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Campina Grande - PB

A luta contra as tentações

04/03/2017 às 13:40

Fonte: Da Redação

Por: Padre Assis

Iniciamos nossa “peregrinação interior” para celebrar a Páscoa anual. A este itinerário espiritual chamamos Quaresma, que como indica o próprio nome, está programada para quarenta dias penitenciais, destinados a iniciar-nos sacramentalmente para a Páscoa.

Ela recebe a sua medida dos quarenta dias passados por Jesus jejuando no deserto, depois de ter sido batizado por João, antes de começar a sua missão de evangelização (cf. Mt 4,1-11). O mesmo aconteceu com Moisés depois da renovação da aliança (cf. Ex 34,1-27).

Quarenta dias é uma medida que não é só quantitativa: o tempo da tentação de Jesus nos permite ver-nos a nós mesmos e analisar nossa relação com Deus e com os outros, partindo da vida de Jesus. Mas, não devemos ver as tentações fora do contexto do deserto, já que ali Deus fala ao coração e é o lugar privilegiado para encontrarmos conosco mesmo e com Deus.

A Quaresma desde a sua origem coincide com o tempo de purificação e iluminação dos “catecúmenos”, que deverão receber os sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Eucaristia e Crisma) na Vigília Pascal. Portanto, a Quaresma tem um caráter essencialmente batismal e eclesial, sobre o qual se baseia o caráter penitencial.

A escuta da Palavra de Deus caracteriza a Quaresma como tempo do “catecumenato”. Etimologicamente a palavra “catecumenato” procede do verbo grego “ketecheo”, que significa ressoar, fazer ecoar e, por extensão, catequese, instruir. Assim, “catecúmeno” é aquele que está sendo instruído, catequizado, mais concretamente, aquele que está sendo iniciado na escuta da Palavra de Deus. A Quaresma chama-nos a uma relação mais estreita com a Sagrada Escritura.

Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso, a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos da Quaresma, guia-nos para um encontro intenso com o Senhor, fazendo-nos percorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber os sacramentos da iniciação cristã, para quem já é batizado, alimenta o caminho de fé que iniciamos com nosso Batismo em vista de novos e decisivos passos no seguimento e discipulado de Cristo.

A Palavra de Deus neste primeiro domingo nos fala da nossa frágil condição humana e das tentações com as quais o diabo (caluniador) pretendeu enganar, no princípio dos tempos aos nossos primeiros pais, Adão e Eva (cf. Gn 2,7-9; 3,1-7), e, posteriormente, a Jesus. (cf. Mt 4,1-11)

Aos nossos primeiros pais, o demônio lhes tentou com a promessa do conhecimento do bem e do mal: “Deus sabe que no dia em que comerdes deste fruto, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e o mal.” (Gn 3,5) Já não necessitaria de Deus, porque seriam como Ele, quer dizer, seriam os deuses de si mesmos.

A Eva a ideia de comer deste fruto proibido lhe pareceu atraente e desejável, porque isso lhe daria inteligência. Dito isso a Adão, também para ele o fruto que lhe dava a mulher lhe pareceu muito bom e também o comeu. As consequências já as sabemos: se lhes despertou a inteligência e a primeira coisa que viram é que estavam nus, com toda sua fragilidade exposta, e assim, não podiam se apresentar diante de Deus. Fugiram e se esconderam dele, começaram a guiar-se por si mesmos.

Também nós, filhos e filhas de Eva, a ideia de nos guiarmos e decidirmos por nós mesmos, o que é bem e o que é mal, por nosso próprio conhecimento, livres ou desobedecendo ao mandato de Deus, nos tem parecido sempre atraente e desejável.

Porém também é verdade que o cair nesta tentação nos trouxe muitos males ao longo dos tempos. Basta olharmos para nós mesmos e para o mundo em que vivemos, para nos darmos conta que o não nos deixarmos guiar por Deus tem feito da história da humanidade uma melancólica tragédia, uma história de mais erros que acertos: guerras e violências, destruição, fome e desumanidades sem conta.

