor as eventuais crises incoercíveis de impaciência, numa atividade profissional que Voltaire dizia: ” A advocacia é o mais belo estado do homem”, é que se diz que nenhum outro profissional tem um contato tão estreito com as grandezas e as misérias do homem, e por isso mesmo, um dos mais incompreendidos, embora, sejam os advogados amantes e defensores intransigentes da liberdade.

Esse denodado amor à liberdade é que se exige dos advogados serem como são, cultores do direito, da sensibilidade, do altruísmo e da abnegação.

*Advogado, professor da UFPB, membro do Instituto dos Advogados do Brasil – IAB.

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