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Campina Grande - PB

A História se repete?

29/05/2017 às 10:06

Fonte: Da Redação

Por Josemir Camilo de Melo (*)

Convidado pelo grupo Curtas, da Delegação Paraíba, em Campina Grande, da Escola Brasileira de Psicanálise, para debater o curta metragem, premiado, de 8 minutos: Vida Maria, em 3D, do animador gráfico, Márcio Ramos, tomei este título como mote. Para mim, o curta se enquadra na perspectiva de (Morte e) Vida Severina, como uma alegoria, talvez em defesa do feminismo. Trata-se da história de meninas, impedidas de, ao menos ‘desenhar seu nome’ em caderno, no sertão semiárido. A mãe barra o sonho da menina Maria das Dores e num discurso plástico, rápido e congruente, o filme mostra essa menina, em alguns segundos, fazendo o que seria sua história, virando moça, no mesmo serviço e, daí, virando mãe que, por sua vez, interromperá o sonho da filha, Maria de Lourdes, de desenhar seu nome no caderno. O fecho do filme mostra o caderno aberto, abandonado, e o vento passando as folhas anteriores de quantas Maria já haviam iniciado a escritura do seu nome. Um hagiológico cristão, ou pelo menos católico.

O curta revela a lógica do ciclo do tempo – característica dos povos ‘primitivos’, e dos grupos étnicos rurais e das florestas. Parte desse ciclo do tempo ainda pode ser encontrado em nossas famílias rurais que esperam o dia de Santa Luzia e o de São José, como limites para pensar a agricultura e o ano seco ou chuvoso. Em contraposição, surgiu, na Europa do século XIX, o conceito moderno de História, como sendo a lógica da seta do tempo. Foi, por esta perspectiva que, ao constituir o novo conceito de História, principalmente baseado no filósofo Hegel, os europeus alegaram que a África não possuía História.

No entanto, para este novo conceito, a história poderia se repetir e que devesse ser tomada como um paradigma pedagógico: a história ensina – História, Magister Vitae. ”Hitler perdeu a guerra por não ter se respaldado na experiência negativa de Napoleão, ao invadir a Rússia no inverno…”. Ao mesmo tempo, em que História passava a ser sinônimo de Verdade, quase que dogma, e cristão: Quod scripsi, scripsi: a verdade se encontra na escrita (dentre outros paradigmas que incluem os de política, justiça, sentido, racionalidade, discurso). Ao mesmo tempo, surge também na Europa uma nova concepção de história: o homem faz a sua própria história, mas dentro de circunstâncias por ele não escolhidas, um mundo já prefigurado, contra o qual terá de lutar: o fazer história é um ato político. Não é o homem, indivíduo e, sim, o homem social, a classe.

Não se pode dizer que o filme retrata a realidade, é uma metáfora. Se os personagens do curta podem ou não (re)tomar a história em suas mãos e fazê-la acontecer, não depende tão só do indivíduo; há toda uma mentalidade e uma (in)disposição para se lançar do pobre incômodo – ciclo do tempo, arena da etnia, ao incômodo despertar – seta do tempo, e marcar seu lugar na arena da cidadania. Cito, como impasse, os carroceiros, catadores de lixo, do Pedregal, que carregam em suas carroças os filhos e filhas que vão ajudar e que repetem (repetirão?) a profissão dos pais.

Se História se repete ou não, torna-se uma discussão bizantina

(*) Professor, historiador

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