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A esperança cristã

Padre José Assis Pereira. Publicado em 11 de novembro de 2017.

Por Padre José Assis Pereira

Estamos no final do Ano Litúrgico. Os Evangelhos desses últimos domingos são tirados dos capítulos 24 e 25 do Evangelho segundo São Mateus, e correspondem ao quinto e último discurso de Jesus, ao chamado “discurso escatológico”, através de três parábolas e da impressionante descrição do “juízo final”, Mateus nos leva a refletir sobre a segunda vinda de Jesus e a atitude com que os discípulos devem preparar essa vinda e o fim dos tempos.

A primeira geração dos cristãos pensava que o fim do mundo estaria próximo e sonhava em ver Jesus voltando glorioso. Mesmo antes de Jesus chegar, havia gente do povo que pensava que a vinda do Messias coincidiria com o fim do mundo. Algumas frases de Jesus, tomadas ao pé da letra, sugeriam a proximidade do fim. Porém, à medida que o tempo passava, no final do séc. I, por volta do ano 80, já tinha passado a febre escatológica e os cristãos já não mais esperavam a vinda iminente de Jesus.

Muitos desanimavam de se esforçar nas virtudes, a vida de fé tinha arrefecido e muitos duvidavam das promessas de salvação trazidas por Jesus, alguns até sentiam-se enganados, a comunidade se instalou na rotina e no comodismo. Era preciso algo que despertasse os discípulos de sua letargia para o compromisso com o Evangelho.

No discurso escatológico do Evangelho segundo Mateus, Jesus volta a usar uma parábola para falar do seu Reino: “O Reino dos céus é como a história das dez jovens que pegaram suas lâmpadas de óleo e saíram ao encontro do noivo…”(cf. Mt 25,1-13).

A festa de casamento judaica, carregada de ritos simbólicos, serve a Jesus como cenário para falar do Reino dos céus. Ele se fixa na cerimônia da ida do noivo à casa do pai da noiva para levá-la para a sua nova casa, e a recepção e acompanhamento que fazem as amigas da noiva na festa de casamento. Esperavam todas com as lâmpadas acesas e sua alegria pata acompanhar a noiva, entre danças e cânticos à sua casa nova, lugar da festa do casamento. Todos juntos iam até a sala do banquete, inundada de luz e de alegria. Fechava-se então a porta e a noite, escura e triste ficava lá fora, em forte contraste com a luz e o alvoroço que havia dentro, na sala da festa.

Isso vem a ser o Reino dos céus, uma festa, como um banquete de casamento. O noivo que está para chegar é Cristo Jesus, mas Ele se atrasa, quando menos se espera talvez, chegará para celebrar para sempre a grande festa nupcial. Então quem tiver se preparado, com sua lâmpada acesa, quem tiver viva a sua fé, a esperança acordada e ardente a caridade, esse entrará na sala do Reino, participará dessa festa que nunca se acaba. Em troca, o que não tiver se preparado, com sua lâmpada sem azeite, quem tiver o coração seco e frio, quem estiver vestido dos trapos do pecado, quem dorme o sono dos apáticos e fúteis, quem só pensa em si mesmo, esse ficará de fora, imerso nessa escura noite, sem amanhecida possibilidade.

Disse Jesus aos seus discípulos que aquele que espera o Reino dos céus deve imitar as cinco jovens previdentes, que esperaram o noivo com as lâmpadas acesas. A nós cristãos é-nos confiada a responsabilidade da espera.

A vida humana é uma continua expectativa do futuro. Quando vamos dormir, esperamos despertarmos pela manhã. Quando nos levantamos, pensamos na hora em que deveremos ir trabalhar. Quando trabalhamos, nos consola o pensamento do momento em que poderemos voltar a nossa casa. Se perdêssemos a esperança no futuro, perderíamos a força de viver. Se um dia o sol deixasse de brilhar, terminaria a vida sobre a terra. De fato, seria mais fácil viver sem o sol que sem a esperança. Esta é a razão pela qual Dante colocou sobre a porta do inferno a inscrição: “Vós que entrais aqui, deixai toda esperança!”. Portanto, esperar é belo, tem um quê de alegria da juventude, mas quantas ilusões e desilusões isso implica! E quão perigoso é construir o edifício da vida sobre o que se “sonha” ou se imagina fantasiosamente.

O cristianismo enumera a esperança entre as três virtudes divinas, “teologais”, que têm sua origem e se apoiam em Deus para ser fundamente da vida eterna, na Escritura, o símbolo de esperar com uma esperança sólida está representado pelo povo de Israel do Antigo Testamento.

Saber esperar, saber viver. Quanto mais se ama uma pessoa, tanto mais se está disposto a esperá-la. E quanto mais se espera, tanto mais cresce o desejo e o amor por ela. Os pais e mães, e os bons amigos sabem muito bem disso. A última luz que se apaga numa casa é a de quem espera que o outro chegue. Quem ama vive “na espera”. O cristão formará dentro de si um espaço para a espera, onde ela possa viver. E estará sempre pronto, porque fará da espera o seu próprio modo de vida, num continuo ato de amor.

As dez jovens da parábola estavam todas à espera do noivo, todas elas cochilaram, a única diferença é que as cinco previdentes se prepararam para a demora e as outras não. Devemos viver sempre preparados para e experiência feliz e alegre do encontro com Jesus, com Deus, pois a qualquer momento Ele pode chegar. E como não sabemos quando, devemos viver preparados, quer dizer, esperando-o sempre, durante toda a nossa vida. E devemos fazê-lo com esperança ativa, como o fizeram as cinco jovens previdentes.

Embora a parábola se refira, primordialmente, ao nosso encontro final com Jesus, todos nós temos consciência de que esse momento não será o nosso único encontro com o Senhor… Jesus vem sempre ao nosso encontro, todos os dias e reclama o nosso empenho e o nosso compromisso, enquanto vigilantes esperamos, na construção de um mundo novo.

Estar preparado é saber escutar as palavras de Jesus, acolhê-las no coração e viver de forma coerente com os valores do Evangelho todos os instantes da nossa existência. Nós não podemos relaxar a vigilância e enfraquecer o nosso compromisso com os valores do Reino. Com o passar do tempo, tanto nós como as nossas comunidades cristãs têm a tendência para a instalação, a acomodação, o relaxamento, a sonolência do desânimo, no descuido, numa vida de fé que não compromete, que não questiona, numa religião de facilidade, num testemunho pouco empenhado e pouco coerente, por isso mesmo pouco convincente.

É preciso que o nosso compromisso cristão se renove cada dia. A certeza de que Ele virá outra vez ao nosso encontro, deve impulsionar-nos a uma esperança ativa, um compromisso ativo com os valores do Evangelho, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao compromisso com o Reino.

A esperança ativa supõe a vigilância contínua sobre nossa maneira de pensar, de falar, de nos comportar. Ser cristão supõe esforço, luta contra nossas más inclinações naturais. Porque, de fato todos nascemos com uma inclinação original ao pecado, ao mal. É certo que também nascemos com boas inclinações, ao bem, mas nossas boas inclinações naturais sempre, durante toda nossa vida, estão mescladas e muito limitadas por nossas inclinações más. Ser bom, ser boa pessoa, não é um presente de nenhum deus, supõe luta contínua e esforço pessoal continuado.

Imitemos as jovens previdentes da parábola, com o azeite da virtude sempre aceso, para que possamos receber a Deus, quando nos chamar. Só assim poderemos entrar na festa que é o Reino dos céus, e que Deus tem preparado para todos seus filhos desde o princípio da criação.

 

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

falecom@fhc.com.br

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