Resultado é que em lugar de viver na terra como num paraíso, temos que viver aqui como num deserto inóspito, um “vale de lágrimas”.

Mas, se a história da humanidade simbolizada pela dos nossos primeiros pais, não superando a prova, caindo na tentação e perdendo o status que tinham no Éden, os levou do paraíso ao deserto como consequência de sua má escolha, de seu pecado.

Sem dúvida nenhuma, Jesus assumindo a nossa condição humana, aceitando caminhar conosco no deserto, fora do jardim da intimidade com o Pai, desposa plenamente a condição de homem sofrendo a situação histórica deste com todos os seus riscos e precariedades, e ao mesmo tempo indica-nos o caminho para a vida e ampara-nos.

Jesus, que volta a percorrer em si mesmo o caminho do Povo de Deus (os quarenta anos no deserto), rejeita, e ensina a rejeitar, o caminho “fácil” da procura da gratificação imediata, de exaltação de si mesmo, de servidão aos mecanismos do poder, apontando com decisão o caminho da escuta da Palavra de Deus, da confiança humilde na sua vontade, de abertura da vida ao seu serviço.

As tentações propostas pelo diabo a Jesus contêm, sobretudo, não a busca de um pecado, de uma transgressão moral, senão, simplesmente, tirá-lo do caminho da obediência à vontade do Pai que Ele havia traçado. Busca o tentador que Jesus dominado por dúvidas, queira confirmar aquilo sobre o qual não estaria seguro. Como, por exemplo, ser o Filho de Deus. O que fica claro é que, desde o episódio do deserto, o diabo irá se opor à missão de Jesus.

Jesus nos mostra que é possível viver superando as tentações, sem perder nossa dignidade e nossa condição de filhos e filhas de Deus, e buscando em todo momento fazer a sua vontade, como rezamos no Pai nosso. Mas há uma coisa importante, é que para superar as tentações é mister saber quais são elas. Quais as tentações que nós cristãos temos hoje? O Evangelho nos mostra três tentações de Jesus que se podem transladar para nós.

Na primeira tentação, o demônio disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.” (Mt 4,3) Nossa tentação poderia ser fazer da satisfação das necessidades materiais o objetivo último e absoluto de nossa vida. Pensar que a felicidade última do ser humano se encontra na posse, acúmulo e no desfrutar dos bens.

Mas Jesus nos disse que isso não é suficiente, que os valores que Ele nos propõe são: não possuir egoisticamente só para si; dar, partilhar, não acumular; criar vida e viver como irmãos, não explorar aos outros como se não tivessem dignidade.

Na segunda tentação, o demônio disse a Jesus: “Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito, e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em nenhuma pedra.” (cf. Mt 4, 5-7) Nossa tentação poderia ser buscar o poder, o êxito ou o prestígio pessoal, por cima de tudo e a qualquer preço, inclusive caindo nas idolatrias mais ridículas. Mas, Jesus nos disse que frente ao próprio prestigio e poder, frente à competência e a rivalidade com os outros, está o serviço generoso e desinteressado aos irmãos.

Finalmente, na terceira tentação, o demônio disse a Jesus: “Tudo isso te darei, se, prostrado, me adorares”. (cf. Mt 4,8-10) E creio que aqui tropeçamos bastante, porque nossa tentação é utilizar a Deus de maneira mágica e egoísta, tratando de que Ele nos resolva os problemas da vida, manipulando Deus a serviço de nossos interesses, sem nenhuma luta nem esforço de nossa parte. Pedimos-lhe, lhe prometemos, lhe invocamos… mas nosso compromisso não se vê. Jesus nos disse que essa não é a verdadeira fé, uma fé passiva, acomodada, sem ação nem compromisso transformador ante os problemas e as dificuldades da vida.

O contrário, o que é fiel a Deus e vive como seu Filho, cumpre sempre sua vontade, se arrisca e se compromete cada dia na luta por conseguir um mundo mais digno e justo para todas as pessoas.

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