Fechar

Fechar

A fé como dom pascal

Padre José Assis Pereira. Publicado em 7 de abril de 2018.

O tempo pascal, estes cinquenta dias que estamos celebrando na Sagrada Liturgia é um tempo forte de graça e de vida nova em que a Igreja nos convida a amadurecermos em nossa fé, sintamos mais intimamente nossa pertença à comunidade cristã, e nos comprometamos com a grande missão de testemunharmos nossa fé cristã neste mundo tão hostil.

Terminada a “oitava” da Páscoa, a Palavra de Deus deste Domingo gira em torno da centralidade da fé em Jesus Ressuscitado, como núcleo do “kerigma” cristão que devemos anunciar ao mundo: O crucificado ressuscitou! (cf. At 4,32-35)

O evangelho (cf. Jo 20,19-31) nos dá a chave do que significou este anúncio. E nos apresenta Jesus no centro, como ponto de referência da comunidade que vive num clima de insegurança e fragilidade. Aquele pequeno grupo de homens e mulheres cheios de medo, inclusive como Tomé, com suas dificuldades em crer no que alguns irmãos e irmãs testemunhavam como algo vivido por eles: “Vimos o Senhor!”

A esta comunidade antes fechada, mergulhada nas trevas de um mundo hostil, Jesus transmite “a paz” e torna possível a “alegria”. Abre caminho à esperança no coração de quem descobre, finalmente, na vida de Cristo, não um percurso de morte e de fracasso, mas o cumprimento de todas as expectativas: o perdão dos pecados, a reconciliação com Deus. Assegura-se, assim, aos discípulos que Ele venceu aquilo que os assustava: a morte e a hostilidade do mundo; e que, doravante, os discípulos não têm qualquer razão para temer.

Esta experiência do encontro com o Ressuscitado gera a comunidade. Lucas nos Atos dos Apóstolos num sumário sintético, mas intenso, dá-nos uma imagem sugestiva da comunidade das origens (cf. At 4,32-35): ”A multidão dos fieis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum… entre eles ninguém passava necessidade”. A fé em Cristo torna-se concretamente visível na comunhão de vida e sentimentos que os que haviam abraçado a fé viviam no interior da comunidade, mas, sobretudo na prática da caridade e são estes dois aspectos do testemunho dos cristãos que atrai a admiração e a simpatia dos pagãos.

A comunidade cristã é uma comunidade que testemunha o Ressuscitado não simplesmente através de uma bem elaborada doutrina, de um discurso bem elaborado, feito de palavras elegantes, capaz de seduzir e de manipular as massas. O testemunho mais impressionante, convincente e credível será precisamente o feito de ações e gestos

concretos de comunhão de vida dos discípulos…

Cristão, não é propriamente quem conviveu diretamente com Jesus. Não foram poucos os que conviveram com Ele e o viram caminhar por suas cidades, anunciar a Boa Nova do Reino, curar enfermos, e, no entanto, não se converteram em crentes. O crente se constitui como tal quando se dá o encontro pessoal, íntimo, profundo, com o Jesus que se nos revela ressuscitado.

As duvidas e a incredulidade de Tomé se converte em uma benção para nós que não vimos Jesus com nossos próprios olhos, faz uns 2000 anos, quando pregou na Galiléia e morreu crucificado em Jerusalém. Cremos sem tê-lo visto, humanamente falando, mas sim, tendo-o experimentado ressuscitado e vivo em nossas vidas, tantos séculos depois. Isto é o que nos faz destinatários do louvor de Jesus Ressuscitado: “Bem aventurados os que creram sem terem visto” (v. 29).

As duvidas de Tomé são as duvidas de todos. A razão não o leva a entender o mistério que supõe o fato em si da ressurreição de Jesus. Se sente impotente. A fé não se impõe pela força. Menos ainda, requer uma “cruzada” contra o mundo para que seja aceita a mensagem de que Jesus venceu a morte. A fé surge como dom do Senhor Ressuscitado, fruto do encontro pessoal com Ele. Em que Deus toma a iniciativa e a pessoa responde livremente. Sem essa experiência do encontro pessoal com Jesus Ressuscitado a fé não nasce.

Antes que uma adesão a um conjunto de verdades doutrinárias, a fé é uma experiência interior, um encontro vivo, um dom que se acolhe livremente e transforma a existência. Dom pascal do Espírito que é derramado em nossos corações. O ponto de arranque da vida cristã. A que devemos voltar permanentemente para renovar nossas vidas como homens e mulheres de fé.

A fé em Cristo Ressuscitado nos exigirá como resposta que demos testemunho desta experiência pascal diante dos outros. Que a anunciemos, com nossa pregação, caridade fraterna e estilo de vida evangélica. Que superemos todos os medos interiores que nos paralisam. Graças ao testemunho de quem conviveu com Jesus e, especialmente, o viram ressuscitado, os que puderam identificar o crucificado por suas chagas e feridas com o Ressuscitado glorioso e vencedor da morte, podemos hoje identificar nossa própria experiência de fé com a dos primeiros cristãos. Possivelmente, nem todo mundo crerá na veracidade da experiência pessoal de Jesus Ressuscitado vivo em nós. Nem na Palavra mesma de Deus que o atesta. Duvidaram de que Jesus havia ressuscitado verdadeiramente. Inclusive, nós como crentes, não poucas vezes nos invade todo tipo de duvidas de fé. Todos nós devemos pedir humildemente o dom da fé. E, ao reencontrar-nos novamente com Ele, dizer como Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” (v. 28) E convidar todo o mundo ao encontro pessoal com Jesus Ressuscitado, como inicio de uma vida nova, renovada, iluminada pela luz pascal.

Fé e amor vão juntos. O cristão é aquele cuja fé lhe permite, além disso, ver e contemplar o Senhor Ressuscitado em tudo. No próximo e em si mesmo. O ressuscitado não é “espírito desencarnado”, mas sim alguém real e concreto, com suas chagas e sofrimentos. O cristão o pode “tocar” nos enfermos, nos marginalizados, nos que sofrem o abandono e a solidão, violência e todo tipo de afronta à sua dignidade. Também “apalpá-lo” compartilhando suas próprias feridas, sua enfermidade ou sofrimentos, despertando esperança em sua vida e dando-lhe paz e consolo na dor. Experimentá-lo vivo, como alguém que assume sua causa e lhe dá esperança pascal.

A autenticidade da fé em Jesus Ressuscitado leva o cristão a compartilhar, não só seu “bem espiritual”, sua fé, mas também os bens materiais, sociais, econômicos, educativos, jurídicos, com os necessitados de todo tipo: pessoas sem trabalho, sem cobertura social, sem acesso a direitos humanos básicos, com outras crenças e ideologias, afastados até da Igreja… Não se pode crer e não amar. Viver a fé sem romper os muros que nos separam não desejar que cheguemos a ter a humanidade inteira “um só coração e uma só alma”.

A presença do Ressuscitado no meio da comunidade, a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte, é a vitória de Deus sobre o poder que impede a vida plena à humanidade. Como cristãos não podemos seguir fechados em um mundo de medos, paralisados, desanimados, com sentimentos de fracasso. Nossa esperança não está posta em si em nossas igrejas cheias ou vazias de fiéis, mas sim no poder da ressurreição de Jesus sobre o pecado e a morte. Por Ele temos assegurada a vitória final: de que um mundo diferente é possível como dom do Ressuscitado. Ele é quem garante que o bem vencerá o mal. Que a humanidade inteira gozará dos bens do Ressuscitado. A esperança que anima o cristão em sua vida de testemunho do Ressuscitado.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

Simple Share Buttons

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube