A Gruta do Caboclo

Vanderley de Brito. Publicado em 19 de janeiro de 2019 às 7:41

No Curimataú paraibano, distante 2,5 km a sudeste da sede do município de Algodão de Jandaíra, Gruta do Caboclo encontra-se na face leste da Serra do Algodão, antigamente denominada de Serra da Canastra. O acesso à Gruta se dá subindo a Serra pela sua face oeste até o dorso, formado de rocha magmática muito deformada por forças meteóricas, onde há inúmeras pequenos poços e sulcos marcados pela erosão no lajedo. Após uma capela lá existente, é necessário, com auxílio de cordas, descer para a meia encosta da Serra, um perigoso descaimento de aproximadamente 20m por lajedo liso e íngreme, até chegar a uma plataforma granítica que se forma aproximadamente a 30m de altura em relação à base da serra, onde se encontra a Gruta, uma grande cavidade esculpida durante milênios por forças naturais, químicas e físicas, na dura rocha granítica.

A Gruta trata-se de uma concavidade formada na rocha estendendo-se por aproximadamente 20m, tendo em média 12m de altura e uma profundidade de 11m, cujas paredes internas, arqueadas para a base, formam-se inúmeras, pequenas e rasas, cavidades que lhe dão o aspecto de uma gigantesca colmeia pétrea.

Devido sua pequena profundidade em relação a grande proporção de abertura, a Gruta é perfeitamente iluminada pela claridade solar e permite visualizar uma bela paisagística, abrangendo uma vasta extensão plana, revestida por uma vegetação porte médio de leguminosas, com inclinação para o vale do sinuoso riacho dos Negros.

Na parede de fundo onde existem inúmeras pichações e algumas imagens de santos católicos em gesso depositados nas fendas, a Gruta apresenta, na sua porção esquerda, pinturas rupestres em tom vermelho formando dois grupos de bidígitos, um no sentido horizontal e o outro no sentido vertical. São traços paralelos medindo aproximadamente 15cm, estando o grupo vertical a 1,7m do piso e o horizontal a 1,2m. Não foi encontrado nenhum outro vestígio de pintura rupestre na Gruta.

O piso da Gruta é granítico inclinando-se para a esquerda, onde há uma pavimentação de areia branca e fina misturada a pequenos fragmentos de ossos, alvos e porosos, que demostram terem sido queimados. Indubitavelmente tratam-se de ossos humanos muito antigos.

Portanto, a Gruta do Caboclo é um sítio arqueológico que, com suas inscrições rupestres, também serviu de necrópole onde, provavelmente, grupos primitivos praticaram rituais fúnebres. Homens pré-históricos cuja estatura girava em torno de 1,8m e seus rituais de enterramento envolviam a queima parcial dos esqueletos.

A primeira escavação arqueológica sistemática ocorrida em território paraibano, segundo nos consta, foi empreendida em fins do século XIX pelo Capitão João Lopes Machado no pavimento dessa mesma Gruta do Caboclo. Numa carta remetida para seu irmão, o historiador Maximiano Lopes Machado, em 9 de julho de 1874, o arqueólogo amador descreve minuciosamente o desenterramento até a terceira camada da areia existente nesta furna, onde encontrou ossos descomunais, cabelos de mais de um metro de comprimento e uma tanga de palha que se desmanchava ao mais leve contato. Concluindo tratar-se da necrópole de uma raça extinta, o que mais impressionou o Capitão foi como podiam ser levados para ali os cadáveres, pois para acessar esta gruta é preciso subir a serra e descer depois com grande risco por uma encosta quase à prumo, estando a abertura a muitos pés do solo. Este relato foi parcialmente publicado na obra de Maximiano Lopes Machado “História da Província da Paraíba” de 1912.

Ao longo dos anos, muitos outros pesquisadores estiveram nessa singular Gruta e registraram suas impressões, dentre os quais destacamos: o professor de latim Joaquim da Silva, que referiu-se em um manuscrito de 1881, existente na Biblioteca Nacional, na Gruta haverem caracteres e que os primeiros visitantes encontraram esteiras apodrecidas, cruzes de ossos e outros objetos, considerando o local o destino de cadáveres dos primitivos habitantes da Terra. Nosso ilustre José Américo de Almeida também se refere à Gruta como um sombrio jazigo de um imenso e singular ossário. A historiadora Eudésia Vieira, em sua obra “Terra dos Tabajaras”, comenta sobre inscrições e esqueletos numa caverna da Serra do Algodão e também, Horácio de Almeida, em sua obra “Brejo de Areia”, de 1958, alude sobre a necrópole indígena da Serra da Canastra.

Infelizmente, data também de muito tempo o vandalismo nesse sítio arqueológico. O historiador Irenêo Joffily relata em sua obra “Notas sobre a Paraíba”, de 1892, ter estado nessa furna, pisando o pó fino que os séculos tinham acumulado em seu solo granítico, procurando nas paredes, cheias de riscos amarelados, um sinal que explicasse o mistério. Joffily lamenta indignado e denuncia a devastação exercida por visitantes ignorantes, que o precederam em diversas épocas, que divertiam-se lançando crânios de serra abaixo. Também estive em pesquisa nessa Gruta por duas ocasiões e pude constatar pichações em suas paredes, um sinal de desrespeito a este importante patrimônio arqueológico que por séculos guardou indícios dos mais remotos povos que habitaram a região.

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Vanderley de Brito

Historiador, Arqueólogo, Presidente do Instituto Histórico de Campina Grande e membro fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia.

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