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Campina Grande - PB

A Feira da Prata

18/12/2017 às 8:09

Fonte: Da Redação

Foto: Leonardo Silva/ Paraibaonline

Por Benedito Antonio Luciano (*)

De acordo com registro cartorial, a propriedade denominada “Fazenda Prata”, pertencente ao Sr. Severino Morais de Araújo foi adquirida pelo Sr. Raimundo Viana de Macedo, em 9 de fevereiro de 1925, dando origem ao atual Bairro da Prata, a partir do loteamento dessa grande propriedade que havia permanecido intocada dentro do perímetro urbano de Campina Grande – PB.

Segundo informação do meu amigo Antonio Araújo de Queiroz, por volta de 1957 teve início a construção do Mercado da Prata, sendo concluído em 1960.

Em termos de localização, o Mercado da Prata foi construído na quadra que atualmente é delimitada ao leste pela Rua Duque de Caxias – 100 m; ao norte pela Av. Barão do Rio Branco – 128 m; ao leste pela Rua Montevidéu – 100 m; e ao sul pela Rua Dom Pedro II – 128 m.

Constituído por dois blocos, a ideia inicial era de o primeiro prédio abrigar os boxes comerciais e o segundo funcionar como depósito. Entretanto, a partir do decênio de mil novecentos de setenta, o segundo bloco passou a ser utilizado como local para venda de carnes, visto que antes as carnes eram vendidas em barracas à frente do primeiro prédio.

Diferentemente da Feira Central de Campina Grande, cujos dias de maior movimento eram nas quartas e sábados, na Feira da Prata os dias de maior movimento, em termos de comercialização, eram nas quintas e domingo.

Entre os decênios de 1960 e 1970, apesar de conviver com sérios problemas infraestruturais e sanitários, a feira cresceu em todos os sentidos em torno dos dois blocos e entre eles.

Naquela época, entrando na feira no sentido do Bairro da Bela Vista para o Bairro da Prata, encontrávamos à venda: frutas, roupas, calçados, utensílios domésticos, brinquedos,  aves vivas (galinhas, perus, guineis, patos, paturi…), verduras e cereais.

No bloco da frente os boxes eram numerados. Durante algum tempo, no box 1 funcionou o Bar Dreher, pertencente aos irmão Clóvis e Hernandes Fernandes; os boxes 2 e 3 pertenciam ao Sr. Luiz Queiroz; o box 4 pertencia ao Sr. Galvão; o Box 5 ao Sr. Antonio, o box 6 ao Sr. Antônio Félix de Carvalho, avô do colega Antonio Araújo de Queiroz; o proprietário do box 7 era o Sr. Cícero Rocha; Joca Leite era o proprietário do box 8; os boxes 9, 10, 11 e 12 pertenciam ao Sr. Antônio Soares; os boxes 13 e 14 eram de propriedade do Sr. Wilson Costa, conhecido como Wilson da Banana; os demais, se tinham proprietários, eu não lembro os nomes.

No bloco de trás, conhecido como a feira de carnes, eram comercializadas carnes de boi, porco, bode e carneiro. Posteriormente, no mesmo local, passou-se a comercializar aves abatidas, bebidas e alimentação.

Entre o bloco da frente e o bloco de trás funcionava a feira de peixes (de água doce e de água salgada), verduras, temperos e ervas medicinais. Neste particular, destaco aqui uma estrofe do cordel intitulado “A grande Feira da Prata na Cultura Nordestina”, de autoria de Toinho da Mulatinha: “Garrafada florestal/Boa serve de conforto/Levanta até homem morto/É o chá medicinal/Uma planta vegetal/Que vem de Minas Gerais/Casca que vem de Goiás/ E doutras localidades/umas 70 qualidades/De plantas medicinais”.

Mas, a Feira da Prata não era apenas um ambiente de comercialização, nela havia expressões vivas da arte e da cultura popular, pois era usual encontrarmos: violeiros; emboladores de coco, como Dedé da Mulatinha e Columbita; vendedores de cordéis; mágicos ilusionistas; malabaristas; “comedores de vidro”; e camelôs.

Efetivamente, num registro desta natureza não poderia esquecer o fato de o terreno livre localizado em frente da Feira da Prata ter sido utilizado ocasionalmente para a montagem de circos populares, dentre eles o famoso Circo Arte Palácio, do qual guardo como lembrança uma fotografia da artista mirim Ciana Maria.

Também estou certo que para além dos registros memoriais aqui relatados, de forma sumária, há muito mais para ser contado sobre a Feira da Prata. Porém, isto se torna impraticável no espaço de uma crônica. Por este motivo, não vou me alongar nos detalhes, saltando para a história mais recente.

Mediante decreto municipal, datado de 24 de abril de 2006, o imóvel e o terreno sobre o qual foi construído o antigo e tradicional Mercado da Prata foram declarados de utilidade pública para fins de desapropriação, dando início ao processo de revitalização da Feira da Prata pela Prefeitura Municipal de Campina Grande.

Sem me deter nas motivações políticas que resultaram na reestruturação, nem estabelecer comparação entre a feira antiga e a atual, gostaria de destacar apenas dois pontos singulares que permaneceram inalterados na relação entre os antigos feirantes e alguns compradores: a fidelidade e a confiança mútua. Isto pode ser ilustrado, por exemplo, pela venda para pagamento posterior, com o débito anotado em uma caderneta, sistema ainda hoje adotado entre alguns desses remanescentes.

(*) Professor Titular do Departamento de Engenharia Elétrica da UFCG

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