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A mulher que brilha no céu

Padre José Assis Pereira. Publicado em 20 de agosto de 2016 às 11:41

padre assis

* Por Padre José Assis Pereira

“Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Com esta oração do Prefácio da Assunção de nossa Senhora celebramos a glória de Maria.

Sabemos que a Virgem Santa está, junto a Jesus, no céu em corpo e alma. Esses dois corpos gloriosos, não submetidos à mutação alguma são a promessa do que ocorrerá depois de nossa ressurreição. E na esperança gloriosa da vida eterna há muita força para seguir nosso caminho, acompanhando Jesus, a Virgem, a Igreja.

A liturgia deste Domingo recorre ao Apocalipse, essa misteriosa profecia com que se conclui a Bíblia, querendo introduzir-nos antecipadamente no Reino dos Céus pelas mãos de Maria, que brilha já nele com toda a sua glória.

O texto do Apocalipse é enigmático (cf. Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab), como é todo este livro. Mas a Igreja viu na “mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” uma figura de Maria, a Virgem Mãe de Deus. Ela aparece resplandecente de glória “no Templo de Deus que está no céu”. Corresponde ao lugar que ocupa junto a Jesus Cristo, seu Filho, no conjunto de nossa fé. Sem duvida esta apresentação contribuiu, entre outras, para a exaltação que a figura de Maria tem recebido na devoção do povo cristão desde a antiguidade.

Essa figura luminosa aparece associada a outra imagem que nos remete a um símbolo muito vinculado à história de Israel: a Arca da Aliança. Conta uma antiga tradição judaica que quando Jerusalém foi destruída pelos exércitos da Babilônia, o profeta Jeremias retirou a Arca e escondeu-a em algum lugar secreto. Desde então não se voltou a ter nenhuma notícia dela. João, o vidente do Apocalipse conta-nos que a viu no Céu.

A Arca do Antigo Testamento era sinal da presença de Deus entre o seu Povo; no seu interior, guardava-se a sua Palavra, resumida nas Tábuas da Lei. Menciona-se hoje esta passagem porque Maria é a Arca da Nova Aliança, em cujo seio o Filho de Deus, o Verbo, a Palavra de Deus feita carne, habitou e que, com a sua assunção aos céus, encontrou a sua morada definitiva no seio da Santíssima Trindade.

A liturgia de hoje nos permite fazer a experiência de contemplar Maria, vê-la no interior do espaço divino como a Arca que contém Deus. É como se quisesse mostrar-nos a íntima vinculação que existe entre a Aliança com Deus e a glória a qual se consumará para além da história. Mas podemos também entender esta referência no sentido do viver a fundo a Aliança com Deus, e Maria a viveu como ninguém, pessoalmente e no seio da Igreja nascente. A melhor garantia para alcançar a glória futura.

A mulher do texto vai dar a luz um menino. Maria é inconcebível sem a referência a seu Filho e aos outros filhos, nós, que lhe fomos confiados por Jesus na cruz (cf. Jo 19,26-27). Sobre todos paira a ameaça “de um grande Dragão, cor de fogo” que também fala a passagem de hoje e que é figura do mal. Uma ameaça que não chega a consumar-se, porque sobre ela se impõe “a salvação, a força e a realeza do nosso Deus, e o poder do seu Cristo”.

A assunção de Maria evoca também, com são Paulo (cf. 1Cor 15,20-27a), a projeção pascal de nossa vida, fundamentada na ressurreição de Cristo, prelúdio da de sua mãe Maria e da nossa ressurreição.

A perspectiva da ressurreição se projeta em Maria: sua glorificação está intimamente ligada a sua ressurreição, como partícipe do triunfo de seu Filho sobre a morte.

Paulo fala da solidariedade com Adão na morte para ressaltar a solidariedade com Cristo na vida: “Como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão” (v.22). A consumação dessa vida será o Reino definitivo de Cristo, nele participa já sua Mãe, rainha do céu e da terra. Ela nos precede nesse itinerário que percorreremos todos; o seguimento de Cristo é um seguimento até essa meta transcendente, a que estamos destinados pela bondade de Deus.

Será também a vitória sobre todos os inimigos que tivemos neste mundo: o mais insidioso de todos é a morte, que será vencida para sempre. Maria já a venceu, e por isso, ao pertencer a nossa mesma estirpe humana, é também fundamento de nossa esperança.

O Papa Francisco disse em uma de suas homilias que “a esperança é a virtude daqueles que, experimentando o conflito, a luta diária entre a vida e a morte, entre o bem e o mal, creem na Ressurreição de Cristo, na vitória do Amor… Por isso gosto de dizer: não deixeis que vos roubem a esperança. Que não vos roubeis a esperança, porque esta força é uma graça, um dom de Deus que nos leva para a frente, olhando para o Céu. E Maria está sempre lá, próxima dessas comunidades, desses nossos irmãos, caminhando com eles, sofrendo com eles e cantando com eles o Magnificat da esperança.”

E é desse canto de esperança que nos fala o Evangelho de são Lucas (cf. Lc 1,39-56) que se centra nessa mulher, a serva do Senhor, a mãe do Messias, a mulher que acreditou por excelência; se admira ante sua ação de graças a Deus, que pensou nela desde sempre para realizar sua obra de salvação em favor da humanidade inteira, desde Abraão até o fim dos tempos. A mesma mulher a quem a Igreja pede sua intercessão como a “mulher que habita no Céu.”

A cena do evangelho deste dia é todo um programa de vida, do qual Maria se constitui seu exemplo mais patente. Se ela alcançou a glorificação junto a seu Filho, é porque viveu tal como reflete Lucas neste cântico-oração da Virgem Maria expresso nos primeiros momentos da sua visita a Isabel.

Maria, que acaba de conceber o Salvador, se apressa a visitar Isabel, o anjo lhe havia falado de sua avançada gestação; para ajudá-la e, ao mesmo tempo, compartilhar com ela a novidade insólita que se fez realidade nelas: uma mulher idosa e estéril, e uma virgem darão à luz.

Não há em toda a Escritura outra oração que ofereça uma tão grande transcendência profética. As gerações posteriores a Maria se tem prostrado ante a maravilha que foi sua vida na terra, como Mãe de Deus e cantora profética da redenção.

É um cântico de “mulher” e como tal, forte, penetrante, espiritual e teológico. É um canto para saber que a morte não tem a última palavra. É um canto a Deus, e isso se nota. Não se trata de uma oração egocêntrica de Maria, um canto de liberdade. É um cântico de uma enamorada de Deus. Lucas quis mostrar-nos com este cântico uma jovem que, depois do que “passou” na Anunciação (cf. Lc 1, 26-38) é uma jovem “apaixonada de Deus”. Essa é sua força. Ela entrega a Deus seu sonho, sua maternidade, seu amor, sua pessoa. Ela é plenamente entregue à causa de Deus.

Finalmente, Maria proclama com júbilo a misericórdia que Deus enviou em beneficio de toda a humanidade através dela mesma, apesar de sua pequenez. Cumpriram-se assim, de maneira insuspeitada as promessas divinas em favor dos mais pobres e humilhados.

Proclamar a misericórdia de Deus nos convida a comportar-nos também nós assim, especialmente com os mais pobres. Saber que cumpre suas promessas nos revela o valor da fidelidade. E reconhecer-nos instrumento de seu projeto de salvação nos faz ser humildes e motiva nosso júbilo, à espera do definitivo presente da vida eterna, para louvar com Maria a grandeza de sua bondade e do seu Amor por nós para sempre.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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