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A feira de Campina

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 17 de abril de 2019 às 10:06

A Feira Central é, sem dúvida, o maior patrimônio, não só afetivo, de Campina Grande, com poucos ou nenhum similar em todo o Brasil, tal a variedade de produtos comercializados, os tipos humanos que a frequentam e fazem desse espaço um meio de vida tanto para os que vendem como para os que ali vão comprar. Sem deixar de lado a grande importância econômica, já que para o local convergem pessoas de 28 cidades da região de influência.

Na sua extensão limitada de 7,5 hectares, e, num ambiente caórdico, onde predomina a alegria que combina características de caos e ordem, circulam por dia aproximadamente 60 mil pessoas. São becos estreitos, aparentemente confusos na sua geografia própria, onde são mantidos cerca de 12 mil empregos e sete mil pontos comerciais de todos os tipos. Por aproximação estatística, fruto de informações dos próprios comerciantes, estima-se que são 70% microempreendedores e 30% de empreendedores de maior porte.

Na grande feira se misturam carroceiros se espremendo e espremendo os transeuntes, balaieiros, flandeiros, e toda uma imensa variedade de produtos: frutas, hortaliças,  cereais, ervas, carnes, animais (vivos ou  abatidos), roupas, flores, doces, artesanato, acessórios para pecuária, comida regional e uma oferta inimaginável de serviços, muitos dos quais mantendo a originalidade de quando ali se instalaram as gerações passadas.   E um extenso leque de serviços, que trazem consigo os personagens que dão vida ao lugar: seleiros, mangaieiros, barbeiros, raizeiros, fateiros – e tantos outros mestres, com seus saberes e ofícios tradicionais. Sem esquecer os emboladores de coco, repentistas, engolidores de fogo, os mototaxistas, os taxistas, os operadores de Uber, etc.

De segunda a sábado, o movimento caótico de pessoas e mercadorias atrai pelo tamanho, relevância e diversidade. Ao contrário o que se diz sobre os mercados do tipo existentes na região e no país, somente aqui é possível encontrar tudo aquilo que se procura.

Cerca de 75 mil metros quadrados constituem a base da Feira, que se amplia para além de seu território, entre ruas e barracas, nos dias de mais movimento. Seus limites, que extrapolam os originais, vão da Floriano Peixoto à Quebra Quilos, da Vila Nova da Rainha, ao Canal da Piabas.

A construção desse mercado foi a evolução natural das estruturas que existiam desde a fundação da cidade, que passaram pela Rua Maciel Pinheiro e outros locais do hoje centro.

A obra foi iniciada em 1939 pelo Prefeito Bento Figueiredo e ocupada em 1941 por Vergniaud Wanderley, ocasionando a transferência da feira de gado que ali havia para o Bairro de José Pinheiro.

Incluindo a feira propriamente dita, os estabelecimentos comerciais de maior porte, como supermercados e as atividades subsidiárias é possível deduzir que o peso da Feira para a economia de Campina Grande, que gira em torno de 8%% do produto interno bruto do município, algum valor da ordem de R$ 650 milhões/ano.

Em 2019 será a comemoração de dois anos do registro da Feira Central de Campina Grande como Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil, láurea pouco distribuída em nosso país. Ninguém possui a beleza algo rude, as cores e os cheiros de nossa feira. Maravilha que encanta a todos que a conhecem, sejam daqui ou de fora.

Esse registro nos enche de orgulho na terra que tem o privilégio de ter tido duas denominações belas, registradas em verso e prosa por figuras geniais como Jackson do Pandeiro, Raymundo Asfora, ou no comentário de Gilberto Gil ao sugerir nossa ânsia de imitar Nova Iorque. Somos a Vila Nova da Rainha e a Grande Campina.

No entanto, uma abordagem das estruturas da Feira Central, a avaliação de suas condições físicas e sanitárias, mostra o inexplicável estado de abandono a que relegada. Já imaginaram o desastre que seria um incêndio nas áreas de confecção e artesanato? Um curto-circuito em outras áreas?  Para alguns está viva na memória a destruição do Mercado Modelo de Salvador, na Bahia, em área que nem 5% da nossa feira, e das consequências daí advindas.

Em relação à Feira não existem estudos/projetos (ou estão dormindo nos escaninhos da burocracia) de lay out e adequação dos espaços, padrões para coberturas, boxes, bancas e manipuladores de produtos vendidos, não existem sanitários e banheiros, pias, esgotos, água encanada. Não se sabe o estado das instalações elétricas, não se conhecem áreas para descarga e armazenamento, coleta de lixo e sua destinação.  Existe posto de primeiros socorros? Existe brigada de combate a incêndio? A Guarda Municipal e a Polícia Militar estão presentes?

 “As nossas rugas são registro vivo. Cronógrafo a guardar instantes de eternidade. Como mexer no que é perfeito, sem alterá-lo?”

O maior desafio é promover todas as modificações que se fazem necessárias sem desfigurar a feira, sem remover suas rugas que são de beleza ímpar.

Qual tal celebrarmos dois anos da distinção honorifica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), com uma obra em andamento que faça jus à comenda e não as costumeiras festas para “encher linguiça”? Ah! Que não ouçamos, agora, como desculpa, que os projetos estão prontos e o Prefeito em breve anunciará a licitação.

Seria mais um brilhante na Coroa da Rainha.

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Economista.

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