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A mulher que está na glória de Deus

Padre José Assis Pereira. Publicado em 19 de agosto de 2017 às 17:06

Por: Padre Assis

 

Os cristãos católicos do oriente e do ocidente celebram hoje uma das mais antigas e mais importantes festas do Ano Litúrgico, dedicada à Virgem Maria: a solenidade da “dormitio mariae viriginis” ou da “Assunção de Maria virgem ao céu”.

A festa da Assunção da Virgem Maria tem seu sentido da experiência da Ressurreição de Jesus Cristo. A Páscoa nos abriu a todos as portas do Reino de Deus. Um Reino que começa com Jesus e que chega à sua plenitude na casa do Pai.

Os cristãos somos chamados a seguir a Jesus em seu retorno ao Pai. Ele é a cabeça do corpo da Igreja. Maria é um membro proeminente. Ela foi levada ao céu. Sua experiência é modelo para cada um dos cristãos.

A Assunção de Maria recorda-nos que a sua vida, como a de cada cristão, é um caminho no seguimento de Jesus, um caminho que tem uma meta: a vitória definitiva sobre o pecado e sobre a morte, e a comunhão plena com Deus. No núcleo da nossa fé na Assunção está a nossa fé que Maria, como Cristo seu Filho, já venceu a morte e já triunfa na glória celeste. Na Assunção de Maria contemplamos aquilo a que somos chamados a alcançar no seguimento de Cristo e na obediência à sua Palavra, no final de nossa caminhada terrena.

Maria é importante por ser mãe de Jesus. A esta realidade se abre pela experiência profunda do Espírito, que a faz fecunda. Mas Maria é, no entanto, mais importante por ser discípula de Jesus. A primeira ouvinte do Evangelho. A primeira a pô-lo em prática em sua vida. A primeira cristã.

Ela segue os passos de seu Mestre e vive a experiência da Vida plena junto a Deus na Ressurreição. A morte foi vencida e não pode apagar a Vida de quem disse sim a Deus, na total entrega e disponibilidade, e pôs toda sua esperança no Mestre.

O que Maria vive já junto a Deus é o que nós vamos viver depois da experiência da morte. Por isso, para nós a Assunção de Maria é boa noticia. Onde Jesus e Maria chegaram nós vamos também chegar. Nós, não por nossos méritos, mas somente pela misericórdia de Deus.

O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 1,39-56) que proclamamos nesta festa litúrgica, relata o encontro de Maria com sua prima Isabel. A atitude de Maria, saindo ao encontro de quem lhe necessita, é modelo da vocação de serviço de cada cristão. Todos somos chamados a sair ao encontro de quem necessita de nós. A disponibilidade tem de ser uma característica inerente em cada pessoa que tome a sério o Evangelho e o queira fazer vida. Como Maria, não podemos ficar impassíveis ante a necessidade ou sofrimento dos que temos que considerar irmãos na fé.

Existe uma clara cumplicidade entre Maria e Isabel. O que lhes acontece em ambas, seu estado de esperança, é uma experiência religiosa porque é obra do Espírito. Sua relação passa da familiaridade a uma experiência profunda de fé. Tomam consciência, compartilhando o que estão vivendo cada uma em primeira pessoa, de como Deus quis contar com elas para levar a cabo o momento decisivo da história da Salvação: a encarnação de seu Filho, do qual João Batista será o precursor. É um sinal que João, “a criança pulou de alegria no ventre de sua mãe” ao intuir a presença do Salvador.

E é o Espírito Santo que abre os olhos de Isabel e a leva a reconhecer em Maria “a mãe do Senhor” e a se considerar indigna de tão importante visita: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?”(vv. 42-43)

Maria então entoa o “magnificat”, este grande poema e oração que brotou dos seus lábios, ou melhor, do seu coração, proclamando a grandeza de Deus que pôs os olhos nela.

Neste canto maravilhoso da Virgem Maria se reflete toda a sua alma, toda a sua personalidade. Pode-se ver que Maria, por assim dizer, se sentia como em sua casa, na Palavra de Deus. Ela vivia da Palavra de Deus, pensava com palavras de Deus; seus pensamentos eram os pensamentos de Deus. Ao estar imersa na Palavra de Deus, ao ter tanta familiaridade com a Palavra de Deus, recebia também a luz interior da sabedoria.

Quem pensa com Deus, pensa bem; e quem fala com Deus, fala bem, bendiz, tem critérios e juízos válidos para todas as coisas do mundo, se faz sábio, prudente e, ao mesmo tempo, bom; também se faz forte, com a força de Deus, que resiste ao mal e promove o bem no mundo.

Sua fé é confiante, mas não cega. Põe sua confiança na Palavra, para dizer “faça-se em mim segundo a tua Palavra”. De sua confiança nasce sua disponibilidade. Aquele que se instala se fecha em suas “seguranças” e é incapaz de avançar.

O maravilhoso cântico que Maria entoa, o faz cheia de humildade e agradecimento, ao Deus de Israel. Se meditarmos com profundidade as palavras desta oração, poderemos comprovar que Maria não fala, nem pensa, em algum mérito seu; se fixa na imensa grandeza e graça de seu Senhor.

O que proclama sua alma não é sua própria grandeza, mas sim a “grandeza do Senhor”; se se alegra não é nela mesma, senão “em Deus, seu salvador, porque olhou para a humildade de sua serva” (v. 48); se pensa nas felicitações que lhe darão as futuras gerações não crê em nenhum momento que se devam a seus méritos, senão a que “o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor (v.49)”; se fica verdadeiramente admirada da força, da justiça e do poder do Senhor, é porque o Senhor “mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração.

Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos  e despediu os ricos de mãos vazias“ (vv. 51-53). Sempre é o Senhor o único grande e digno de louvor: ela só é sua humilde serva.

Maria reconhece a predileção de Deus pelos pobres e desvalidos deste mundo. Seu hino antecipa quanto Jesus com sua vida e sua palavra vai deixar claro em todo o Evangelho. O Deus de Jesus é Pai cheio de amor e de misericórdia. Um Deus que acredita no ser humano e sai ao seu encontro.

Ao celebrar a Assunção de Maria, cada um de nós podemos perguntar-nos se vivemos nossa existência como verdadeira história de salvação. Movidos pelo Espírito, necessitamos viver em estado de esperança. Deus, como um dia contou com Maria, quer contar com cada um de nós hoje. Peçamos a sua intercessão para que ela nos ajude a termos disponibilidade e espirito de serviço e saibamos fazer de nossa vida um canto de louvor. Assim poderemos um dia chegar como Maria à meta.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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